Número 927,

Internacional

América

A América Grande outra vez?

por Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo — publicado 18/11/2016 11h35
Perigo: o declínio do centro exprime a ruptura das relações mais “equilibradas” entre os poderes do “livre-mercado” e o resguardo dos direitos econômicos e sociais dos desfavorecidos
América Grande?

"Sociedades cada vez mais divididas entre os integrados e os excluídos"

Os mercados financeiros entraram em pânico com a vitória de Donald Trump. As previsões a respeito das reações dos mercados foram as únicas que se confirmaram na posteridade da derrota de Hillary

Os meios de comunicação americanos, os grandes jornais, as redes de televisão não só torceram desesperadamente pela vitória da senhora Clinton como cuidaram de distorcer informações para alavancar a candidata do Partido Democrata. 

 Os senhores da opinião insistiram nas tiradas racistas, sexistas, xenófobas e politicamente incorretas de Donald Trump. Esqueceram que o racismo, o sexismo, a xenofobia e a incorreção política de Trump são apenas a forma de expressão do darwinismo social que reparte os indivíduos entre “vencedores” (winers) e “perdedores” (loosers).

Pois os “perdedores” venceram as eleições. Venceram porque as dolorosas realidades da vida econômica armaram o cenário da derrota de Hillary, a representante do eixo WW (Washington-Wall Street). A globalização WW não entregou o sucesso social e econômico prometido pelos valores do american way. Por isso, os perdedores proclamam que a América precisa ser grande, outra vez.       

Nesse cenário, acirrou-se o conflito distributivo com repercussões no debate democrático. A eleição americana demonstrou as dificuldades das posições políticas de centro diante da “radicalização” à direita e à esquerda. 

Como assinalou o lúcido conservador Martin Wolf em artigo publicado no Valor em fevereiro: “Políticos bem-sucedidos compreendem que as pessoas precisam sentir que suas preocupações têm de ser levadas em consideração, de que eles e seus filhos desfrutem a perspectiva de uma vida melhor e de que vão continuar a ter uma dimensão adequada de segurança econômica.” O declínio do centro exprime de forma dramática a ruptura das relações mais “equilibradas” entre os poderes do “livre-mercado” e o resguardo dos direitos econômicos e sociais dos cidadãos desfavorecidos.  

Nos estertores dos anos 1970, a agonia do chamado “consenso keynesiano” despertou as ilusões da “economia da oferta”. Ronald Reagan proclamava que “o Estado era o problema e não a solução”. Os “reaganites” preconizavam a redução de impostos para os ricos “poupadores”.  A Curva de Laffer acusava os sistemas de tributação progressiva de desestimular a poupança e debilitar o impulso privado ao investimento, enquanto os trabalhadores “prejudicavam” a economia e a si mesmos ao pretender fixar a taxa de salário fora do preço de equilíbrio. Nos mercados de bens, a palavra de ordem era submeter as empresas à concorrência global, eliminando os resquícios de políticas industriais e de desenvolvimento.

A velha toupeira do capitalismo cavou fundo e redefiniu em poucos anos a distribuição espacial da produção, do comércio, dos fluxos de capitais. Em sua fúria criadora e destrutiva, entregou os mercados financeiros às suas insanidades, o que impulsionou a formação de oligopólios globais, centralizando o controle da produção em poucas empresas e promoveu a precarização em massa do emprego

 A crise financeira esgueirou-se silenciosa nos subterrâneos da economia globalizada, enquanto seus acólitos midiáticos e acadêmicos evangelizavam o público com as crendices sobre os mercados eficientes e “competitivos” no provimento de informações para os agentes racionais e otimizadores. É reconfortante acreditar em Papai Noel. 

Quando irrompeu das profundezas, o terremoto financeiro exigiu os cuidados das políticas de socorro às instituições financeiras. Incapazes de revigorar as economias, socializaram prejuízos, engordaram a riqueza rentista e parasitária por meio do endividamento dos Estados. De quebra, acentuaram a concentração de renda e resgataram dos baixios do fracasso a subteologia dos mercados eficientes e competitivos.

O Relatório Annual do Bank of International Settlements de 2014-2015 questiona o ramerrão do establishment político-econômico-midiático. Antes e depois da crise financeira, “isso tem tudo a ver com a forma de expansão do crédito. Em vez de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto, a expansão do crédito está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles ‘reais’ (imóveis ou empresas), sejam financeiros”.  

 Ao contrário do que reza a vulgata de certa esquerda e pregam os delírios da direita, a nova etapa do capitalismo não realizou a propalada redução do Estado. Há quem se perca nas palavras e imagine observar as consequências da “desregulamentação”. Nada disso, denuncia o ex-economista-chefe do FMI, Simon Johnson: o mundo assistiu à “regulamentação” concebida nas salas adornadas com a rica tapeçaria de Wall Street.

Disseminada por rádio, televisão e jornais, a fábula “Mais Estado, Menos Estado” empenha-se em convencer as pessoas: os cidadãos precisam sacrificar-se, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos ou encarar a destruição da economia. Em nome da ciência econômica, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. 

O observatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico revela: a dívida pública em porcentual do PIB nos países da Organização apresentava uma média de pouco mais de 40%, em 1970. Ela eleva-se para quase 100% em 2011, assoberbada pelas operações de troca do lixo tóxico privado por títulos dos governos.

Para os aprisionados nos grilhões mentais da Macroeconomia das Cavernas, é preciso afinar os instrumentos das fracassadas políticas neoliberais para repetir os acordes da sinfonia inspirada nos arranjos melódicos do início dos anos 80. Para outros ouvidos, os instrumentos desafinados acusam o desarranjo melódico da globalização patrocinada pelo Estado do Mercado.  

Ironicamente, os pretensos defensores dos fundamentos da ordem burguesa promovem o fracionamento das sociedades, cada vez mais divididas entre os integrados e os excluídos, o que fomenta a busca desesperada por formas de identificação “primárias”, religiosas, étnicas e “tribais”, mutuamente hostis e declaradamente inimigas dos valores republicanos. A América Grande, outra vez? 

registrado em: Estados Unidos, Donald Trump