Número 942,

Economia

Inovação

Destruição criativa

por Thomaz Wood Jr publicado 15/03/2017 00h20, última modificação 14/03/2017 10h22
Pesquisa recente revela que empresas inovadoras buscam o futuro cada vez mais além de suas fronteiras
Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas
Tecnologias

A tecnologia, observam os autores do estudo, tem sido o grande direcionador da inovação, trazendo novas organizações para a lista, como o Uber e Airbnb

O economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) foi um teórico pioneiro do empreendedorismo e da inovação. Ajudou a popularizar o termo “destruição criativa”, o processo incessante de transformação industrial que destrói estruturas econômicas e cria novas, em substituição às moribundas.

Schumpeter advogava que o “espírito selvagem” dos empreendedores era a seiva para as mudanças tecnológicas e a inovação. O economista defendia também que grandes corporações, com bolsos fundos para custear vultosos orçamentos de pesquisa e desenvolvimento, eram capazes de criar produtos e serviços acessíveis, contribuindo dessa forma para a melhora das condições materiais de vida.

Inovação transformou-se em tema fetiche no meio empresarial na década de 1990. A primeira onda enfatizou produtos e, posteriormente, serviços. A segunda complementou a primeira com o foco em processos, ou a forma de produzir e entregar produtos e serviços.

Até então, a atenção era mais interna do que externa à organização. A terceira onda deslocou o foco para fora das empresas, enfatizando a inovação em novos modelos de negócios, formas diferentes de gerar valor e chegar ao pote de ouro.

O Boston Consulting Group (BCG), uma companhia global de consultoria, divulgou recentemente seu ranking das empresas mais inovadoras de 2016, com ênfase na busca externa por inovações. A lista traz os suspeitos usuais, com empresas de tecnologia no topo: a onipresente Apple, seguida por Gloogle, Tesla, Microsoft e Amazon.

Entre as 50 primeiras, encontram-se estrelas ascendentes (Netflix, Uber e Airbnb), montadoras de automóveis (Toyota, BMW, Daimler e Renault), empresas farmacêuticas (Bayer, Pfizer e Bristol-Myers Squibb) e algumas heroínas do passado (IBM, General Electric, Dell e 3M). As norte-americanas dominam a cena, com coadjuvantes importantes da Europa e da Ásia.

A tecnologia, observam os autores do estudo, tem sido o grande direcionador da inovação, trazendo novas organizações para a lista, Uber e Airbnb incluídas, e garantindo a presença de empresas tradicionais com base industrial, a exemplo da Siemens e da DuPont.

O contexto econômico traz para as empresas o duplo desafio de encontrar e implementar novidades e a busca se faz além dos laboratórios próprios de pesquisa. Muitas inovações encontram-se além das suas fronteiras, em instituições e em negócios emergentes.

Por isso, encontrar inovações significa prospectar incansavelmente o ambiente externo, tomando o cuidado de separar o joio do trigo. É preciso acompanhar tendências, patentes e novos empreendimentos. É necessário ainda filtrar os achados, identificando as melhores oportunidades para inovar em produtos, serviços e modelos de negócio.

Segundo o BCG, o contexto está fazendo com que as empresas desenvolvam competências para a busca externa de inovações. A pesquisa apontou que as 30 maiores companhias de sete setores avaliados – automóveis, química, bens de consumo, serviços financeiros, mídia, tecnologia e comunicações – aumentaram o uso de fontes externas de inovação entre 2010 e 2015.

Transformar oportunidades identificadas fora da organização em lucro representa, entretanto, desafio significativo. Com frequência, é preciso romper resistências internas. Grandes organizações são paquidermes de movimentos lentos e peles espessas, quase sempre avessas a mudanças. Contam com sistemas imunológicos bem desenvolvidos, sempre prontos a defender o status quo e aptos a rejeitar novidades.

Quando a resistência interna a inovações e mudanças é significativa, algumas empresas adquirem ou criam novas unidades, ou investem em incubadoras e aceleradoras de negócios. Elas também tomam medidas para isolar as iniciativas de sua estrutura central, evitando assim prejuízos causados pelos vícios existentes.

Catalisada por avanços nas tecnologias da informação e da comunicação, a terceira onda traz rupturas como as anteriores. Sua adoção pode mudar comportamentos, incomodar concorrentes, abalar indústrias e desafiar reguladores. Certa resistência interna e externa é pertinente e saudável, para fazer frente a delírios e mitigar efeitos colaterais. É preciso, entretanto, equilíbrio para não adotar a postura dos luditas e acabar condenado às notas de rodapé da história.