Número 811,

Internacional

Análise / Wálter Maierovitch

Quem matou Borsellino?

por Wálter Maierovitch publicado 04/08/2014 08h20
Surgem fortes indícios de que o juiz antimáfia foi assassinado no conluio Estado-Cosa Nostra
ho visto nina volare/Flickr
Borsellino

Paolo Borsellino e o magistrado Giovanni Falcone, também assassinado em 1992

Durante anos, a mesma pergunta: o senhor não tem medo de ser morto pela Cosa Nostra? Sem buscar protagonismo, o magistrado antimáfia Paolo Borsellino respondia seco: “Quem tem medo morre todos os dias. Quem não tem, morre uma vez só”.

Num domingo, 19 de julho de 1992, e 56 dias depois de a Cosa Nostra dinamitar por vendetta o magistrado Giovanni Falcone, o corpo de Borsellino, carbonizado em explosão, materializou uma tragédia anunciada e ainda envolta em muitos mistérios, como acaba de destacar Roberto Scarpinato, atual procurador-geral de Palermo.

Suspeita-se ter sido mandante oculto desse crime o próprio Estado, por meio do Ministério do Interior, empregado agentes do serviço de inteligência e informações (Sisde) conluiados com militantes da Cosa Nostra. Os quais teriam organizado e executado o atentado ocorrido em Palermo, via Mariano D’Amelio, defronte ao condomínio onde morava a mãe de Borsellino, àquela hora à espera da visita do filho. Um fato: do interior da maleta que o juiz trazia no seu carro foi retirada a Agenda Rossa: um diário onde Borsellino, depois da morte de Falcone, lançava dados e conclusões.

Cerca de um mês antes da explosão da dinamite colocada em um Fiat 126 furtado, Borsellino, procurador-adjunto de Palermo, avisara: temia ser morto proximamente, por execução da Cosa Nostra, mas por iniciativa de outros. Poucos dias antes da tragédia, contara a várias pessoas que o explosivo a ser usado no atentado acabara de chegar a Palermo.

O primeiro processo criminal, chamado de Borsellino I e aberto em 1994, condenou não mafiosos que se autoacusaram e receberam penas pesadas. Como se descobriu apenas em 2008 por meio do colaborador de Justiça Gaspare Spatuzza, figura do grupo de fogo e de eliminações da Cosa Nostra, os condenados eram bandidos comuns e, no terror dos mafiosos, aceitaram a condição de peculiares “laranjas”.

Spatuzza reconstruiu a dinâmica do atentado do qual participou ativamente. Aliás, coube a ele furtar o veículo, colocado a carga explosiva, estacioná-lo na via D’Amelio. Apoio fundamental e ordens precisas recebera, consoante confirmado pelo colaborador de Justiça Fabio Trachina, das famílias mafiosas das localidades de Brancaccio e Ciuculli. Tramita, hoje, o processo Borsellino, enquanto já se sabe ter Leonardo Messina, mafioso de ponta, contado ao juiz a conversão à máfia de agentes do Sisde.

Outro colaborador, Gaspare Mutulo, antigo motorista do chefe dos chefes Totò Riina, avisara ser Bruno Contrada, terceiro na hierarquia do Sisde, mafioso ligado à cúpula de governo da Cosa Nostra. Foi posteriormente condenado e preso por associação mafiosa. Fora disso, em uma escuta ambiental, a esposa do mafioso Mario Santo di Matteo, reprovava o marido por não haver revelado, como colaborador de Justiça, as ligações da Cosa Nostra por agentes do próprio Estado. Quando da escuta, a esposa estava preocupada com o sequestro do filho de 13 anos pela Cosa Nostra em seguida às delações do pai: o menino acabou executado e o seu corpo foi dissolvido em ácido.

Por seu lado, Riina, condenado como mandante no processo Borsellino II de 1996, num desabafo disse que de verdade “outros tinham  mandado matar Borsellino”, numa alusão às tratativas entre Estado e Cosa Nostra, mediadas pelo mafioso prefeito de Palermo, Don Vito Ciancimino, morto em 2002 no cárcere.

O procurador Scarpinato indagou se poderia existir, naquela quadra, algum interesse da cúpula da Cosa Nostra na execução de Borsellino. De fato, à época o Parlamento italiano relutava em converter em lei o decreto provisório sobre cárcere duro para mafiosos. Término da sua vigência: 8 de agosto de 1992. Com a morte de Borsellino, em julho, o decreto virou lei, sem mais oposição alguma. A Cosa Nostra, daí o espanto de Scarpinato, não costuma praticar autolesão.

Com efeito, não se pode afastar a hipótese de que alguns grupos mafiosos, sem aval da cúpula presidida por Riina, tenham sido pressionados pelos donos do poder romano para, com urgência, executarem Borsellino. Por quê? Porque o juiz era entrave à negociação entre Estado e Cosa Nostra. Nisso entraria, então, Nicola Mancino, ministro do Interior, o qual no momento está sendo processado por associação mafiosa e falso testemunho.

Dado final. Existe prova documental de ter sido suspenso, em Roma, o interrogatório de Mutulo, conduzido por Borsellino e isso para ele atender a uma convocação urgente de Mancino. Na volta, e ao prosseguir no interrogatório, Borsellino, destacou Mutulo, estava transtornado. Chegou a dizer-lhe que não mentira ao apontar ligações da Cosa Nostra com Contrada, que estava na sede do ministério e o recepcionou. Mancino, que agora já admite ter visto Borsellino naquele dia, continua a sustentar não recordar de ter mantido com ele alguma conversa.

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