Número 959,

Internacional

The Observer

Curdistão: A hora da partilha

por The Observer — publicado 10/07/2017 00h13, última modificação 07/07/2017 13h40
Os curdos veem chance de fazer avançar sua causa e construir sua nação entre as ruínas do Estado Islâmico
Marwan Ibrahim / AFP
Curdistão

Wasta Rasul, general Peshmerga, comandante em Kirkuk, em entrevista coletiva. Militares curdos são decisivos no Iraque

Por Martin Chulov

Enquanto o que resta do Estado Islâmico desmorona, os vencedores voam em círculos. Em Mossul, as forças iraquianas iniciam os preparativos para a paz na cidade onde os rebeldes, hoje cercados, se enraizaram três anos atrás.

Do outro lado da fronteira, em Rakka, com cinco bairros sob seu controle, as forças curdas calculam os próximos passos para a sua causa. Planos são rapidamente tramados por todos os grupos com participação nos muitos anos de guerra e perdas.

A Rússia, os EUA e o Irã disputam vantagens nos amplos territórios da Síria e do Iraque detidos pelo grupo prestes a capitular. O prêmio é muito maior do que reivindicar a vitória militar inevitável contra o EI. Está em jogo, para todos os lados, o futuro da região e uma oportunidade de moldá-la ao seu gosto.

A lista de desejos é ampla e divergente. A Rússia quer estabelecer uma presença no centro da região, com músculo político e interesses reforçados em gás e petróleo. O Irã, consolidar um papel decisivo nos dois países. E para os EUA, na falta de uma estratégia mais ampla, atrapalhar seus rivais.

Em meio às lutas de poder dos grandes, outros também perceberam oportunidades no caos. Os curdos do Iraque e da Síria não se esforçam para esconder que o vácuo pós-EI marca um momento raro, potencialmente histórico.

No norte do Iraque, o presidente da região curda praticamente autônoma, Massoud Barzani, convocou um referendo sobre a independência para 25 de setembro. Na Síria, forças curdas formadas pelos EUA e enviadas para expulsar o EI de uma de suas duas últimas cidadelas acreditam estar em posição de negociar maior autonomia.

Através do confuso campo de batalha criado por uma série de conflitos concorrentes dentro de uma guerra, as forças curdas apoiadas pelos EUA fazem avanços continuados em Rakka. No Iraque, nas primeiras fases da luta por Mossul, os peshmerga tiveram papel importante para garantir a abordagem da cidade pelo norte e o leste. 

Seu papel no Iraque e na Síria é considerado pelas duas facções curdas uma alavanca importante para as negociações. Mas o Iraque e a Turquia disseram que não apoiarão uma divisão do Iraque, simbólica ou não, e não querem nada diferente dos arranjos atuais, que permitem – a contragosto no caso de Bagdá – que os curdos vendam petróleo de campos no norte do Iraque por um oleoduto que eles construíram até a Turquia. 

Os EUA recusaram-se a apoiar a independência curda desde a invasão para depor Saddam Hussein, aliando-se à posição de que um Iraque unido é mais útil a seus povos díspares. Além disso, há receios explícitos dos aliados regionais de que a divisão do Iraque segundo linhas étnicas ameace diretamente suas fronteiras.

“Essa posição não mudará”, disse uma autoridade graduada dos EUA. “Não é hora de redesenhar fronteiras, especialmente no Iraque e na Síria. Esse discurso só pode ser promovido por um amplo consenso regional. E não estamos nem perto disso.”

A Turquia, que forjou estreitos laços econômicos com o Curdistão iraquiano para manter o status quo, opôs-se de forma ainda mais veemente ao apoio dos EUA aos grupos curdos na Síria, apontando suas ligações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), com quem Ancara lutou uma insurgência de 40 anos dentro de suas fronteiras.

O ministro da Segurança do Curdistão iraquiano, Masrour Barzani (filho do presidente), diz na capital, Erbil, que a Turquia nada tem a temer. “O referendo moldará a relação bilateral entre o Curdistão e o resto do Iraque”, disse ele. “Não pretendemos mudar as fronteiras de Estados vizinhos, apenas formalizar a fronteira delineada entre o Curdistão e o resto do Iraque.

Está na hora de aceitar que o modelo atual não funciona. O Iraque está dividido na prática e a votação refletirá a realidade. Esse referendo será definitivo. Ele nos dará um mandado para negociar um acordo pacífico com Bagdá que reconheça as legítimas aspirações do nosso povo.”

Bagdá também quer seu pedaço de torta pelo papel que suas forças desempenharam na recaptura de cidades perdidas há três anos. Há pouca disposição entre seus líderes de ceder grande parte do país ou negociar questões angulares como Kirkuk ou as receitas do petróleo como preço da vitória.

“Eles pensam que ganharam a guerra?”, perguntou um parlamentar tarimbado na capital iraquiana. “Temos dezenas de milhares de mártires e eles 42. Se pudéssemos nos livrar deles mantendo o que é nosso, o faríamos. Mas não podemos.”

Na Síria, onde combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS) tomam Rakka aos poucos, depois de avançar pelo nordeste do país e dominar áreas em mãos do EI pelo caminho, um choque direto entre o regime sírio e a Força Aérea dos EUA na semana passada derrubou um jato sírio a sudoeste da cidade.

“Eles bombardeavam nossas posições”, disse um porta-voz das FDS, Talal Selo. “Atacaram- -nos três vezes, deliberadamente. Pensam que avançar contra o EI pelo sul da cidade deve ser sua função.”

Quando a campanha de Rakka começou, em 6 de junho, Washington disse que havia 2,5 mil combatentes das FDS prontos para lutar. Desde então, 15 foram mortos, juntamente com mais de 300 membros do EI. 

Ao sul de Rakka, a luta para eliminar o que resta do EI caminha para um conflito maior. O Irã mobilizou forças de milícias que ele apoia para o Vale do Eufrates, uma área essencial de influência nos últimos 14 anos.

A consequência disso foi conter os planos dos EUA de se mover para a área de enclaves mais ao sul. O problema de estabelecer a influência dos EUA na área e garantir um legado quando o EI for derrotado em Rakka consome os planejadores em Washington nas últimas semanas.

Uma autoridade disse ao Observer que as forças curdas “terceirizadas” não devem pensar que sua atuação na guerra lhes dá direito a um papel geopolítico mais amplo quando a guerra terminar. 

“A Rússia afastou os turcos dos rebeldes sírios porque disse a Erdogan que apoiava a integridade territorial da Síria. Assad também queria ouvir isso. Os curdos precisam perceber que isso não vai dar em nada para eles. Quando terminar, eles têm de voltar para casa.”