Número 937,

Saúde

Entrevista - Renata D’Alpino Peixoto

Um tiro nos carcinoides

por Riad Younes publicado 06/02/2017 00h08, última modificação 03/02/2017 08h56
O tumor silencioso, sem sintomas, encontra seu efetivo adversário num radioisótopo radiativo

Tumores relativamente raros, os carcinoides, também conhecidos como tumores neuroendócrinos, apresentam peculiaridades incomuns. Muitos produzem hormônios, crescem lentamente, demoram para se espalhar e ficam silenciosos, sem sintomas, por vários anos. Mas, quando se espalham com suas metástases, o tratamento pode ser muito complexo. 

A recente identificação de alguns receptores hormonais na superfície das células tumorais neuroendócrinas abriu um horizonte de possibilidade de terapia mais eficaz e controle de tumor e de seus sintomas. Esta semana foi publicado na New England Journal of Medicine um estudo, Netter-1, o qual avaliou uma nova estratégia com uso de radioisótopo radioativo em tumores neuroendócrinos metastáticos, que, apesar de raros, têm incidência crescente.

Sobre isso conversamos com a doutora Renata D’Alpino Peixoto, oncologista clínica, coordenadora dos tumores gastrointestinais do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz:

CartaCapital: Como se tratam os tumores carcinoides metastáticos?

Renata D’Alpino Peixoto: O fato de a maioria dos tumores neuroendócrinos bem diferenciados (mais bonzinhos) apresentar na membrana de suas células receptores de somatostatina, um hormônio produzido pelo nosso organismo e que tem como uma de suas funções frear o crescimento dessas células, faz com que possamos utilizar análogos da somatostatina, que bloqueiam o crescimento dos tumores neuroendócrinos. Em geral, a principal forma de tratamento com análogos de somatostatina é através de injeções intramusculares ou subcutâneas mensais.

CC: Qual a novidade do Netter-1?

RDP: A atual tecnologia permitiu que se combine a somatostatina com um radioisótopo, tal como o lutécio radioativo (177lutécio-octreotato). Ao administrar essa combinação, ela vai direto ao alvo nos receptores de somatostatina, e os tumores neuroendócrinos “engolem” esse composto. A radiação é liberada apenas dentro da célula tumoral, danificando-a. É um tiro ao alvo altamente preciso.

CC: Na prática, como é o tratamento?

RDP: Para tratamento com lutécio, o paciente permanece internado durante, aproximadamente, 24 horas para cada aplicação (ciclo) endovenosa. A aplicação de lutécio dura, em média, quatro horas.

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Voluntárias e pacientes vestem uma peça de roupa rosa em ato pelo Dia Mundial do Câncer (Procuradoria Especial da Mulher/ Wikmedia)

CC: Então, é um tratamento de fato muito novo.

RDP: O uso de radiofármacos, como o lutécio, para tratar tumores neuroendócrinos não é algo novo e já vinha sendo realizado há duas décadas em alguns países, inclusive no Brasil. No entanto, até o estudo Netter-1 ser publicado, não existia nenhum estudo de fase III (ou seja, grande e randomizado) que comprovasse a sua eficácia.

CC: Como foi realizado o estudo?

RDP: Foram sorteados 229 pacientes com tumores neuroendócrinos de intestino metastáticos, que já haviam falhado ao tratamento e à dose habitual de um análogo de somatostatina (no caso, o Octreotide LAR 30 mg), para receberem uma dose dobrada do Octreotide LAR (60 mg) ou manterem a dose habitual da medicação e associar quatro aplicações na veia de lutécio radioativo a cada oito semanas. No 20º mês do tratamento, 65,2% dos pacientes que receberam lutécio ainda não haviam apresentado crescimento significativo do tumor, comparado com 10,8% do outro grupo.

Além disso, a quantidade de pacientes que tiveram seus tumores reduzidos em tamanho foi maior no grupo que recebeu o radioisótopo (18% versus 3%). Apesar de ainda ser cedo para dizer, o tratamento com lutécio parece conferir também ganho de tempo de vida aos pacientes. Paralelamente, os efeitos colaterais foram relativamente bem tolerados.

CC: Qual o impacto real, na prática diária, desses resultados no Brasil?

RDP: Na minha opinião, o estudo foi um dos mais importantes a serem conduzidos nos pacientes com tumores neuroendócrinos, pois criou mais uma oportunidade de tratamento para essa população. Nós já dispomos, no Brasil, de tal técnica, porém, apenas em alguns poucos grandes hospitais privados. Infelizmente, é um procedimento que ainda não é reembolsado pelos planos de saúde e muitas vezes os pacientes precisam arcar com os elevados custos do tratamento, que ficam, em média, de 15 mil a 20 mil reais por aplicação.