Número 945,

Cultura

Música

Psicodália, um Woodstock em Rio Negrinho

por João Paulo Martins — publicado 05/04/2017 01h00, última modificação 17/04/2017 13h52
Ao completar 16 anos, o festival multicultural reúne nomes como Ney Matogrosso, Céu e Liniker na pequena cidade catarinense
Tarcizo Cido Pinheiro
Psicodália

Em uma pequena cidade de Santa Catarina, durante os cinco dias de Carnaval, outra diversão é possível

São quase 8 da noite do sábado de Carnaval. Di Melo, “O Imorrível”, surge dos bastidores. Com dois discos lançados, o último há cerca de um ano e um hiato de quatro décadas em relação ao primeiro, o músico pernambucano divide o palco com os curitibanos do Trombone de Frutas.

Na plateia, Jean Charles Nunes, 72 anos, gaúcho de Erechim, vibra ao som do groovie de metais ensurdecedores que transpõe as enormes caixas do palco. Esforça-se para não exigir muito do joelho recém-operado. Para chegar ao festival, Nunes alugou um trailer preso a uma espécie de jipe, no qual cabiam ele, o filho e Tim, um enorme labrador.

“O nome do cachorro eu dei em homenagem ao Tim Maia. Morei no Rio de Janeiro nos anos 70 e convivemos juntos na Cultura Racional. Morei por lá até os anos 90 e depois consegui voltar para minha terra natal através de um circo.” A Cultura Racional era uma seita frequentada por Tim Maia. No período em que a frequentou, o cantor produziu dois discos extremamente conceituais.

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Velhas e novas gerações da MPB revezam-se no palco e pelo gramado (Emilia Senapeschi )

Nunes é malabarista e faz números com a perna de pau até hoje. “Por isso evito usar o joelho. Lá de cima doem demais.” O show termina e o gaúcho recolhe o material de trabalho para voltar ao trailer com o filho e o cachorro. Conta sobre a experiência de ter sido pai aos 62 anos e o motivo de ir dormir tão cedo. “Amanhã quero levar meu filho a uma oficina de produção de fogo artesanal com materiais diversos.”

A instrutora chama-se Amanda Eresbraunch. Paraibana, mora em São Paulo e trabalha o corpo em uma fusão de bambolê e o que chama de fogo experimental. O arco é usado em chamas coloridas. “A gente passa um produto para não queimar a pele.” A artista plástica de 27 anos foi atriz em uma cidade holandesa. “A energia de festivais lá é outra. Tudo contemplativo. Aqui, buscam a liberdade a qualquer preço. Inventada ou não.”

Ao completar 16 anos, o Psicodália, ou simplesmente “Dália”, festival multicultural e independente que acontece na pequena cidade catarinense de Rio Negrinho, reuniu durante as folias carnavalescas nomes como Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Casa das Máquinas, Sá & Guarabira, Céu e Liniker. E as menos conhecidas Confraria da Costa,

Centro da Terra e Iconili, que tiveram performances primorosas e se entregaram de corpo e alma no palco. Tornou-se uma alternativa para quem deseja fugir dos blocos de rua, das marchinhas ou do sambódromo. Em 2017, o Dália atraiu seu maior público, 6,5 mil espectadores. Na sede do evento, a Fazenda Evaristo, mal chega sinal de celular. Uma fila quilométrica de carros, trailers e Kombis pintadas à mão lembram os desenhos animados do Scooby-Doo e o lendário Festival de Woodstock.

Por praticamente 24 horas por dia revezam-se no palco músicos de MPB, rock, jazz, afrobeat e outros gêneros. A Rádio Kombi, produzida pelos organizadores do festival e única estação sintonizável, não deixa que o silêncio tome conta. Além das atrações musicais, 65 oficinas ao ar livre preencheram o tempo dos frequentadores. Havia de tudo um pouco: teatro, política e como sobreviver na selva.

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Além de música, os 6,5 mil espectadores participam de oficinas e compartilham o espaço e suas histórias, em uma conexão telúrica (Nicolas Pedrozo Salazar)

O calor e a lama não abalaram o espírito da plateia. “Resista, o amor vence”, dizem placas espalhadas pela fazenda. No início, os ingressos do Psicodália, que começou com uma brincadeira entre amigos para promover bandas independentes, custavam 34 reais. Hoje chegam a 420. O festival tornou-se um organismo vivo que, além da elasticidade nos preços, incorporou novos signos em sua matriz. Mas sem perder a essência hippie. Ou hipster.  “Se você estiver indo a Rio Negrinho, certifique-se de botar algumas flores em sua cabeça”, recomendam os organizadores.

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