Número 788,

Cultura

Exposição

As grandezas do “homem-tudo”

por Rosane Pavam — publicado 25/02/2014 05h05, última modificação 25/02/2014 05h10
Exposição no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, vê Araújo Porto-Alegre como artista e agitador
Acervo do Instituto Moreira Salles
Exposição

Além da caricatura. Estudo para uma cena de batalha e a aquarela Mata Virgem, 1890

O Brasil descobre que, em nome de uma história cultural abrangente, necessita relevar figuras esquecidas como a de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879). Primeiro profissional da caricatura, ele foi bem mais do que desenhista nos jornais. Escritor, historiador da música, cenógrafo, jornalista, diplomata e agitador cultural, esse discípulo querido de Jean-Baptiste Debret teve a marca de atuação ampliada, como detalham uma exposição e um livro patrocinados pelo Instituto Moreira Salles.

Pode-se colocar o “homem-tudo”, segundo a definição de Max Fleiuss, no mesmo âmbito de Ismael Nery e Flávio de Carvalho, para quem o exercício artístico era mais importante que seus desdobramentos e a arte, um meio mais do que um resultado, como escreve a pesquisadora Leticia Squeff em Araújo Porto-Alegre: Singular & Plural. A curadora Julia Kovensky explica que a exposição de título homônimo é feita de “indícios, pistas e sinais”, porque os fazeres do autor em papéis dispersos ainda requerem análise e recolhimento.

Além de cinco dezenas de aquarelas, esboços, desenhos feitos a grafite e nanquim, a mostra reúne textos, poemas e projetos de arquitetura e cenografia, nos quais está descrita a vocação intelectual de Porto-Alegre, alguém que não somente promoveu artistas e outros modos de criar como estabeleceu instituições de cultura à moda da Academia Imperial de Belas Artes.

Nascido na gaúcha Rio Pardo, ele perseguia o Brasil real nas artes plásticas. Ironizado por quem defendia o ateliê entre quatro paredes, fez seus discípulos irem à floresta para reproduzir com exatidão a paisagem. E, mais que isso, enquanto a produção de arte, que implicava preparar tintas e telas, manipular pedras e gravar, era relegada pela elite branca aos escravos negros, Porto-Alegre lutou para convencer os artistas de que seu ofício manual poderia ser tudo, menos degradante.

Araújo Porto-Alegre: Singular & Plural
Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, até 13 de abril

Araújo Porto-Alegre: Singular & Plural
Julia Kovensky e Leticia Squeff (org.)
IMS, 368 págs., R$ 149,90

registrado em: exposição