Número 957,

Cultura

Livro

Maradona, um herói lukacsiano

por Nirlando Beirão publicado 02/07/2017 00h18, última modificação 30/06/2017 12h14
Mais uma autobiografia do craque que os brasileiros amam odiar. Com foco na Copa que Maradona ganhou com a “mão de Deus”
Reprodução
Faltas

Contra a Coreia do Sul, México-86: recordista de faltas recebidas em Mundial

Diego Armando Maradona é o cara que a gente adora odiar. Tem essa coisa de ele ser argentino, claro – mais do que suficiente para fazer regurgitar, em convulsões rancorosas, o baixo ventre de nossa pátria em chuteiras. Nem o também extraordinário craque do Vaticano, o papa Francisco, tem sido capaz de neutralizar nossa histórica rivalidade.

O problema é que Maradona foi gênio dos gramados, gênio, sim, o que o torna automaticamente intragável para os fanáticos da claque canarinha, sempre a reivindicar para nosotros o monopólio exclusivo dos artífices da pelota (só o brasileiro teria, dizem, ou diziam, até o vexame do 7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, essa intimidade nata, filogenética, quase erótica, com o esporte que, no entanto, nasceu rude, bretão). 

Uma nova autobiografia de Diego Armando acaba de ganhar sua versão inglesa, alguns meses após o lançamento em espanhol. Não será por falta de autobiografias e biografias que a mística de Maradona vai fenecer. Esta, assinada juntamente com o jornalista Daniel Arcucci, tem o foco na Copa de 1986, que a Argentina ganhou, a única que o craque pôde incluir em seu premiado currículo. 

Traz no título uma ironia que cutuca especialmente os ingleses, derrotados nas quartas de finais, no México, por aquele gol de esperteza suprema: Tocado por Deus (Touched by God). Aos olhos do código do esporte, um gol ilegal.

Copa da Inglaterra
Contra a Inglaterra, quartas de final: ilegal, mas antológico
Ainda assim, uma definitiva peça de antologia naquela que foi “a gloriosa era do futebol fora da lei”, na definição do comentarista Barney Ronay, do The Guardian – aliás, um inglês. Maradona é o representante único desse momento. No melhor sentido, diz Ronay. 

A encarniçada partida contra a Inglaterra de Peter Shilton, Gary Lineker e Peter Beardsley aconteceu quatro anos depois da derrota na Guerra das Malvinas – quando a ditadura argentina enviou para as ilhas um bando de rapazes sem treinamento, “calçados com tênis Flecha”, como descreve Maradona, para enfrentar a terceira maior potência militar do globo. “Os argentinos, se pudessem, gostariam de metralhar todo o time inglês.” 

O craque, ele próprio, não nutrira a menor simpatia pelos arroubos nacionalistas dos gorilas no poder e não fez da partida – e daquele sacrossanto gol – uma vendeta patriótica. Mas ele encarnava “um extraordinário sentido de destino”.

As maquinações de bastidor, antes, durante e depois da Copa de 1986, confirmam que Maradona tinha o que muitos acham que falta a Lionel Messi. Faz sentido – e esta é, certamente, mais do que qualquer comparação extraída das peripécias de gramado, a diferença entre os dois. A outra palavra para isso, menos dramática, porém, é: atitude. 

Napoli
No Napoli, em seu primeiro Scudetto (1986-1987): ao lado de San Gennaro (Sven Simon/AFP/Zuma Press/Fotoarena)

Esta autobiografia ganha o mundo no exato momento em que o Napoli – e Nápoles – comemora o primeiro Scudetto de uma história iniciada em 1926. Foi em maio de 1987 que a esquadra meridionale conquistou o título da temporada, com Maradona de primadonna.

Os cemitérios de Nápoles amanheceram todos pichados: “Vocês não sabem o que estão perdendo”. Iria repetir o feito na temporada de 1989-1990, sempre com o mago de Lanús como protagonista e os brasileiros Careca e Alemão de coadjuvantes. Em suas sete jornadas napolitanas, Maradona colheu também uma Copa da Itália (em 1987) e a Copa da Uefa (em 1989).

Desde então, zero de título para o Napoli. Não por acaso, a cidade que o acolheu ainda é apaixonada por Diego, que continua lembrado em murais e pôsteres. Não estranhem sequer se encontrarem, em certas lojinhas do Quartieri Spagnoli, entronizado lado a lado com a imagem de San Gennaro, a efígie do outro santo podroeiro da cidade. Em Nápoles, Dieguito é ídolo, é santo – para os ateus, é deus.

No gramado da escrita, Maradona tem o bom senso de não extravasar suas próprias glórias, porém, na descrição do que se passava dentro de campo, reitera o contexto do futebol de sua época, “extremamente físico, um mundo sem regras, um lugar de possibilidades humanas selvagens, um esporte genuinamente violento”.

Mestre da finta e da esquiva, ainda assim Maradona detém até hoje o recorde de faltas sofridas numa Copa (na do México de 1986) e de faltas sofridas numa só partida num Mundial (23 faltas, contra a Itália, na Copa da Espanha, em 1982).

Copa de 2010
Na Copa de 2010 na África do Sul: sem medo de se arriscar (Xinhua/AFP/Fotoarena)
Apanhou muito, era ferozmente perseguido em campo; respondia com seu talento. Ficou lendário o episódio protagonizado pelo peruano Luis Reyna. Ele marcou Maradona tão de perto que, quando o craque argentino foi receber atendimento médico, Reyna continuou a seu lado, fora de campo, enquanto o jogo prosseguia.

Gênio, repito – Diego Maradona foi um gênio, e é um gênio dentro e fora das quatro linhas, o que, aliás, haja vista o nosso simpático Pelé, são capítulos completamente diferentes. Genial e genioso, da estirpe daquele herói problemático a que se refere György Lukács, Maradona é o típico personagem da modernidade capitalista, sujeito desajustado, contraditório, inconstante, que encarna, no vigor explosivo da dialética, a essência do herói en conflicto. Risque um fósforo perto dele e a combustão será instantânea. Mas, como raros mestres, ele soube, com sua arte, produzir tanta beleza.

(Mesmo que ele venha a pensar que Lukács é um antigo zagueiro da Croácia, o fato é que Maradona morou na filosofia e captou essa história de heroísmo ambíguo, e não tem nenhum constrangimento em se alardear um revolucionário. Marxista, amigo de Fidel Castro e de Hugo Chávez, chegou a tatuar um formidável Che Guevara no braço direito). 

Pelé
As comparações inevitáveis: Pelé está a dois títulos à frente...
Diego Armando foi filho da dificuldade, rebento do subúrbio (Lanús, na Grande Buenos Aires), mas são tantos e tantos os mestres da bola que, como ele, procedem da mais sombria periferia, que o background não explica, por si só, o porquê de tantas subidas e descidas no elevador dos sentimentos contraditórios da euforia e da depressão.

No caso de Maradona, a droga talvez explique – ou explicite. Chegou a ter seu empresário (nos negócios do futebol) encarcerado no presídio de Villa Devoto (por tráfico de cocaína).  

Contra a torcida de quem já preferia arquivá-lo como uma foto do passado – ou tê-lo, no presente, como uma caricatura do que fora – Dieguito peregrinou por clínicas, driblou a crise e renasceu do abismo dos mortos-vivos. Acabou treinador da Argentina na Copa de 2010, na África do Sul. Os comentaristas sabichões detonaram.

De fato, gênios dos estádios podem gerar estrategistas medíocres. O próprio Pelé é uma catástrofe nos seus prognósticos futebolísticos. Mas Maradona decidiu peitar o mau agouro do mesmo jeito que encarava as chuteiras dos brucutus. Vaidade, acusaram. Mas não há vaidade que suplante o genuíno destemor de botar à prova um tal currículo de vencedor. Maradona é homem de coragem e paixão.  

Messi
...mas ao genial Messi de Barcelona falta atitud na Seleção (Josep Lago/AFP)
Para quem viu Pelé jogar – desculpem, mas tinha de chegar essa hora –, Maradona fica um degrauzinho abaixo. Habilidade semelhante, talento igual, rapidez e tirocínio de jogo, surpresa mortífera no gingado, fintas infernais, porém, com aquela sua complexão atarracada que lembra um asmático, Dieguito jamais poderia almejar a plenitude plástica do futebol de Pelé, a elasticidade bailarina de pantera faminta de gols do maior de todos os craques. Pelé jogou quatro Copas, ganhou três; Maradona jogou três, venceu uma (a bem da verdade histórica, teria, possivelmente, conquistado outra, a de 1994, se não tivesse caído na cilada que lhe armaram). 

Pelé, o brasileirinho cordial, com seu bom senso estudado e sua bonomia promocional; Maradona, o argentino atormentado, em seu estilo tangueiro de paixões exacerbadas e conquistas descabeladas. Comparações sempre haverá, fatalmente, entre os dois. Maradona nos incomodou, em campo, vez e outra (a derrota de 1990 na Itália foi uma delas).

Nós nos vingamos dele, outras tantas vezes. Há de se ressalvar que, rivalidade à parte, o Maradona dos gramados jamais se deixou levar, em suas filigranas de ourives da bola, pela tentação do deboche e da humilhação. Nunca se comportou como foquinha amestrada. Futebol, para ele, era coisa séria. 

Quando era para ser retratado no cinema, Maradona ganhou um documentário muito adequadamente assinado pelo angustiado Emir Kusturica, o cineasta sérvio (nascido na Bósnia) de Underground – Mentiras da Guerra. Se a literatura se interessasse um dia em fazer de Maradona seu protagonista, imagino que ele teria de cair nas mãos do sul-africano J.M. Coetzee ou o japonês Kenzaburo Oe, que parecem escrever com um espinho sob a unha do dedo indicador.

Se fosse música, Maradona seria o Nirvana de Kurt Cobain. Se a pintura viesse a retratá-lo, haveriam de ressuscitar o inglês Francis Bacon (a Pelé fica reservada a iconografia tingida de ironia de um Andy Warhol). E dá para dizer que, se o Che ainda estivesse por aí, haveria de, em gratidão recíproca, tatuar no braço direito o rosto de Diego Maradona.