Número 932,

Saúde

Drogas

O barato pode custar caro

por Rogério Tuma publicado 02/01/2017 06h13
Estamos prontos, aqui, para a liberação da maconha medicinal?

Andando pelas ruelas de Santa Monica, a maravilhosa praia californiana, nos deparamos com uma Cracolândia de Primeiro Mundo. Os viciados perambulam sob efeito de drogas e medicamentos, sem, contudo, ameaçar os transeuntes, e os transeuntes, mesmo se sentindo ameaçados, adaptam-se ao clima e até apreciam a “arte primitiva” vendida pelos viciados – uma pincelada aqui, um trago ali, e o convívio parece ser pacífico e não atrapalhar o comércio e o turismo.

A venda da maconha na Califórnia está liberada para fins medicinais, não só a venda de subprodutos, mas a da planta mesmo. Uma prescrição médica resolve. Como consegui-la é fácil. Pelas ruas, de cor verde bem sugestiva, existem vários postos de atendimento de uma clínica chamada “Dr. Green”. Jovens panfleteiros ficam à porta oferecendo consultas por 40 dólares e explicam que o cliente entra na sala, faz uma entrevista com um médico e em minutos sai com uma autorização para compra de maconha. Aí é só ir em um dos pontos de venda oficiais e escolher o produto, pois as de origem são várias.

O médico não fica na sala de consulta, mas na “estação central”, a rápida entrevista é feita por telefone ou mídia digital, não há exame físico nem uma tentativa prévia de tratamento com outros medicamentos. É só referir na entrevista que você está ansioso ou deprimido, como sugerem os vendedores à porta. Simples assim.

O uso é medicinal, mas sem controle. Segundo estudo publicado na revista Cannabis and Cannabinoid Research, apenas 20% das pessoas envolvidas na dispensação de maconha para os usuários tiveram treinamento médico ou científico sobre a droga. De acordo com a autora da pesquisa, Nancy Haug, da Universidade de Palo Alto, em muitos casos não há nenhuma indicação de uso medicinal da maconha ou de seus subprodutos; e em outros tantos, a indicação é errônea e poderia até exacerbar o problema dos pacientes.

Aqui no Brasil, as liberações judiciais são mais para o tratamento de alguns tipos específicos de epilepsia, onde recentes estudos demonstram maior controle das crises em alguns pacientes. Já nos EUA, as queixas mais comuns vistas pela equipe de dispensação foram: dor crônica (93%), insônia (80%) e ansiedade (80%). Epilepsia era vista por apenas 40% dos centros de dispensação.

Nos casos de dispensação de concentrações de canabinoides, tipo THC e CBD, as formulações eram incongruentes com as indicações clínicas encontradas na literatura médica: 13% dos dispensadores indicavam THC para ansiedade e 7% para epilepsia, sendo nesses dois casos contraindicado, por piorar tais doenças.

Outro fator do descontrole é que liberar o uso de maconha e seus derivados virou um bom negócio para os governos. Mais da metade dos estados americanos já liberaram seu uso médico, mas só quatro para uso recreativo. A expectativa nos Estados Unidos é de que sejam arrecadados cerca de 30 bilhões de dólares de impostos em 2017. O Oregon, que liberou a maconha recreativa e cobra 25% de impostos, recolheu 14 milhões de dólares no primeiro mês. O mercado de maconha medicinal da Califórnia gira mais de 3 bilhões de dólares ao ano e gera milhares de empregos. 

Parece ser um bom negócio a liberação da maconha recreativa, pois controlar o uso apenas medicinal aqui no Brasil será dispendioso e praticamente impossível. O único problema é que os efeitos a longo prazo da maconha em grandes populações ainda estão por ser estudados, e talvez boa parte do ganho com impostos tenha de ser gasta com clínicas de saúde mental. Foi assim com o álcool, assim será com a maconha.