Número 930,

Cultura

Entrevista

Daniela Mercury, a alma do axé

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 12/12/2016 05h09
Pioneira nos trios da Bahia, a cantora baiana expõe a profusão de preconceitos, estéticos e de gênero, que enfrentou
Tadeu Amaral
Daniela Mercury

"Nunca pensei em ser artista famosa, mas as coisas aconteceram"

Um dia, a tristeza fantasiou-se de alegria e foi pular Carnaval. Para a cantora e compositora Daniela Mercury, o axé dos anos 1990 e 2000 moveu multidões apaixonadas (e irritou detratores mal-humorados com o excesso de euforia) não só pelo que exibia de alegria, mas pelo que escondia de tristeza e melancolia.

A trajetória do gênero musical e da artista de 51 anos se condensa no show, DVD e CD ao vivo (não muito) intimista O Axé, a Voz e o Violão, lançamento da Biscoito Fino, em que encena um mergulho em águas mais profundas do que aquelas muitas vezes interpretadas como expressão meramente comercial de entretenimento e banalidade.

Lado a lado com a esposa e empresária, a jornalista Malu Verçosa, Daniela recebe CartaCapital em um hotel paulistano para duas horas e meia de uma conversa que gravita quase o tempo todo em torno de empoderamento, seja ele feminino, homossexual, nordestino, baiano, negro, afro-brasileiro, brasileiro.

CartaCapital: Por que sua vida é feita de nãos?

Daniela Mercury: Sempre foi difícil fazer tudo que decidi fazer. Eu queria ser bailarina, meus pais não achavam uma profissão viável. Nunca pensei em ser artista famosa, mas as coisas aconteceram, enquanto eu cantava MPB em barzinhos.

Tive filhos muito cedo, lavava, passava, cozinhava. Depois, com minha carreira, ouvi não de todos. Nunca botei uma música na rádio sem ouvir que ninguém gostava. Quando gravei O Canto da Cidade (1992), a gravadora não gostou do disco, não queria tocar, achava que o Olodum já era. Um pouco mais adiante, quando fui para a BMG, ouvi o diretor artístico Jorge Davidson confessar que odiava axé. 

CC: O diretor da gravadora também odiava? Não eram só os críticos?

DM: Tinha acabado de estourar, no momento em que o gênero era batizado. Ele virou pra mim e disse: “Eu odeio música baiana, não gosto do tipo de música que você faz”. Então, o que é que você está fazendo aqui falando comigo? Sou uma parceira, sócia da companhia. Talvez eu só tenha conseguido fazer algo importante porque recebi tantos nãos.

O que minha geração ia fazer? Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais? Por que eu tinha de repetir alguma coisa feita? Artista não é pra entrar no lugar do desconhecido, ser provocador, anunciar novos tempos? Achava também que a parte poética precisava encontrar caminhos, mas, quando comecei, não tinha segurança como compositora.

CC: A compositora ouvia nãos?

DM: É um não social: as mulheres não compõem. Tem Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, mas são poucas e ficaram meio escondidas. Não se reconhece a mulher como compositora importante, transformadora. Tinha de conseguir viabilizar meu trabalho para justificar o investimento, então precisava mentir um pouco, ou bastante (risos).

Mercury
As gravadoras não queriam saber de compositoras em seus catálogos (Tadeu Amaral)

 Fui buscar alguns compositores, como o Guiguio, do Ilê Aiyê. Aquele discurso me tocava como cidadã de Salvador, via uma afirmação de um povo em busca de ascensão social e respeito. Até as músicas de enciclopédia como Madagascar Olodum eram massa, porque, pô, o cara pega lá um pergaminho qualquer e sai cantando, era um rap da gente. Lá adiante o que fiz? Eles me davam as letras, às vezes havia textos que eu achava mais pobres poeticamente, muito verbo no infinitivo. Então comecei a interferir.

Pedia licença pra compor junto, mostrava pra ver se gostavam, e fui em frente. Uma vez, eu estava mostrando minhas músicas e o Jorge Davidson perguntou se eram boas. Nem tinha ouvido. Ele foi irônico: “Eu não quero saber o que uma mulher pensa, não me interessa o que uma cantora pensa”. Por que a ironia? Sou compositora de hits, de letras, de grande parte das melodias, dos arranjos, sou produtora dos meus álbuns.

Minha irmã disse: “Ah, mas você não vai querer fazer músicas tão boas quanto as de Caetano”. Lógico que eu quero fazer. Você não pode desejar isso, lutar por isso, construir uma obra? Que loucura impedir uma mulher de pensar que pode. Nas gravadoras, era muito desrespeitada o tempo inteiro. Muito, muito.

CC: Quais os nãos quando uma mulher vira líder de massa em cima de um trio elétrico?

DM: Primeiro, ouvi que voz de mulher não é pra puxar trio elétrico, vai cansar quem tiver lá embaixo, pois é irritante e aguda. Nenhuma mulher puxava blocos que vendiam mortalha. Fui para o trio elétrico ver no que dava, para aprender. Era um trampo pra mim. 

CC: A alegria do axé incomodava? 

DM: A alegria do axé às vezes me incomoda muito, a alegria exagerada. Mas eu preciso muito dela, porque eu sou melancólica.

CC: Você diz em Alegria e Lamento que a alegria do axé é triste.

DM: Sempre foi. Nunca vi algo homogêneo, de felicidade. Sempre acho um caos, como tudo. Melodicamente, o axé é lamentoso. Harmonicamente, os tons são menores. Se você ouvir, todos os sambas-reggae quase são em menor.

Nobre Vagabundo, por exemplo, quanto tempo tem, pra matar essa saudade, tem uma tristeza melódica tamanha. Eu vim de uma MPB totalmente triste, sou filha de português, triste. Sou muito mais fadista que qualquer coisa. Então, meu samba tinha uma tristeza sempre muito grande. 

CC: Como um ser humano consegue cantar sete horas num trio elétrico? 

Malu Verçosa: Quero dizer que ela anda acompanhada, não sobe ali sozinha. Já vi de todo jeito, doente, cansada, exausta, sem dormir, sem comer, com problema, sem problema. Quando ela sobe, não se lembra de mais nada. Sara tudo. Sara a alma.

Carnaval
O pré-carnaval de São Paulo foi 'o mais feliz da vida' (Leon Rodrigues/SECOM)

DM: Sara a alma, mas o corpinho fica acabado.

MV: Sabe o que a gente faz? Dá carboidrato líquido pra ela. Tem horas que fico no pé dela, Daniela, bebe agora. Senão, ela não bebe. Ela entra em transe. Não é humana. Em São Paulo, quando puxou o trio elétrico no Pré-Carnaval de 2016, estava virada, sem dormir, com o pé machucado. Disse que foi o mais feliz da vida dela. Acho que o meu também.

DM: Foi abrir uma picada nova no meio de uma floresta, é importante a gente ocupar espaços. Fiquei doida pra ocupar o Ministério da Cultura agora nas manifestações, mas não deu tempo. Fui convidada pra ser ministra da Cultura, você sabe? Disse não. Sou contra o impeachment. Michel Temer tinha ocupado o espaço que não era dele.

Depois, tudo que ele fizesse não importava muito. Independentemente de a situação ser esdrúxula politicamente, inaceitável pra quem acredita nos caminhos da democracia, fiquei lisonjeada, gostaria de contribuir e contribuo como posso.

CC: O impeachment foi golpe?

DM: (Silêncio.) É... Acho que foi uma articulação, eles tentaram encontrar soluções para sobreviver. Com certeza, não foi em prol do País. Esses meses de angústia com o impeachment me acabaram a vida. Adoeci ao menos três vezes. Era um sofrimento que parecia me cortar a carne. Senti, obviamente, que havia machismo, mas também não posso dizer que foi só isso. Dilma Rousseff foi eleita duas vezes, então não foi da sociedade. 

CC: Vê um período de retrocesso para os Direitos Humanos?

DM: Quando um Donald Trump vence com respaldo de gente muito careta, conservadora, machista, com discursos de ódio, é mais grave, pois ele é um agressor das minorias. Temer é um agressor da democracia, é uma agressão à estrutura do voto, ao que a gente conquistou com muito esforço. Trump é mais grave, faz um ataque verbal e claro às minorias, provoca violência contra os gays, as mulheres, os negros, os pobres. Ele não celebra o que ele gosta de ser, ele ataca. 

CC: Com o João Doria Jr. na prefeitura de São Paulo não vai ter mais Carnaval com Daniela Mercury? 

DM: Vou fazer todo o possível para sensibilizá-lo. Quero a rua para andar e cantar. Pra mim, gente na rua é canteiro de flor. É como arar a rua de novo, trazer terra, natureza, humanidade, amor. Acho que ele quer o mesmo para a cidade. 

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