Número 934,

Internacional

Nova era

Nos EUA, é presidente contra presidente

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 13/01/2017 04h05
O país não se dividia tanto desde a Guerra Civil, como mostram os choques entre Obama e Trump
Don Emmerti/AFP e Kevin Lamarque/Fotoarena
Trump e Obama

O de lá age como se já estivesse no cargo. O de cá, como se não estivesse prestes a deixá-lo

A transferência de poder de Barack Obama a Donald Trump é a mais turbulenta da história recente dos Estados Unidos. A polarização iniciada pela reação exacerbada à eleição do presidente negro em 2008, seguida pelo surgimento do Tea Party, continua a se acentuar. E, desta vez, os republicanos não são os únicos a divulgar notícias duvidosas ou claramente falsas e tecer teorias conspiratórias para desqualificar seus adversários como atores políticos.

Uma campanha liderada por Trump contestou a legitimidade do presidente Obama do começo até quase o fim, com o disparatado argumento de que sua certidão de nascimento seria forjada e ele teria nascido no Quênia. Ou que de alguma forma teria perdido sua nacionalidade ao morar e estudar na Indonésia quando criança. Ou que o requisito constitucional de natural born citizen para um candidato presidencial exigiria dois pais estadunidenses.

Alegou-se que ele seria secretamente muçulmano, agente da Fraternidade Islâmica. Um absurdo agora igualado por democratas exaltados, para os quais Trump é agente do Kremlin e sua eleição uma fraude orquestrada por Vladimir Putin.

Uma campanha apoiada por Christine Pelosi, filha da líder democrata na Câmara Nancy Pelosi e por alguns órgãos de mídia, pediu aos integrantes republicanos do Colégio Eleitoral que contrariassem seus eleitores para votar em Hillary Clinton, com base na “interferência russa para ajudar Trump a conquistar a Presidência”, com a esperança de inverter 37 votos e o resultado de novembro.

Foi um fiasco sem precedentes: dois republicanos do Texas sufragaram outros republicanos (John Kasich e Ron Paul), mas nada menos de oito democratas recusaram votar em Hillary. Três escolheram Bernie Sanders, quatro preferiram republicanos (Kasich e Colin Powell) e um a líder indígena Faith Spotted Eagle, celebrizada pela luta contra um oleoduto em Dakota.

Deveria ser um lembrete de que a candidata foi mais prejudicada pelos próprios erros do que por supostos agentes estrangeiros, mas Obama alimentou a onda ao divulgar um relatório da CIA e FBI sobre a suposta espionagem russa ao partido democrata e expulsar 35 de seus diplomatas, ato que Putin menosprezou como “diplomacia de cozinha” e desdenhou retaliar, à espera do 20 de janeiro.

Como na época em que Bush filho alardeou as imaginárias armas de destruição em massa de Saddam Hussein, há razões para desconfiar das alegações da CIA e mais ainda das denúncias extraoficiais multiplicadas por jornalistas e redes sociais.

Em 2003, juntamente com a acusa­ção oficial sobre o desenvolvimento de armas químicas e nucleares pelo governo iraquiano, apoiada em provas forjadas e depois desmentida pelos fatos, circulou o delírio segundo o qual Saddam estava por trás da Al-Qaeda e dos atentados de 11 de setembro, nunca afirmado explicitamente, mas sutilmente encorajado pelo governo e assumido pela mídia sensacionalista.

Hoje, ao lado da acusação formal de que o serviço secreto russo espionou os e-mails da cúpula democrata e os entregou ao WikiLeaks – tese negada pela organização e para a qual não se mostraram evidências  além da convicção dos agentes –, propaga-se o absurdo de que os resultados da eleição foram de alguma maneira fraudados pelo Kremlin, jamais explicitado em meios oficiais, mas no qual 50% dos democratas dizem acreditar. Assim como 62% dos republicanos creem que milhões de imigrantes ilegais votaram em Hillary, falsidade que teria sido alegada por Trump para deslegitimá-la se ela tivesse vencido.

Outro exemplo foi a manchete da edição de 31 de dezembro do Washington Post: “Hackers russos penetraram a rede elétrica dos EUA”, acompanhada por análises alarmistas sobre os perigos de o Kremlin desativar a distribuição de energia no país durante o inverno. Na verdade, o laptop do funcionário de uma companhia elétrica de Vermont, não conectado à rede, fora contaminado por um malware de origem ucraniana, disponível a qualquer um na internet.

O mesmo jornal alardeara, dias antes, a denúncia pelo grupo anônimo PropOrNot sobre 200 sites supostamente dedicados a divulgar “propaganda russa”, do Voltairenet e Wiki­Leaks ao ZeroHedge e Goldsilver, ou seja, da esquerda anti-imperialista à direita isolacionista. A principal “evidência” foi criticarem intervenções externas dos Estados Unidos, os rebeldes sírios, a Ucrânia e a União Europeia “em consonância com a linha de propaganda russa”.

Há na reação do governo democrata um elemento de desforra pelas frustrações impostas por Moscou às suas políticas para o Leste Europeu e Oriente Médio, assim como houve em relação a Benjamin Netanyahu na atitude inédita de se abster de vetar a condenação da ocupação da Palestina por Israel no Conselho de Segurança da ONU. Mas trata-se ainda mais de política partidária.

O comentarista conservador Bill O’Reilly foi insensato ao culpar um “macarthismo reverso” pela recusa de vários artistas e celebridades a participar da posse de Trump, mas a expressão se aplicaria bem à renovada paranoia antirrussa.

Putin
Putin não seguiu o roteiro da Guerra Fria. Em vez de expulsar diplomatas dos EUA, convidou seus filhos à festa no Kremlin e zombou de Obama (Foto: Natalia Kolesnikova/AFP)

Nos anos 1950, o senador republicano Joseph McCarthy acusava artistas, celebridades e funcionários do governo democrata de Harry Truman de trabalharem para o socialismo revolucionário do Kremlin.

Com isso, queria talhar a arte, a mídia e a diplomacia de Washington a seu gosto. Hoje, muitos democratas procuram usar o mesmo artifício contra Trump e seus apoiadores. Embora o regime russo seja hoje reacionário e nacionalista, sequer faltam foices e martelos nas caricaturas de desafetos.

Por que se apegar a falsos pretextos quando há tantas razões melhores para se criticar Trump e lamentar sua eleição? Primeiro, a linha principal, centrista, do Partido Democrata (em contraste com a ala esquerda que apoiou Bernie Sanders) está comprometida com a linha neoliberal dos Clinton, mas se deu conta de o quanto ela se tornou impopular entre os trabalhadores e do quanto a classe média branca centrista que gostaria de reconquistar é indiferente ao racismo, ao desmantelamento do Obamacare e a cortes na previdência e programas sociais.

Em segundo lugar, a carta russa acena a líderes republicanos tradicionais como John McCain, cuja carreira se fundou na expansão da hegemonia dos EUA contra Moscou e podem estar dispostos a apoiar os democratas contra uma guinada isolacionista de Trump.

A realidade é que o WikiLeaks vazou com gosto os e-mails de Hillary e seu partido porque tanto integrantes como Julian Assange quanto informantes como Chelsea Manning foram implacavelmente perseguidos pelo governo Obama.

Pode tê-los recebido de um hacker privado ou de um democrata descontente tanto quanto do governo russo: os endereços listados pela CIA e pelo FBI como usados por invasores da rede democrata são nós da rede Tor, utilizáveis por qualquer um.

Mas se Putin usou seu serviço secreto para espionar o partido do governo dos Estados Unido, não fez mais do que a CIA assume fazer a inimigos e aliados. Se tentou influenciar eleições vazando informações ou recorrendo à mídia simpatizante, não é nada mais do que Washington fez e continua a fazer, às vezes de forma descarada, como na Bolívia e Venezuela.

Esse vazamento, além do mais, teve um papel político marginal. Não revelou nada mais bombástico do que pequenas trapaças e trocas de favores. Reforçou a narrativa trumpiana sobre o elitismo clientelista da cúpula democrata, mas muito mais danosas foram as revelações do próprio governo sobre o uso descuidado do e-mail pessoal pela ex-secretária de Estado.

O principal culpado pelo tropeço eleitoral de Hillary, além dela mesma, foi o diretor do FBI, James Comey, ao intervir na campanha para anunciar nova investigação sobre o caso a uma semana da eleição.

E, se o voto popular foi distorcido para favorecer Trump, isso não é culpa de hackers de Putin, e sim de George Washington, Thomas Jefferson e demais pais da pátria que conceberam o Colégio Eleitoral para favorecer os escravistas do século XVIII.

O que deveria concentrar a atenção dos analistas não é o ruído entre Wash­ington e Moscou, mas o grau inédito de divisão da elite estadunidense. No passado, presidentes em fim de mandato não tentavam criar problemas para os sucessores e estes evitavam se manifestar sobre questões estratégicas até o dia da posse. Mesmo de partidos opostos, uns e outros diziam coincidir em valores básicos e políticas de Estado, ao menos em público.

É a primeira vez que dois presidentes sabotam-se abertamente e trocam insinuações mútuas de traição e ilegitimidade, enquanto integrantes dos serviços de inteligência se alinham a um lado ou ao outro. 

Com proclamações pelo Twitter, Trump desautoriza a ONU e a diplomacia de Obama, elogia Putin e Netanyahu, menospreza o serviço secreto que vai comandar e dita ordens sobre encomendas do Pentágono, política comercial e investimentos de transnacionais, enquanto o presidente de saída luta para dificultar tanto quanto possível a reversão de suas políticas, toma nas últimas semanas decisões de longo alcance evitadas durante oito anos e mobiliza tropas para a fronteira russa.

A continuar essa tendência de desagregação, os EUA terão muito mais a temer de si mesmos do que de Moscou ou Pequim. Quem deve se divertir é o líder russo: nem a mídia russa mais servil se atreveria a pintá-lo tão sagaz e poderoso quanto o fazem seus inimigos em Washington.