Número 939,

Política

Homenagem

Lula, do luto à luta

por Débora Melo* publicado 12/02/2017 00h10, última modificação 10/02/2017 18h33
No adeus a Marisa, o ex-presidente busca inspiração na companheira
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Velório

O velório da ex-primeira-dama reuniu milhares no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Marisa Letícia despediu-se de vermelho, com um broche do PT no peito. Foi Lula, o companheiro de mais de quatro décadas, quem escolheu o vestido. O palco do adeus foi o a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde o casal se conheceu em 1973. De luto, um emocionado ex-presidente respondeu às manifestações de solidariedade com beijos e abraços. Cerca de 20 mil pessoas estiveram ali no sábado 4.

Antes de seguir para o Cemitério Jardim da Colina, Lula fez um discurso em homenagem à mulher, a loura de olhos claros a quem chamava de “galega”. Com certa tristeza, contou que a vida política não lhe permitiu ser um pai presente, mas Marisa “segurava a barra” da família. “Às vezes eu me culpo, às vezes acho que é assim mesmo. Ela praticamente criou os filhos sozinha”, disse.

No período em que viveu no Palácio da Alvorada (2003-2010), a então primeira-dama teve uma atuação política discreta. Dentro de casa, porém, sua opinião tinha mais valor que a de qualquer conselheiro do Planalto. “A gente sentava, jantava, conversava, discutia. Ela tinha muito mais importância que os ministros. E sempre me dizia: não esqueça nunca de onde você veio e para onde você vai voltar”, contou o ex-presidente.

Lula tornou-se diretor do sindicato em 1969. Dos 48 anos de intensa vida pública, 43 foram vividos ao lado de Marisa. E foi à política que o petista recorreu quando quis expressar suas ideias sobre o matrimônio. “Nós tivemos uma vida extraordinária, uma vida de muita compreensão. Eu tenho em mente que o casamento é o maior exercício de democracia que o ser humano pode fazer. É no casamento que você aprende a ceder.”

O ex-presidente disse ter orgulho da “menina que parecia frágil, mas que falava grosso e colocava medo”. Riu quando lembrou a gargalhada de Marisa ao comentar, sentada à mesa no Alvorada, como “os companheiros que trabalham na cozinha” deviam achar muito estranho uma primeira-dama querer pé de frango para o jantar. Fez mea-culpa por não ter assistido ao parto dos filhos e demonstrou gratidão ao recordar a época em que Marisa se prontificou a vender camisetas e bandeiras do recém-criado PT, hoje o “partido que a direita quer destruir”. 

Lula
Lula despede-se daquela que o acompanhou por mais de 40 anos (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

E foi assim que, nos momentos finais de seu discurso, Lula se pôs a falar das investigações contra ele e a mulher, ré em duas ações penais da Operação Lava Jato. “Marisa morreu triste por conta da canalhice, da imbecilidade e da maldade que fizeram com ela”, disse o petista. “Que os facínoras que levantaram leviandades contra a Marisa tenham, um dia, a humildade de pedir desculpas a ela.”

Em sua última homenagem à mulher, o líder popular mais influente do Brasil falou também de política. E não foi o único. Dom Angélico Sândalo Bernardino conduziu a cerimônia e fez um alerta contra as reformas conduzidas pelo governo de Michel Temer.

“Precisamos estar atentos. Estamos em um sindicato memorável por suas lutas. Que a reforma trabalhista não seja contra os trabalhadores. Que a reforma da Previdência não seja contra os pobres e os assalariados”, disse o bispo emérito de Blumenau (SC).

Muitos que ali estavam veem em Lula a principal opção para 2018. No dia 30 de janeiro, na primeira aparição pública após a internação de Marisa, o ex-presidente, em um desabafo, sinalizou que não pretende descansar tão cedo. “A pressão e a tensão fazem as pessoas chegarem ao ponto que a Marisa chegou. Mas isso não vai me deixar chorando pelos cantos. Vai ficar apenas batendo na minha cabeça, como mais uma razão para que a luta continue”, disse na ocasião.

Cinco dias depois, em meio à multidão que homenageava a ex-primeira-dama no salão do sindicato, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, pediu a palavra para desejar força a Lula e lembrá-lo da promessa. “Ele vai nos liderar nas lutas que vem travando por um Brasil mais justo. Eu sei que todo o povo brasileiro, não só os militantes do PT, querem que você continue a sua luta.”

Em meio a tantos retrocessos, lideranças do campo progressista parecem voltar a se organizar. À reportagem de CartaCapital, a deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) disse que Marisa Letícia é uma referência para a luta das mulheres. Sua morte, diz, pode unir a esquerda em torno de um projeto comum.

Uma das fundadoras do PT, Erundina deixou o partido em 1997 e recentemente foi alvo de críticas da militância petista por ter lançado candidatura própria à Prefeitura São Paulo, quando o então prefeito Fernando Haddad (PT) tentava se reeleger. “Independentemente das diferenças que eventualmente possam nos separar, há algo muito mais forte que nos une, que é o amor pela construção de uma nação mais justa, mais fraterna e mais democrática, combatendo o ódio, a discriminação e o preconceito”, disse a deputada.

Erundina
Erundina: 'O que nos une é o amor pela construção de uma nação justa' (Foto: Nelson Antoine/AFP)

Para o deputado federal Vicentinho (PT-SP), é hora de transformar a dor em força. “A Marisa nos representou em 1980, quando organizou as mulheres para serem solidárias à nossa greve”, disse o petista, recordando a marcha em defesa dos sindicalistas presos no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão do aparato repressivo da ditadura. “E a Marisa nos representa agora, ao juntar aqui tanta gente, a nossa militância. Reencontrei companheiros das greves de 79, de 80. Companheiros que estavam nos seus cantos e agora se reanimam para a luta.”

A dor da perda preocupa, no entanto, aqueles que estão próximos a Lula. “É preciso desejar muita força ao Lula, porque o ataque continua e, em meio a isso, ele tem uma perda tão dolorosa como essa”, disse Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

“Essa morte deixa também um simbolismo. A situação de dona Marisa em seus momentos finais gerou reações desumanas. Médicos desejando a morte ou divulgando exames, gente fazendo os comentários mais atrozes nas redes sociais. Isso deve nos levar a uma reflexão: para onde vai isso tudo?”, questionou Boulos.

Reportagem publicada pelo jornal O Globo em 2 de fevereiro revelou que, horas após Marisa dar entrada no Hospital Sírio-Libanês, em 24 de janeiro, a médica reumatologista Gabriela Munhoz compartilhou com terceiros informações sigilosas a respeito do diagnóstico da ex-primeira-dama, internada por conta de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

As informações foram enviadas por mensagens de celular a um grupo de antigos colegas de faculdade. A troca de mensagens entre os médicos, reproduzida pelo jornal, é assustadora. Ao saber que Marisa passaria por um procedimento, o neurocirurgião Richam Faissal Ellakkis disse aos amigos que faria diferente. “Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu.

Ellakkis prestava serviços no hospital da Unimed São Roque e foi demitido, assim como Gabriela Munhoz, que não integra mais o quadro de funcionários do Sírio-Libanês. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu sindicância para apurar se houve violação ao Código de Ética. O vazamento à imprensa de uma tomografia feita por Marisa no hospital Assunção, em São Bernardo do Campo, também é investigado.

Boulos
'A situação de Marisa gerou reações desumanas', lamenta Boulos (Foto: Paulo Lopes/Futura Press)

O discurso de ódio, muitas vezes restrito às mensagens privadas e às redes sociais, ultrapassou a barreira virtual e se materializou na voz de mulheres que, no dia seguinte ao AVC de Marisa, se dispuseram a ir até a porta do hospital. Nos cartazes que exibiam, a imagem de um Lula presidiário e críticas à internação no Sírio-Libanês: “Vá para o SUS”, dizia um; “Cadê os médicos cubanos?”, questionava outro.

A falta de humanidade atingia o seu ápice. A fim de evitar novas demonstrações de ódio, a militância do PT mobilizou-se e ocupou a entrada do hospital no dia 2 de fevereiro. Na manhã daquela quinta-feira, a equipe médica havia constatado a morte cerebral da paciente e a família autorizou o início dos procedimentos de doação de órgãos. O grupo, formado por cerca de 20 pessoas, fez orações e colocou flores em frente ao hospital.

A confirmação da morte de Marisa levou quase dois dias, encerrada somente às 18h57 do dia 3 de fevereiro. No Sírio-Libanês, o ex-presidente recebeu condolências de amigos e autoridades e a visita de Fernando Henrique Cardoso.

Em meio ao triunfo da intolerância, uma foto em que os adversários aparecem abraçados inundou as redes sociais, um alento em tempos de ódio e pouco diálogo. Com a visita, FHC retribuía o gesto de 2008 do então presidente Lula, que prestou condolências ao tucano pela morte da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Campanha em 1989
Ao lado de Lula, Marisa teve papel central na trajetória do PT

Naquele mesmo dia, à noite, o petista também recebeu a visita de Michel Temer. A comitiva, que trazia ministros e figurões do PMDB, foi recebida no Sírio-Libanês pela militância petista aos gritos de “golpistas” e “assassinos”. Lula aceitou o gesto.

A postura do ex-presidente nem sempre é exemplo para seus perseguidores. Na quarta-feira 8, o juiz federal Sergio Moro negou pedido da defesa de Lula para adiar em 15 dias as audiências relativas ao processo do triplex no Guarujá. As audiências foram mantidas e serão realizadas nas próximas duas semanas. Segundo Moro, apesar do “trágico e lamentável” acontecimento, falta “amparo legal” para a suspensão do processo.

A dor extrema do luto não tem impedido o ex-presidente de prestar belas homenagens à mulher, como fez ao lado de seu caixão. Na coroa de flores que encomendou, uma última declaração à “Galega”: “Agora o céu ganha a estrela que iluminou minha vida”.

Dirigindo-se à multidão que acompanhava o velório, o petista voltou a emitir sinais de que a luta continua. “Vou agradecer à Marisa até o dia em que eu não puder mais, até o dia em que eu morrer. Eu espero me encontrar com ela com este mesmo vestido que eu escolhi, para mostrar que a gente não tem medo de vestir vermelho.”

*Colaborou Ingrid Matuoka

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