Número 926,

Cultura

Papinho Gourmet

Como avaliar a gastronomia?

por Marcio Alemão publicado 11/11/2016 16h38, última modificação 13/11/2016 02h21
Praticamente todos os restaurantes da cidade receberam três-estrelas das cinco possíveis

–Viu que maravilha a premiação da grande mídia?

– Os melhores restaurantes, bares e afins?

– Menciono já a categoria “melhores coreanos”?

– E senti uma pitada de ironia em seu comentário e vou me permitir discordar. Se já temos dois na cidade é mais do que justo que se instaure entre eles o senso da disputa e, por fim, que seja premiado o que mais se esforçou.

– Bom ponto, o da disputa. Se for considerado eu diria que prêmio deixou a desejar.

– E por quê?

– Praticamente todos os restaurantes da cidade receberam três-estrelas das cinco possíveis.

– Não é fantástico, isso? É a velha e boa Sampa mostrando ao País e ao mundo que faz jus à alcunha de“capital gastronômica”. 

– Vou ser bem sincero com você: tenho quase, quase certeza de que houve uma transformação importante em meu paladar nos últimos anos que gerou uma enorme dificuldade em encontrar um local ou um prato que me traga grande alegria. 

– Também falando sério, temo que o mesmo processo tenha rolado do meu lado. 

– É bem provável que a gente esteja errado. Perdemos a capacidade de avaliar e de entender o que é uma boa cozinha, porque realmente não faz sentido termos tão bons restaurantes na cidade e a maioria nos decepcionar.

– Outros tempos.

– Por certo. Aproveito para voltar a um velho tema que tem a ver com esse receio: escolher um bom queijo.

– Não entendi.

– Leio na grande mídia a chamada: aprenda a reconhecer e escolher um bom queijo.

– Imagino que a instrução não contemple a simples degustação. 

– Não cheguei a ler por ter certeza de que o especialista me esfregaria na cara a verdade: você não entende nada de queijo; passou uma vida comendo os piores, acreditando que eram bons; você é um nada nesse mundo, assim como é um nada no universo das cervejas artesanais, dos vinhos, da comida latino-americana; você não passa de um ignorante que acredita que o seu paladar deve prevalecer sobre os conceitos estabelecidos por nós, os expertos.

– Fato. O mundo mudou e não acompanhamos. Neste momento poderíamos estar desfrutando de uma gloriosa refeição em qualquer um dos muitos estrelados e cá estamos, inconformados.

– No final ficamos com qual definição: de nada entendemos ou...

– Ou. Ainda e sempre melhor ou. 

*Coluna publicada originalmente na edição 926 de CartaCapital, com o título "Estrela a prêmio"