Número 943,

Economia

Infraestrutura

Os benefícios seletivos de Trump

por Carlos Drummond publicado 21/03/2017 00h45, última modificação 20/03/2017 15h57
A Casa Branca oferece aos empresários norte-americanos a oportunidade de investir 1 trilhão de dólares em obras financiadas por recursos dos contribuintes
John Tlumacki/ The Boston Globe Via Getty Images
Infraestrutura

Massachusetts lidera o ranking das cidades estadunidenses em quantidade de buracos nas vias públicas

No fim de fevereiro, Donald Trump conclamou o Congresso dos Estados Unidos a aprovar seu plano de investimento de 1 trilhão de dólares em infraestrutura. Apesar do significativo apoio entre democratas e republicanos, não há consenso quanto ao caráter e aos efeitos do projeto.

“Em vez de aumentar os impostos cobrados dos mais ricos e então usar o dinheiro para consertar nossas antigas e perigosas estradas, pontes, aeroportos e sistemas de abastecimento, Trump quer dar aos empresários e a Wall Street créditos fiscais para encorajá-los a fazer isso.

Nas bases definidas, significa que, para cada dólar que eles investirem, pagarão, de fato, só 18 centavos e nós contribuiremos com os 82 centavos restantes através dos impostos”, alerta o economista Robert Reich, da Universidade da Califórnia. Essa configuração levou Ronald Klain, assessor do ex-presidente Barak Obama para infraestrutura, a denominar a proposta de Trump de “plano de bem-estar social para os empresários”.

O economista Prêmio Nobel Lawrence H. Summers diverge também do caminho adotado. “As propostas dos conselheiros de Trump, Peter Navarro e Wilbur Ross, de contar com créditos fiscais para aumentar o investimento em infraestrutura, são um caso clássico dos perigos da dependência em relação ao setor privado.

Os benefícios iriam em grande parte para os desenvolvedores e contratados para os projetos como novos gasodutos, que aconteceriam sem novos incentivos e são altamente regressivos.” Além disso, diz, aumenta os custos, ao não envolver os fundos de pensão isentos de impostos, os fundos soberanos e os investidores internacionais, “que são as fontes mais plausíveis de financiamento para o setor”.

No último argumento, Summers defende uma maior participação de Wall Street no meganegócio. Não chega a surpreender, nem resolveria os problemas. Ao lado do secretário do Tesouro Robert Rubin, o economista recomendou ao presidente Bill Clinton, em 1999, a revogação do Glass-Steagall Act, de 1933, que separava os bancos de investimento dos bancos comerciais no mesmo grupo.

A derrubada da regulação expôs todos os usuários do sistema financeiro aos riscos assumidos por grandes especuladores atuantes no ramo de investimentos dos conglomerados financeiros. Submeteu também o conjunto da economia a maiores riscos, custos e perdas. O processo ajudou a precipitar a crise global financeira de 2008.

Donald Trump.jpg
Além do Orçamento, a direita de Donald Trump capturou a mente americana para sua visão de mundo (Avi Ohayon / GPO)

Summers pondera ainda que, no seu formato original, a proposta do governo, por oferecer créditos à taxa sem precedentes de 82%, convida a todo tipo de sonegação e prevê um aumento do uso de paraísos fiscais. Nada garante, entretanto, que a maior participação do sistema financeiro, como quer o Prêmio Nobel, reduziria aquele risco, dado o afrouxamento da regulação desde 1999.

Até porque o governo atual, além de combater a Lei Dodd-Frank, de 2010, que obriga os conglomerados financeiros a testes para medir sua resistência a crises, incorporou em postos-chave três representantes do Banco Goldman Sachs, apontado como a principal fábrica de derivativos e produtos tóxicos desencadeadores da crise há quase uma década.

O ponto central ao qual a discussão da proposta de Trump remete é o grande declínio do investimento público – principal catalisador dos aportes privados – nas últimas décadas e a quase exclusão do Estado nas estratégias de política econômica.

Os Estados Unidos são um exemplo dessa deterioração. A participação dos fundos públicos nos investimentos em infraestrutura caiu de 1,5% do PIB em 1980 para 0,6% em 2015, segundo a Brookings Institution.

Um levantamento da Associação Americana dos Engenheiros Civis mostrou que 20% das rodovias e 40% das pontes do país oferecem risco aos usuários e as vias e os serviços de 40% das cidades congestionam nos horários de pico, com prejuízo à economia e aumento dos custos de energia. A entidade estima em 3,6 trilhões de dólares a necessidade de recursos para colocar em ordem a malha de transportes estadunidense, inclusive aeroportos, hidrovias e vias públicas, além de escolas e outros equipamentos.

“De onde virá a demanda se não for do governo?”, indagou Reich em artigo de 2011. “A direita radical aponta para o suposto ‘fracasso’ do programa de estímulo como evidência de que os gastos do governo Obama não funcionam. O fato é que funcionou, salvou pelo menos 3 milhões de empregos e teria preservado muito mais postos de trabalho se o estímulo fosse na escala necessária e direcionado para a criação de vagas.”

A nação, diz, deve exigir uma reforma tributária real que reverta a escalada rumo à desigualdade, com o aumento dos impostos sobre os ricos, sua redução à metade para a classe média e ampliação da devolução de imposto de renda para os pobres.

Não será fácil. “Fazer isso requer que os americanos entendam a verdade. Mas onde irão aprendê-la?  A direita radical não capturou só o Orçamento federal. Para convencer tantos americanos de que o problema é o tamanho do governo em vez do encolhimento dos seus salários e o aumento da insegurança econômica, capturou também a mente americana”, analisa o professor da Universidade da Califórnia.