Número 955,

Cultura

Teatro

Jonzi D. e o palco que nasce nas ruas

por Jotabê Medeiros — publicado 12/06/2017 01h00, última modificação 13/06/2017 11h19
Rapper inglês cria o Teatro Hip-Hop, que mostra pela primeira vez no Brasil, no 21º Cultura Inglesa Festival
Jonzi D

Pioneiro do rap inglês, Jonzi D encara o gênero como uma alternativa social

A peça The Letter: To be or to MBE, do artista Jonzi D., nasceu de uma negativa: o dramaturgo, cantor, produtor e MC recebeu do governo inglês um convite para ser Membro do Império Britânico (MBE, Member of the Order of British Empire), em 2011.

Não quis porque não aceitava figurar como cúmplice de um Estado imperialista e colonialista. Recusar uma comenda desse porte é raro, tanto que até artistas mais rebeldes, como John Lennon, a aceitaram no passado. Jonzi D., que iniciou sua carreira como b-boy nas ruas de Londres nos anos 1980 e se graduou pela London Contemporary Dance School, falou a CartaCapital sobre seu trabalho.

CartaCapital: Você está trazendo a ideia do Teatro Hip-Hop. Peter Brook escreveu que o teatro consiste em tomar um espaço vazio e fazer dele um palco repleto de significado. Qual o propósito do Teatro Hip-Hop?
Jonzi D.: O hip-hop preenche espaços vazios. Por exemplo, muros sem cor e pavimentos de concreto sempre foram arenas de expressão da cultura original do hip-hop. Trata-se de ocupar espaços que são usualmente dominados pelas culturas das classes média e alta, e utilizar as várias disciplinas técnicas que existem no hip-hop para criar novas ideias e desafiar o conceito de “arte superior”.

CC: O hip-hop é uma junção de muitas linguagens: dança, pintura, poesia, grafite. Em São Paulo, estamos no meio de uma discussão sobre o grafite e o prefeito cobriu muros de cinza com o argumento de que é uma arte efêmera. Como vê isso?
JD: Ninguém controla um movimento artístico. Cobrem os muros de cinza, mas a natureza do artista é reinventar a nossa realidade. Redesenhar o mundo com nosso próprio conceito individual. 

CC: Os fundadores do hip-hop, como Kool Herk e Afrika Bambaataa, criaram sua linguagem como alternativa à violenta cultura de gangues do Bronx e outras vizinhanças. Quatro décadas depois, as estrelas do hip-hop são misóginas, hedonistas, fazem apologia do poder e do dinheiro. Você acredita que o hip-hop ainda pode ser uma opção relevante a isso?
JD: Sua questão pressupõe que as culturas do hip-hop e da indústria fonográfica são a mesma coisa. Não são. O hip-hop cria paz, amor e unidade. É uma alternativa para as doenças sociais que empesteiam as comunidades pobres da sociedade. Melle Mel, nos anos 1980, falou sobre a mensagem (The Message), e o Public Enemy nos ensinou a enfrentar o poder (Fight the Power).

A consciência social foi popularizada com iniciativas como o movimento Stop the Violence. A música rap foi empurrada para esse niilista e genocida estado de coisas nos anos 1990. Artistas socialmente conscientes foram ignorados em favor do gangsta rap.