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Todo poder emana das redes

Política

Estupefato com a falta de habilidade e noção de Paulo Guedes no primeiro encontro que manteve com o futuro ministro da Economia, o senador Eunício Oliveira (MDB-CE) adiantou aquilo que se verifica agora com clareza transparente: “Esse povo que vem aí não é da política, é da rede social”.

O cientista político Miguel Lago foi o primeiro a cravar que estávamos a eleger um “youtuber” presidente. “Durante décadas, Bolsonaro teve atividade legislativa medíocre e não tem nenhuma proposta séria de política pública. Mas é o rei da opinião: tudo diz, sobre tudo, mesmo que nada tenha feito. Mascara suas declarações racistas, homofóbicas e sexistas com um suposto humor que incentiva o compartilhamento”, escreveu. “Bolsonaro é tosco, e isso contribui para que pessoas o achem engraçado. É um ativo youtuber, talvez o mais bem-sucedido do Brasil.”

Durante a campanha, o youtuber tosco abrigou-se no mundo virtual, recusando-se a descer à realidade. Não participou dos debates, preferiu os “entrevistadores” amigos. Graças à facada, saiu das ruas. Ficou no Twitter e elegeu-se com uma estratégia refinada de divulgação de notícias falsas impulsionadas ilegalmente no Whatsapp, como mostrou reportagem de Patrícia Campos Mello na Folha de S. Paulo.

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Presidente eleito, recusa-se a sair do internético palanque que lhe deu a alcunha de “Mito” – expressão adolescente aplicada aos que são capazes de alguma “mitagem”, a “lacração” que confere aqueles oclinhos acompanhados de trilha sonora a quem se destaca na internet com alguma macaquice.

A exemplo do comentarista de portal, o presidente eleito diz o que diz sem qualquer propriedade, sem medir qualquer consequência. É incapaz de aprofundar-se além dos 280 caracteres, mas tem a contundência de um Hitler no Terceiro Reich.

Resultado: o Egito cancelou encontro com uma comitiva do governo brasileiro, os médicos cubanos espanaram, a França ameaça barrar a discussão sobre um acordo comercial. E estamos em dezembro de 2018. Redes sociais têm inúmeras potencialidades, mas governar um país não parece ser uma delas.

Ainda assim, o primeiro youtuber a se tornar presidente segue a contemplar os pares de sua bolha. O colombiano Ricardo Vélez Rodríguez foi escolhido ministro da Educação (também ou exclusivamente) por causa de seu blog, em especial o post “Um roteiro para o MEC”, conjunto de sandices em que brotam os habituais moinhos de vento da ameaça comunista.

A indicação de Vélez foi feita pelo “filósofo” Olavo de Carvalho, o Napoleão de hospício do bolsonarismo. Ele também um blogueiro e youtuber, mais frequente no Facebook do que Mark Zuckerberg.

Ainda que tenha lançado livros que se tornaram sucessos de venda, credite a existência de Olavo às redes sociais, adequadas ao seu discurso agressivo, repletos das palavras de sua preferência, a saber, “cu”, “porra” e “caralho”.

Olavo indicou também o chanceler Ernesto Araújo. Claro, blogueiro. Mais: é, de fato, o comentarista de portal que chegou lá. Quem contou essa história foi Daniel Cassol, do antigo blog de futebol Impedimento, hoje transformado em um perfil no Twitter.

“Alguns comentaristas do Impedimento marcaram época”, escreveu em sua conta pessoal no Twitter. “FERN, o baiano que nunca pisara no Rio Grande do Sul, era gremista fanático e defendia a criação da Liga Pampa, com RS e Uruguai. Gui Hoch, moleque que comentava durante o trabalho e foi repreendido pela chefe nos próprios comentários.”

“A comunidade de leitores ganhou rostos, muitos se conheceram e criamos até um campeonato de futebol. Mas um dos comentaristas mais afamados nunca teve rosto. Seu nome: Ernesto.”

“Colorado de ideias polêmicas, do tipo detestar D’Alessandro, Ernesto era inicialmente brizolista mas veio com uns papos mais conservadores na reta final do blog. Ninguém até hoje conheceu Ernesto pessoalmente. Ao contrário de FERN e outros, ele não tem rosto. Ou talvez tenha.”

A suspeita de que Ernesto era Ernesto veio de um post de Juca Kfouri. “Ernesto, gaúcho, colorado e com um texto meio agressivo”, matutou Cassol. “A descrição batia”. Um outro conhecedor do Impedimento vaticinou: “O padrão de linguagem é o mesmo”.

“Alguém lembrou que seria estranho o Ernesto aderir ao bolsonarismo, porque professava ser brizolista. Mas o fato é que ele tinha umas ideias peculiares. Era, digamos, difícil de catalogar ideologicamente. E rolou essa inflexão ao passar dos anos.”

Uma reportagem do site Nexo revelou a Cassol coincidências em série: “Além de gaúchos, colorados, comentaristas de blogs e com um estilo de texto parecidos, os dois Ernestos também saltaram do lulismo para o terraplanismo em questão de anos.”

A bem da verdade, Cassol cometeu depois uma errata: “Dei uma floreada no causo. Lulista acho que ele nunca foi. Mas lembro nitidamente de uns papos desenvolvimentistas e um flerte com o brizolismo”.

De qualquer maneira, “há muitas evidências, portanto, de que o Ernesto, o nosso Ernesto, que batia ponto na caixa de comentários do Impedimento com umas ideias controversas na política e no futebol, seja o futuro chanceler do Brasil. Evidências que só @ernestofaraujo pode confirmar”.

Enquanto este repórter aguarda um posicionamento oficial de Ernesto, passeia pelos comentários aos posts do presidente youtuber. Sente-se como o único são em passeio ao sanatório. Ou o contrário: quando acabar, o maluco sou eu. Toca Raul!

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Editor-executivo online de CartaCapital, correspondente das Notícias do Hospício e apresentador da série O Infiltrado (History).

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