Número 952,

Internacional

França

O 18 Brumário de Emmanuel Macron

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 20/05/2017 02h00, última modificação 19/05/2017 14h34
Governar acima das classes nesse país é um desafio para um Bonaparte. Das outras vezes não acabou bem
Philippe Wojazer/AFP
Imperiais

Não se leve a analogia ao pé da letra, mas há semelhanças entre o primeiro presidente da França, eleito em 1948, e o seu sucessor de 2017

Quando assessores da campanha de Emmanuel Macron o comparam com Napoleão, como o fizeram em off, presumivelmente têm em mente o general corso, mas talvez seja com seu sobrinho que o presidente eleito tem mais em comum. O contexto histórico, a idade e a maneira de chegar ao poder têm mais em comum com Luís Napoleão. 

O segundo Bonaparte a governar a França elegeu-se em um ambiente de crise econômica e desemprego. Fez uma campanha liberal e populista com apoio da esquerda moderada, cujo porta-voz era o escritor Victor Hugo, contra o conservador Louis-Eugène Cavaignac e uma esquerda socialista dividida. Foi eleito presidente com 74,2% dos votos sob uma Constituição semiparlamentarista.

Meses depois, os conservadores conseguiram maioria na eleição parlamentar e Luís Napoleão não os contrariou, mas os socialistas tinham cadeiras suficientes para barrar a tentativa de emendar a Constituição e permitir a reeleição. O receio de a falta de um candidato popular abrir caminho a um presidente de esquerda levou os conservadores a apoiarem o autogolpe de Luís Napoleão, sua coroação como imperador Napoleão III um ano mais tarde e seu projeto de modernização autoritária pautado por liberalismo econômico e tratados de livre-comércio com outras nações, apesar de muita resistência interna.

Não se entenda a analogia como uma insinuação de que Macron ambiciona a ditadura ou o trono. Entretanto, sua rápida ascensão tem as características clássicas do bonapartismo: o culto a uma personalidade carismática como mediador e árbitro entre forças opostas, nenhuma das quais é capaz de obter consenso suficiente para impor sua hegemonia. Como Napoleão III, propõe a modernização liberal e a globalização contra a resistência tanto da esquerda quanto da direita nacionalista e o futuro de seu governo depende muito da configuração do Parlamento a ser eleito em junho.

E assim como a derrocada final do segundo imperador francês foi decidida por Otto von Bismarck, o futuro de Macron pode depender de Angela Merkel, ou de quem a suceder no governo da Alemanha na hipótese hoje improvável de sua derrota nas eleições de 24 de setembro. Por isso mesmo pode se encerrar muito mais cedo do que gostaria, embora hoje não haja impedimentos legais à reeleição.

Até há algumas semanas, parecia provável que Macron ficasse nas mãos de um Parlamento dividido entre as forças tradicionais e com provável maioria conservadora. Entretanto, três pesquisas realizadas nos primeiros dias de maio, às vésperas do segundo turno, indicaram que seu partido “Em Marcha!” (cujo nome deve ser em breve mudado para um também voluntarista, mas menos personalista: “A República em Marcha”) seria o partido mais votado, com 22% a 26% dos votos em primeiro turno, ante 20% a 22% tanto da direita tradicional quanto da ultradireita, 15% a 18% da esquerda de Mélenchon e 8% a 9% dos socialistas. Em comparação, a eleição de 2012 deu 37% aos socialistas e aliados, 31% aos conservadores e aliados, 14% à Frente Nacional e 7% à esquerda.

Traduzir isso em representação parlamentar não é nada simples, pois quatro ou cinco forças políticas relevantes disputarão 577 distritos em dois turnos, mas uma quarta pesquisa tentou simular o resultado e chegou a 43% a 50% das cadeiras para Macron, 35% a 36% para os conservadores, 5% a 7% para os socialistas, 3% a 4% para a Frente Nacional e 1% para a esquerda. Isso soma 93%: ficam de fora 7% correspondentes às cadeiras da Córsega e dos departamentos ultramarinos, não incluídos no modelo. A ultradireita conseguiria sua primeira bancada, a esquerda continuaria pequena e o Partido Socialista cairia para segundo plano.

“O Partido Socialista morreu”, adiantou-se na segunda-feira 8 Manuel Valls, um dos maiores responsáveis pelo “assassinato”. O ex-primeiro-ministro de François Hollande e ex-pré-candidato socialista à Presidência derrotado por Benoît Hamon traiu os eleitores socialistas com medidas neoliberais (em parte executadas por Macron como ministro da Fazenda), os militantes ao não aceitar a derrota nas primárias e pedir votos para Macron e, por fim, a própria bandeira do partido ao oferecer-se como candidato a deputado pelo partido de Macron. A tripla perfídia não lhe rendeu frutos: o responsável pela escolha dos candidatos, Jean-Paul Delevoye, descartou-o como uma lata de cerveja vazia. “Hoje, ele não se enquadra nos critérios que permitiriam ao comitê de investidura aceitá-lo. Não estamos no ramo da reciclagem.” E o desdenhado Partido Socialista começou a encaminhar sua expulsão. 

Note-se, porém, que essa projeção sugere um cenário no qual Macron teria o maior número de parlamentares sem chegar à maioria e precisaria de um aliado, sejam os socialistas, sejam os conservadores. Deve, ademais, ser tomada com cautela, pois foi feita no auge do entusiasmo por um Macron ainda não eleito.

Em um país com tradição de consciência política e de classe e desconfiado de técnicos pretensamente apolíticos, a imagem de gestor dinâmico montado em um cavalo branco acima das ideologias e das rixas “obsoletas” entre a esquerda e a direita pode não resistir aos primeiros choques da realidade. Essa imagem construída graças a jamais ter ocupado um cargo eletivo (e nenhum cargo público de primeiro plano além de dois anos não tão brilhantes como ministro da Fazenda) pode se mostrar uma ilusão. 

Ao tomar posse, em 14 de maio, o presidente precisará escolher um primeiro-ministro e um gabinete interinos – presumivelmente escolhidos entre moderados dos campos socialista e conservador e do liberal Movimento Democrático, de François Bayrou, que o apoiou desde o primeiro turno – e expor sua agenda de maneira mais concreta, o que, inevitavelmente, desapontará alguns dos eleitores potenciais. Entre suas prioridades está a reforma trabalhista com a qual pretende esvaziar a semana de 35 horas cara aos socialistas e sindicatos e dar ao patronato, por meio de “acordos coletivos”, ampla margem para reformular as condições de trabalho.

Certamente, vai enfrentar resistência e manifestações. O Partido Socialista ainda é o da preferência de muitos sindicatos e pensadores de prestígio e, se estes o considerarem irreversivelmente decadente, muitos preferirão a França Insubmissa de Mélenchon a um pragmatismo tecnocrático morno e filisteu. Além disso, os nomes dos candidatos de Macron em cada um dos 577 distritos, 127 dos quais selecionados literalmente no último dia, quinta-feira 11, podem acabar preteridos em favor de partidos tradicionais por razões pessoais ou locais. 

As relações com Angela Merkel e Bruxelas podem também ter um papel importante nessa campanha de poucas semanas. “A França será governada por uma mulher, eu ou Merkel”, disse Marine Le Pen a Macron no último debate e suas palavras não soaram absurdas. Nesse sentido, ter sido eleito com uma maioria tão folgada – 66,1%, ante 33,9% da rival – pode acabar por se mostrar um infortúnio. Uma vitória mais apertada talvez preocupasse Berlim o suficiente para fazer mais concessões a Paris na condução dos assuntos europeus. Tal como se deu, pode dar ao governo alemão e a seus partidários de Bruxelas a falsa impressão de que podem continuar impunemente a apertar o torniquete. 

Protesto na França
Os sindicatos reagiram assim à tentativa de reforma trabalhista de 2016. Mesmo se preferiram Macron a Le Pen, não vão mudar de opinião (Foto: Tobias Schwarz/AFP)

Macron, a se acreditar no discurso da vitória, está consciente de não ter recebido um cheque em branco. Seus sócios europeus, nem tanto. Na manhã seguinte, Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, ao encontrar em Bonn o ministro alemão das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, cobrou da França mais austeridade para “ajudar o projeto europeu”. “Com a França, temos um problema especial. Os franceses gastam muito dinheiro e gastam demais nos lugares errados. Isso não vai funcionar no longo prazo.”  Continuar nessa linha é a melhor maneira de atrapalhar os planos de Macron na eleição parlamentar e ajudar Le Pen (ou, quem sabe, Jean-Luc Mélenchon) a se eleger em 2022. 

Se François Fillon, o conservador relegado ao terceiro lugar, pretendia ser a versão francesa de Margaret Thatcher, Macron gostaria de ser um Tony Blair ou Bill Clinton, à frente de um neoliberalismo de rosto humano e sem dogmatismos desnecessários tanto na França quanto no conjunto da Europa.

Note-se como o ex-ministro da Fazenda grego Yanis Varoufakis retribuiu o respaldo de Macron durante as fracassadas negociações sobre a dívida grega e prestou-lhe, no segundo turno, um apoio negado pela maior parte da esquerda francesa, inclusive dois terços dos militantes de Mélenchon consultados pela liderança. 

Entretanto, o papel de equilibrista é bem mais difícil hoje do que nos anos 1990 e, por maior que sejam suas convicções europeístas, será impossível a Macron se Juncker e Merkel lhe amarrarem ostensivamente as mãos. O fracasso do projeto de Hollande, que não era tão diferente, foi decidido em poucos meses de governo, ao não conseguir convencer Merkel a flexibilizar a política alemã, e seria ingenuidade pensar que isso se deveu apenas a uma questão de personalidade. A França é estruturalmente mais fraca que a Alemanha e seu poder de barganha limita-se à necessidade de Berlim de manter as aparências de uma liderança por consenso e não por um ditado unilateral.