Número 951,

Saúde

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Vasectomia e câncer de próstata

por Drauzio Varella publicado 14/05/2017 00h09, última modificação 12/05/2017 09h17
Os estudos sobre o tema são cada vez mais amplos. Nada, porém, que suscite medo nos vasectomizados
Estella Maris
Tesoura

"Pode haver esperança onde está o medo?" Miguel de Cervantes

A relação entre vasectomia e câncer de próstata tem sido contraditória. Quatro de sete estudos já publicados – entre os quais o Cancer Prevention Study II – não conseguiram demonstrar qualquer ligação entre os dois eventos. Os outros três mostraram pequeno aumento do risco de tumores prostáticos malignos em homens vasectomizados.

Um deles foi o "Health Professionals Follow-Up Study" (HPFS), que revelou aumento de 10% no risco. Iniciado em 1986, o HPFS acompanha mais de 51 mil homens para avaliar os efeitos de fatores nutricionais na incidência de câncer e doenças cardiovasculares. Dada a relevância dessa coorte, o possível impacto da vasectomia na incidência de tumores prostáticos foi levado mais a sério.

O Journal of Clinical Oncology – a revista mais importante da Oncologia – acaba de publicar um inquérito com 84.753 homens incluídos no "European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition" (EPIC), que tinham, em média, 53 anos, ao iniciar o recrutamento. Os participantes foram acompanhados por um período médio de 15,4 anos.

No grupo havia 15% (641) previamente submetidos à vasectomia. No decorrer do seguimento, 4.377 homens receberam o diagnóstico de câncer de próstata.

Depois de ajustar os dados para fatores como peso corpóreo, fumo, nível educacional, consumo de álcool, estado civil e atividade física, os autores concluíram que os vasectomizados não apresentaram risco aumentado.

Entretanto, nos subgrupos que receberam o diagnóstico de câncer de próstata de baixa e de média agressividade houve um aumento de 14% na incidência. Os autores consideram esse achado um simples viés estatístico: os que optaram pela vasectomia foram aqueles que fizeram check-ups regulares e repetiram o exame de PSA periodicamente, portanto, justamente os que conseguiram diagnosticar precocemente tumores indolentes que levariam mais tempo para se manifestar.

Qual seria a base biológica racional para uma possível associação entre vasectomia e câncer de próstata?

Na vasectomia, os dutos deferentes são cortados e ligados com fio de modo a bloquear a passagem dos espermatozoides em seu caminho na direção do líquido seminal. Embora vários pesquisadores tenham investigado mecanismos teóricos que envolvem modificações na resposta imunológica, na proliferação celular e nas funções endocrinológicas, os resultados foram inconclusivos.

Os autores do estudo europeu exploraram a possibilidade de que alguma proteína liberada no processo de ligadura dos deferentes pudesse estar implicada na carcinogênese. Não foi possível identificá-la.

Em editorial na mesma revista, Meir Stampfer, da Universidade Harvard, concluiu: “A associação de vasectomia com tumores prostáticos de baixa ou média agressividade encontrada neste e em outros estudos deve ocorrer por causa dos exames de PSA mais frequentes, nesse grupo de homens”.

Com base nas evidências atuais, não há razão para contraindicarmos vasectomias, por medo de aumentar o risco de câncer de próstata.