Tudo indica que vai haver mais greves em 2021, diz presidente da Força Sindical

Em entrevista a CartaCapital, Miguel Torres avaliou o saldo das mobilizações em 2020 e traçou perspectivas para o próximo ano

O presidente da Força Sindical, Miguel Torres. Foto: Reprodução/YouTube

O presidente da Força Sindical, Miguel Torres. Foto: Reprodução/YouTube

Política

Greves ocorridas em 2020, como a do Sistema Petrobras e a dos Correios, aumentam expectativas para a organização de novas mobilizações em 2021 – apesar de um cenário de intimidação contra os trabalhadores formalizados. Essa é a avaliação de Miguel Torres, presidente da Força Sindical, a segunda maior central sindical brasileira, atrás apenas da CUT.

Terceiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, 2021 aquece as turbinas para as eleições ao Palácio do Planalto e impõe aos movimentos sociais a tarefa de se aproximar da população. Parte desse processo, as centrais sindicais devem se reunir em janeiro para discutir pautas de luta dos 12 meses seguintes. Segundo Torres, as reivindicações prioritárias dirão respeito ao acesso universal da vacina contra a Covid-19 e à continuidade do auxílio emergencial de 600 reais.

A longo prazo, o ano pode ser crucial para a consolidar a unidade entre os sindicatos numa frente ampla para 2022, mesmo sob divergências históricas. As centrais vêm aparecendo em ações conjuntas desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, mas só depois de dois anos de governo Bolsonaro resolveram cimentar essa relação, lançando uma instituição que une essas organizações: a IndustriALL Brasil. Juntas, a Força Sindical e a CUT pretendem reunir 37,8 milhões de trabalhadores na base e 5,7 mil sindicatos, com representações em seis categorias.

“O papel decisivo do movimento sindical para 2022 é ter unidade em candidaturas de deputados federais e estaduais. Onde não dá para ser da CUT, que seja da Força; onde não dá para ser da Força, que seja da UGT [União Geral dos Trabalhadores]. E façamos um mandato coletivo das centrais sindicais onde der, estou levando essa ideia”, diz Torres.

Com as eleições para a Câmara dos Deputados à vista, em 1º de fevereiro, Torres não admite candidato favorito. A disputa está dividida entre o bloco de Rodrigo Maia e o nome indicado por Bolsonaro, Arthur Lira , do PP. Lira conta com o apoio do partido Solidariedade, presidido pelo deputado Paulinho da Força, maior figura da Força Sindical.

“Eu não sou do Solidariedade. Hoje, eu sou sem partido”, diz Torres, afastando-se da postura do partido em relação a Lira. “Nesse momento, eu não posso falar que [minha preferência] é de um ou de outro. Tenho muita simpatia pelo Arthur Lira sim. Nós já conversamos muito, diversas vezes. Eu não sei se ele vai ser 100% governo Bolsonaro.”

Confira, a seguir, a entrevista completa.

 

CartaCapital: Quais as maiores derrotas para os trabalhadores no governo Bolsonaro?

MT: A pior derrota para os trabalhadores é a falta de diálogo. É um governo que nunca conversou com o movimento sindical. No dia 2 de janeiro de 2018, as centrais sindicais enviaram uma carta a ele [presidente Jair Bolsonaro], pedindo audiência, abertas ao diálogo. Depois de muita reclamação, nos respondeu depois de três ou quatro meses. Disse que não havia respondido porque não tinha a assinatura dos presidentes [das centrais sindicais]. Aí nós reenviamos com todas as assinaturas. Mesmo assim, não tivemos diálogo.

 

Não teve nenhum diálogo até agora com o governo. O que tem são conversas com partes do Congresso e do Judiciário.

 

Mais recentemente, com a Medida Provisória 936, Ele [Bolsonaro] tirou os sindicatos das negociações. Imagina você, sozinho, negociar uma redução de jornada com o seu patrão? Não é negociação, é imposição.

A situação dos trabalhadores hoje é de uma incerteza muito grande. Quem tem carteira assinada não forma a maioria da mão de obra ativa. Hoje, essa maioria está na informalidade. E aqueles que estão registrados têm muita insegurança, porque as crises não têm um horizonte. Você vê grandes empresas fazendo PDVs [Planos de Demissão Voluntária]. Há todo um processo que deixa os trabalhadores muito preocupados.

 

 

CC: Houve grandes greves em 2020, como na Petrobras e nos Correios. Qual foi o saldo?

MT: Foi uma mobilização importante. A derrota seria muito maior. Agora, o que teve em jogo aí é que o próprio Supremo Tribunal Federal autorizou a quebra de contrato, como no exemplo dos Correios [o STF suspendeu o acordo coletivo em 21 de agosto, e a decisão motivou intensificação da greve dos Correios. Veja o que sobrou para os trabalhadores depois da greve].

Os funcionários tinham uma convenção coletiva, negociada por dois anos, mediada pelo Tribunal Superior do Trabalho. Depois de um ano, o governo não quis cumprir mais. Aí vai para o Supremo, que valida a proposta de suspender a convenção coletiva. Foi gravíssimo, é um sinal para o futuro. Por isso, estamos levando ao Supremo essas preocupações. Os sindicatos têm a autoridade de fazer acordos coletivos de um ou dois anos – quando faz, uma das partes não cumpre, e o Supremo chancela a parte mais forte. É muito preocupante, mas tenho que parabenizar os companheiros dos Correios e da Petrobras, lógico.

Tivemos também uma greve muito importante na indústria, com os trabalhadores da Renault em Curitiba. A empresa ia demitir em torno de 700 trabalhadores, chamou uma negociação, não houve acordo, ela nem esperou o sindicato sair da fábrica e já mandou mais de 700 embora. Teve uma mobilização super importante que fez a empresa rever a situação, com mais de uma semana de greve.

Estamos em um processo de intimidação. Esse processo deixa os trabalhadores muito receosos. O que eu tenho a ressaltar é a coragem de resistir a situações adversas nesses três casos. Isso faz parte do movimento sindical. Talvez não se chegue ao objetivo total, mas você ganha na organização, prepara-se para novas lutas. Nesse sentido, foi muito favorável. Temos que apoiar e ficar atentos, porque tudo indica que vai ter mais greves no ano que vem, para barrar algumas coisas.

 

CC: Quais devem ser as principais reivindicações em 2021?

MT: Termos vacina contra a Covid-19 para todos. É uma campanha que fazemos neste fim de ano, exigindo que a vacinação tenha um programa nacional, que atinja a toda a população, sem restrição. Também queremos a vacina social, que é a continuidade do auxílio emergencial até pelo menos o fim da pandemia. Estamos vendo o que vai acontecer no começo do ano, não é preciso ter bola de cristal: acabam os programas de proteção ao emprego e à renda, acaba o auxílio emergencial, aumenta o desemprego, a inflação sobe, e vamos iniciar o ano com os trabalhadores informais e desempregados em uma situação muito difícil. Sem a vacina social, a economia vai sofrer um retrocesso muito grande, as pessoas não compram, o comércio não vende, as empresas quebram e não compram da indústria, e vira uma bola de neve.

Essas são as duas principais bandeiras. Mas tem outras coisas. Temos uma campanha permanente pela defesa da democracia.

E queremos um plano governamental de auxílio às grandes e pequenas empresas para que elas possam enfrentar essa crise. O exemplo está vindo dos outros países. Nos últimos dias, os Estados Unidos anunciaram um pacotaço para ajudar o pequeno empresário. Até os trabalhadores que pagam aluguel vão ter um auxílio. Se não protegermos a economia, não sairemos da crise. Já tivemos a experiência em outras crises de que, se não houver incentivo, a economia não retoma.

Em tudo isso, há uma unidade no movimento sindical. Quando estou falando aqui, é a posição da Força Sindical, CUT, UGT, CTB, Nova Central, de todas as centrais.

 

CC: A Força Sindical já tem um calendário de ações para o ano que vem?

MT: Ainda não tem. Nós teremos uma reunião da direção nacional no meio de janeiro para nos pautarmos e termos informações de cada estado. Além disso, as centrais estão se programando para, até o fim de janeiro, terem uma reunião que defina as pautas de ação para o ano que vem. Mas sabemos o que virá. A crise vai se aprofundar, e vamos trabalhar para enfrentá-la com unidade de ação.

 

CC: A Força Sindical e a CUT se juntaram para fundar a IndustriALL Brasil neste ano. Não foi tarde demais? Qual a perspectiva para essa iniciativa?

Miguel Torres: Eu acho que, lógico, você tem razão, essa união devia ter acontecido antes, talvez há dois ou três anos, até mais ainda, mas não foi possível…

 

CC: Não foi possível por quê?

Miguel Torres: Calendários que cada central tinha. Não foi um problema político, foi mais de calendários que não se entenderam. Mesmo sendo tarde, eu acho que veio em uma hora importante. A IndustriALL mundial unificou os setores da indústria metalúrgica, química, de vestuário e de calçados. No Brasil, ela começa com esse eixo, mas está trazendo como convidados outros setores da indústria, como a da construção e dos eletricitários. Vamos trazer outras centrais que não estão filiadas à IndustriALL, mas aqui no Brasil podemos ter um entendimento dentro dessa organização.

A ideia é fortalecer o setor. A nível mundial, principalmente nas grandes empresas, já temos redes de trabalhadores que discutem a empresa no mundo inteiro. Trazendo essa unificação no Brasil, poderemos fortalecer esse segmento e ter mais informações com a chancela da IndustriALL. Isso é muito importante, pela maneira que a gente se prepara para enfrentar um mundo globalizado. Vem aí a revolução 4.0, e precisamos disso para termos propostas para o futuro.

 

CC: Sobre as eleições de 2022, o senhor acha que há mais preocupação com candidaturas do que com as bases?

Miguel Torres: Não. Eu acho que estamos aprendendo a ver, nesse momento, a necessidade de termos força no Parlamento. Não adianta elegermos um presidente, um governador, um prefeito, se você não tem força no Legislativo para enfrentar os desafios ali dentro.

Vou dar um exemplo claro: na reforma trabalhista de 2016, não tivemos mais de 120 votos na Câmara dos Deputados. Fizemos greves, passeatas, e não conseguimos. Isso mostra que o movimento precisa participar mais ativamente da vida política, porque, na porta das empresas e dos locais de trabalho, o movimento sindical enfrenta diariamente as situações que o trabalhador traz, como nas campanhas salariais. Nas campanhas salariais deste ano, mais de 95% tiveram, minimamente, o reajuste pela inflação. Conseguimos manter cláusulas sociais, que é outra guerra. Só que as leis, quando têm que ser feitas ou derrubadas, a discussão é no Congresso. E aí nós ficamos sempre reféns para avançarmos.

 

Quando avançamos, é com acordos.

 

Na Medida Provisória 936, o relator foi o Orlando Silva [deputado federal pelo PCdoB-SP], um sindicalista. Ele conduziu uma negociação para voltarmos com as homologações nos sindicatos, pelo menos na pandemia. Você imagina, nessa crise, como são feitas as homologações e as rescisões de contrato? Foi feito um acordo com líderes de partidos e bancadas no Senado e na Câmara. Feito o acordo, fomos para a votação e perdemos! Então, nós temos que aumentar a representação. O papel decisivo para o movimento sindical para 2022 é ter unidade em candidaturas de deputados federais e estaduais.

Onde não dá para ser da CUT, que seja da Força; onde não dá para ser da Força, que seja da UGT. E façamos um mandato coletivo das centrais sindicais onde der, estou levando essa ideia. Vamos fazer uma campanha para eleger mais de 150 deputados pelo Brasil! É uma maneira de termos força no Congresso, porque passa por lá. Lá se faz o bem e o mal, não só na legislação trabalhista, mas no meio ambiente, na política econômica.

E o candidato a presidente vai ser aquele que mais se alinhar com essa proposta. Pode ser o Ciro, pode ser o Dino, pode ser o Lula? Não sei. Agora, tem que se alinhar no mínimo possível para a gente ter uma bancada forte nos estados e em Brasília.

 

CC: Nas eleições da Câmara, o candidato de Bolsonaro, Arthur Lira, tem o apoio do Solidariedade. A vitória dele traria um cenário melhor para os trabalhadores?

Miguel Torres: Olha, eu não posso garantir isso. Deixando claro aqui, eu não sou do Solidariedade. Hoje, eu sou sem partido, já faz três ou quatro anos. Mas eu posso falar, porque o movimento sindical conversou com o Arthur Lira e com o Rodrigo Maia. O Maia nós já conhecemos. Já sabemos, temos acesso a ele. Então, nesse momento, é difícil se posicionar, porque nós vamos precisar negociar com qualquer um dos dois: ou com o candidato de preferência do Maia, se vier a ganhar, ou com o Arthur Lira.

Com o Arthur Lira, já fizemos muitas conversas, já levamos propostas. Durante todo esse ano, tivemos várias conversas com ele, como tivemos diversas vezes também com o Rodrigo Maia. Agora, a nossa pauta tem que avançar. E é nesse avanço que a gente vai construir alguma coisa. Nós estamos trabalhando a PEC 196, que faz um novo movimento sindical, atualiza e moderniza. Do jeito que está hoje, você não tem fortalecimento do movimento sindical. Temos 12 mil sindicatos laborais e sete mil patronais. Essa nova legislação pela 196 é uma discussão sobre uma nova realidade. Já passou pela Comissão de Constituição e Justiça, e quem quer que venha a ser o presidente da Câmara, nós vamos ter que falar com ele para votarmos e ganhar os deputados.

 

CC: Mas, assim como o partido Solidariedade, a preferência do senhor é pelo deputado Arthur Lira?

Miguel Torres: Nesse momento, eu não posso falar que é de um ou de outro. Tenho muita simpatia pelo Arthur Lira sim, nesse momento de conversas. Sobre conhecer a vida política dele, não vou falar, porque não conheço muito não. Mas, pelas conversas que nós tivemos antes da candidatura dele, porque eu não conversei com ele depois da candidatura, ele se pôs à disposição para ajudar nessa questão dentro do Congresso – como o Rodrigo Maia também se pôs à disposição, e fez passar pela CCJ.

 

CC: Mas o senhor se queixou de que o governo Bolsonaro não tem dialogado com os sindicatos. Não é uma contradição dizer que o candidato de Bolsonaro dialogaria com vocês?

Miguel Torres: Eu acho que são coisas distintas. Nós já conversamos com o Arthur Lira muito antes de ele ser indicado como candidato a presidente da Casa. Nós já conversamos muito, diversas vezes. Estivemos em Brasília, no ano passado, muitas vezes. Neste ano mesmo, com a pandemia, estivemos não só com ele, mas com praticamente todos os líderes de partidos, levando a pauta sindical.

E eu não sei se ele vai ser essa questão 100%  governo Bolsonaro. Você sabe como que funcionam os poderes. Então, tem muita coisa que pode rolar por debaixo dessa ponte.

 

CC: O senhor acha que o governo Bolsonaro pode não exercer tanto poder sobre Arthur Lira?

Miguel Torres: Eu acho que ele não vai exercer tanto, até porque o Arthur Lira, ou quem ganhar a Presidência, tem também que representar os deputados. Tem o pleito dos deputados. Tem 513 deputados que fazem parte da vida da Câmara dos Deputados e da vida do presidente. Então, vai ter as negociações que sempre houve. Não é uma novidade.

 

CC: Sobre as eleições presidenciais de 2022, qual seria o melhor cenário? E qual é o melhor nome?

Miguel Torre: Hoje eu diria, sem medo de errar, seria o Lula ter os seus direitos restituídos, e ele seria a melhor pessoa. O outro seria uma unidade de centro-esquerda para poder ter um candidato. Aí eu te falei: estão nessa órbita o Dino, o Ciro. Mas o ideal para a população seria o Lula, se tiver condições.

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Repórter do site de CartaCapital

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