Número 833,

Internacional

França

Nós sempre teremos Paris

por Gianni Carta publicado 25/01/2015 09h41, última modificação 25/01/2015 16h01
A frase de Bogart para Ingrid Bergman em Casablanca traduz a mística amorosa de uma cidade que nem a tragédia ofusca

A conversa com o zio Luigi aconteceu no inverno de 1993. Eu tinha pedido demissão de um semanário e, assim, deixei de ser correspondente em Paris. Passei a depender de escassos freelances. Miséria total. Mudei para uma chambre de bonne, os antigos quartos de empregados no último andar dos prédios, agora ocupados pelos menos endinheirados. Incluída a ducha, tinha 12 metros quadrados. Decoração espartana: colchão sem estrado, mesa de fórmica e cadeira, geladeira de hotel e uma placa elétrica de uma boca. Coletivo o lavabo no corredor.

Garoava. Toca o telefone. Zio Luigi, então diretor da Vogue em Madri, indaga: “Como vão as coisas?” “Mal”. “O que você vê da janela?” “A Torre Eiffel”. “Está acesa?” “Está”. “Está comendo direito?” “Baguetes com queijo, presunto ou patê, tomo uns tintos baratos”. Luigi: “Namoradas?” “Uma italiana”. Luigi: “Bonita?” “Razoável”. Luigi: “Quer vir morar em Madri, e mudo para a tua chambre de bonne?”

São boas as memórias daqueles anos “trágicos”. Escrevi um livro. Frequentei livrarias, cafés, cinemas de bairro, clubes de jazz, museus. Paris é ideal se você busca a solidão, ou o contato humano. Converso com os vizinhos, o açougueiro, o jornaleiro, o barbeiro. Após 11 anos em Londres, voltei à República para colocar os filhos em escolas públicas republicanas. Melhor falar de política que de hipotecas. Ter acesso ao melhor sistema de transporte público da Europa e não ter automóvel. Jogamos futebol, pingue-pongue e fazemos piqueniques nos parques. E como diria Hemingway, Paris continua uma festa. Mesmo no inverno e sob uma constante garoa (I love Paris in the winter when it drizzles, cantou Cole Porter), Paris inspira.

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O requinte déco das estações de metrô assinadas por Hector Guimard

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A feroz iconografia de maio de 1968

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Em Saint-Germain, a rivalidade ideológica separa os vizinhos Café de Flore e Deux Magots

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O garoto com a baguete, foto clássica de Willy Ronis (1952)

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