Número 930,

Internacional

Europa

Na Europa, o liberalismo toma um caminho suicida

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 07/12/2016 04h53
O centro-direita propor o thatcherismo como alternativa ao populismo em pleno 2016 é uma jogada perigosa
David Lemor/AFP
Marine Le Pen

Após a primária de Os Republicanos, a França escolherá no segundo turno entre dois sabores da direita radical: Fillon ou Le Pen

As prévias do partido Os Republicanos, o principal do centro-direita francês, tiveram três candidatos principais: Nicolas Sarkozy, Alain Juppé e François Fillon. O mais conhecido é o ex-presidente Sarkozy.

Apesar de pelo menos 30 denúncias de financiamento ilegal de campanhas (inclusive pelo finado líder líbio Muammar Kaddafi, deposto e assassinado com sua ajuda), corrupção, abuso de poder e tráfico de influência durante seu governo, inclusive processos que já lhe renderam uma detenção para interrogatório em 2014 e ainda o ameaçam com mais de dez anos de prisão, candidatou-se e em 2015 chegou a ser considerado favorito.

Sua campanha aproximou-se tanto quanto possível da ultradireita populista de Marine Le Pen. Proclamou-se “candidato do povo”, proclamou sua admiração por Donald Trump e fez da defesa da “identidade francesa” contra a imigração o eixo de sua campanha.

Apoiou a tentativa de prefeitos franceses de proibir o “burquíni”, propôs restrições à naturalização de imigrantes e pediu inconstitucionalmente a prisão de suspeitos de contatos com terroristas. Contra os protestos de pais de alunos muçulmanos (e judeus) contra merendas escolares com carne de porco como única opção, mandou as crianças comerem batatas.

O ex-presidente teve apenas 21% dos votos no primeiro turno das primárias e ficou em terceiro lugar, o que não deveria ter sido surpresa. Embora aberto a todos os eleitores, sem exigência de filiação partidária, o processo envolveu basicamente eleitores ou simpatizantes do centro-direita.

Participaram 10% dos eleitores potenciais e 15% daqueles que costumam votar de fato. O eleitor para o qual xenofobia e “identidade” são primordiais prefere a Le Pen original a uma cópia oportunista e incoerente. Tal pauta harmoniza tão mal com a União Europeia e o livre-comércio quanto um tinto de Bordeaux com um crepe Suzette.

Alain Juppé, ex-primeiro-ministro de Jacques Chirac com uma postura centrista, teve 28% e foi ao segundo turno com François Fillon, ex-primeiro-ministro de Sarkozy cuja campanha combinou neoliberalismo econômico radical com conservadorismo moral e surpreendeu com 44% dos votos. O segundo turno, no domingo 27, confirmou seu favoritismo por 67% a 33%.

Analistas e comentaristas identificados com a direita liberal estão em êxtase. Falam de “derrota do populismo”, escrevem longas matérias para explicar como o sistema de dois turnos torna impossível à França repetir as surpresas do Brexit e da eleição de Trump e lembram a eleição de 2002, quando Chirac teve 19,9% contra 16,9% de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, no primeiro turno, para derrotá-lo no segundo por 82% a 18%, graças à união de quase todos os partidos contra o neofascismo.

A pesquisa mais recente mostra Fillon com 29% contra 25% da candidata de ultradireita, seguidos de longe por Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia que concorre como centrista independente, com 15%, Jean-Luc Mélenchon, da esquerda mais autêntica, com 12%, e o presidente socialista François Hollande com 7,5%.

Este anunciou na quinta-feira 1º a desistência de disputar a reeleição. O primeiro-ministro Manuel Valls deve ser o candidato socialista, mas o governo decepcionou tanto que será difícil a qualquer integrante ter resultados muito melhores.

No segundo turno, diz a mesma pesquisa, Fillon venceria Le Pen por 67% a 33%. Entretanto, o primeiro turno da eleição presidencial será em 23 de abril e o segundo, em 7 de maio. Nos próximos seis meses, esses números podem mudar tanto quanto mudaram na própria primária. Em pesquisas de junho, Juppé tinha 38%, Sarkozy 30% e Fillon estava em quarto lugar com 9%, atrás dos 16% do ex-ministro da Agricultura Bruno Le Maire.

Ao contrário do que se deu em 2002, desta vez o sistema de dois turnos pode não servir de dique contra o populismo. Há 14 anos, o movimento de Le Pen era uma aberração em um mundo de neoliberalismo triunfante e em um continente ainda entusiasmado com o euro e a União Europeia.

Protesto
É a um país que passou 2016 convulsionado por protestos contra reformas menores que o liberalismo quer impor um novo Thatcher (Foto: Irina Kalashnikova/AFP)

Ainda estava longe o referendo de 2005, primeiro revés político sério do projeto europeu, mais ainda a crise bancária de 2008, a humilhação de Hollande, Matteo Renzi e outras lideranças de centro-esquerda ante as imposições de Angela Merkel e Wolfgang Schäuble e o movimento de refugiados da África e do Oriente Médio.

Hoje, infelizmente, a direita populista não é mais uma anomalia e Marine é uma estrategista mais hábil do que Jean-Marie. Ao isolar as vozes mais estridentemente racistas e neofascistas, inclusive a do próprio pai, e deixar de insistir na expulsão de imigrantes legais, conseguiu fazer a mídia tratar seu partido como normal. Com mais de 27%, seu partido foi o mais votado nas eleições regionais de 2015.

A elite neoliberal, aparentemente, não se dá conta disso. Assim como confiava na vitória do Brexit e de Hillary Clinton, está certa de que os eleitores de centro e esquerda se conformarão com o mal menor e votarão em Fillon, o candidato que em plena crise do neoliberalismo se diz inspirado em Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Além de ser católico conservador, contrário ao casamento homossexual e à legalidade do aborto, ele promete demitir 500 mil funcionários públicos, fazê-los trabalhar 39 horas em vez das 35 vigentes desde 2000 e desmantelar a legislação trabalhista, reduzindo-a de 3 mil páginas para 150. 

Por muito menos, sindicatos e manifestantes paralisaram o país várias vezes em 2016. Será mesmo um mal menor, do ponto de vista do eleitor? A Frente Nacional defendeu um programa neoliberal à moda de Thatcher nos anos 1980, mas hoje é protecionista, defensor do controle estatal da saúde, educação, transportes e energia e do bem-estar social, ainda que restrito ao cidadão francês. O que, segundo seu prefeito de Béziers, Robert Ménard, ex-fundador da ONG Repórteres Sem Fronteiras, “significa ser branco, europeu e católico”.

Do ponto de vista dos interesses liberais, a aposta em Fillon é perigosa, se não irresponsável. Do ponto de vista do eleitor, soa como uma chantagem desavergonhada apelar a seus sentimentos antifascistas para forçá-lo a dar um mandato ao candidato que oferece liquidar seus direitos sociais e trabalhistas após 30 anos de neoliberalismo terem demonstrado seus efeitos destrutivos nas sociedades britânica e estadunidense.

Como acontece cada vez com mais frequência, o tradicional eleitor de centro-esquerda pode cruzar os braços para preservar sua dignidade e muitos jovens podem decidir que, afinal, o fascismo não é tão ruim assim e a permanência na União Europeia não vale mais sacrifícios.

Isso não é hipérbole. As pesquisas mostram o descrédito progressivo da democracia liberal formal entre as novas gerações. Nos Estados Unidos, mais de 70% dos nascidos nos anos 1930 ainda lhe dão importância, mas a proporção cai para 50% na geração dos anos 1960 e pouco mais de 30% para os filhos dos anos 1980.

Na média europeia, a tendência é menos acelerada, mas segue a mesma direção. É o resultado de décadas de esvaziamento da vontade das maiorias pelo There Is No Alternative (Tina) de Thatcher, endossado por Bruxelas, Berlim e no fim das contas pelas próprias centro-esquerdas, com raras exceções.

Hoje, essas maiorias estão cada vez menos dispostas a dar sangue, suor e lágrimas para sustentar uma ficção morta-viva e setores substanciais podem até apoiar o autoritarismo se este lhes garantir, se não privilégios, pelo menos a manutenção dos direitos que o liberalismo pretende esvaziar.

Uma aposta bem menos arriscada fracassou na Itália, onde a proposta de reforma política de Matteo Renzi foi derrotada. Tratava principalmente de esvaziar o Senado e concentrar o Poder Legislativo na Câmara, porque o jogo político entre as duas casas há décadas atrasa as propostas de mudança e paralisa o Executivo. Secundariamente, a reforma incluiria a União Europeia na Constituição italiana.

Se o referendo tivesse acontecido em abril de 2014, quando o primeiro-ministro italiano anunciou a proposta logo após assumir o governo com alta popularidade e romper com a UE ainda parecia impensável, a mudança provavelmente teria sido aprovada com folga.

Mas, assim como o presidente francês, Renzi viu-se de mãos atadas pela rigidez de Bruxelas, Berlim e Frankfurt, incapaz de atender razoavelmente as expectativas criadas e com a imagem associada à liberação das demissões sem justa causa e uma reforma educativa impopular.

Quando passou a ameaçar demitir-se caso sua proposta fosse rejeitada, o referendo deixou de ser sobre o bicameralismo e passou a ser sobre seu governo. A reforma passou a ser vista como uma maneira de reforçar o poder do Executivo e impor medidas impopulares.

O governo ficou isolado e foi combatido por todos os lados, inclusive a oposição conservadora de Silvio Berlusconi, os populistas, os liberais de The Economist, os sindicatos e parte da ala esquerda do seu próprio Partido Democrático, liderada pelo ex-primeiro-ministro Massimo d’Alema.

Na reta final, apelou à mesma estratégia dos democratas nos EUA ao tentar assustar o público com o risco de novas eleições levarem ao poder o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo. Os eleitores deram de ombros. Ainda no domingo 4, Renzi anunciou sua renúncia, e o partido de Grillo disse estar pronto para governar. Agora, o mesmo pode acontecer na França. 

 

*Uma versão deste texto foi publicada originalmente na edição 930 de CartaCapital, com o título "Liberalismo suicida"