Renan Bolsonaro, uma celebridade ascendente na política

A imagem do 04 transita entre o 'pegador do condomínio' e o 'moleque humilde'; sociólogo vê semelhanças com as estratégias do pai

Jair Renan Bolsonaro, em vídeo do canal 'Em busca do shape inexplicável', gerenciado pelo influenciador Tiago Toguro. Foto: Reprodução

Jair Renan Bolsonaro, em vídeo do canal 'Em busca do shape inexplicável', gerenciado pelo influenciador Tiago Toguro. Foto: Reprodução

Política

Naquele fatídico 24 de abril de 2020, quando Sergio Moro deixou o governo, o presidente Jair Bolsonaro quis rebater a suspeita de que seu filho Renan, hoje com 23 anos, teria namorado a filha de Ronnie Lessa, suspeito de matar Marielle Franco. Bolsonaro disse que interrogou o “04” e ouviu: “Pai, eu saí com metade do condomínio, nem lembro quem é essa menina”. Viralizava, assim, com mais força, o famoso meme do “pegador do condomínio” – um ano antes, Bolsonaro já havia dito que seu filho namorou “todo mundo” do Vivendas da Barra.

 

 

“Prefiro morrer transando do que tossindo” foi outra declaração de Renan Bolsonaro que virou notícia, após a suspensão de seu perfil na rede social Twitch, em maio de 2020. No mesmo discurso, o jovem negava a existência da pandemia. De lá até aqui, sua popularidade nas manchetes só aumentou: agora, seu nome é ligado inclusive a suspeitas de tráfico de influência, prática investigada pela Polícia Federal.

Já eram notórias, na verdade, as citações de Renan no noticiário político. O que há de novidade, porém, é que o seu rosto passou a estampar canais de fofocas. Como uma verdadeira celebridade.

Recentemente, seu jeito de se vestir foi comparado ao de um personagem que faz aquele gênero meio “popular da escola”, mas com um quê de refinamento, de um conhecido seriado americano.

Gossip Girl BR? Longe da política, Renan segue a linha Chuck Bass e vira crush da web”, destacou, em junho, o portal Notícias da TV, que o descreveu como “filho de pessoas poderosas, dono de um estilo próprio e carregado de posicionamentos fortes”.

No Instagram, em 23 de junho, uma página com 234 mil seguidores chamada Fofotriquei perguntou: “Renan Bolsonaro exibe novo corte de cabelo nas redes e gera opiniões. O que acharam?” – ao lado, inseriu hasthtags como #fofocadosfamosos, #babado e #celebridade. Notícia Diária, com 147 mil seguidores, também anunciou o novo visual: “Repaginado!”, exclama a legenda.

 

O presidente Jair Bolsonaro e o filho Jair Renan Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

 

Renan Bolsonaro rechaça suspeitas de que esteja pagando perfis de fofoca para aparecer na mídia. Ao podcast Dezandacast, na quinta-feira 7, disse que uma equipe ligada à sua empresa está, há um mês, mobilizada para torná-lo um influencer. “Nada me para agora, vocês vão ter que me aturar.”

Pagando ou não, é fato que ele atrai uma horda de curiosos e admiradores nas redes sociais. No Instagram, onde soma 482 mil seguidores, ele responde a curiosidades de fãs. Solteiro? “Se perguntar por mim não me viu, tenho três estado civil”, responde, com referência a uma música de Wesley Safadão. Como lida com os haters? “Os haters sempre tentam me cancelar, mas eu tô foda-se cancelamento, então, eu não lido com eles, eu rio deles.”

É marcante nas postagens de Renan Bolsonaro a reafirmação da masculinidade. Num story em uma churrascaria no Rio Grande do Sul, ironizou a entrevista em que Eduardo Leite (PSDB) se assumiu gay. “Vim aqui homenagear a gauchada, depois da entrevista aí do governador deles, vim comer a carne gaúcha. Tamo junto, hein, gauchada? Não daquele jeito, mas estamos juntos.”

A tendência se mantém no TikTok, a popularíssima rede chinesa de vídeos curtos, onde o 04 tem cerca de 350 mil seguidores. São quase meio milhão de curtidas num vídeo viral do mês passado. Foi no TikTok que, meses atrás, espalharam um vídeo em que Renan assiste a uma estrela do aplicativo, Gabriela Nery, dançar na sua frente.

 

No seu canal no YouTube, Renan publicava vídeos sobre jogos virtuais e fez até uma entrevista. Mas já faz algum tempo.

Há dias, tem crescido a presença de Renan nos canais do universo do bodybuilding. Os perfis Em busca do shape inexplicável e Mansão Maromba, gerenciados pelo youtuber Tiago Toguro, somam cerca de 7 milhões de inscritos, com narrativas bem-humoradas e, por vezes, picantes. O filho do presidente protagonizou, em junho, vídeos intitulados Renan Bolsonaro viu os peitos da japa nordestina, A novata deu em cima do Bolsonaro Jr., Elas brigaram pelo Bolsonaro Jr.Nordestina botou pressão neleentre outras histórias que reúnem centenas de milhares de visualizações.

Renan se consolida como um elo entre a família Bolsonaro e um público que não necessariamente encontrou sua posição ideológica, mas se identifica com ele como pessoa

O canal conta situações em torno de 10 minutos sob um formato de reality show. Ali tem sido um espaço em que Renan explora nuances da sua imagem. No vídeo em que vê os seios de uma moça (20 de junho), com mais de 300 mil visualizações, o clima de flerte está presente, mas não é só isso. Já no início, Toguro faz um relato amigável sobre o filho do presidente.

“O moleque é humildade. E eu vejo uma pá de gente aí metendo o fuzil no cara, julgando pelos atos do pai.” Em seguida, outro depoente também diz que Renan é humilde. “Gostei dele mesmo, de verdade. Gente boa, na praia, brincando, parecendo duas crianças.”

No episódio Ele nunca viveu isso (21 de junho), com 260 mil visualizações, Renan começa passando protetor solar no corpo de uma moça na praia do Nordeste. Minutos depois, está em cima de um quadriciclo com outras duas mulheres na garupa e um largo sorriso no rosto. Diz Toguro, no meio do vídeo: “É um moleque puro, tá curtindo demais. Ele nunca teve o que a gente está proporcionando para ele”. E celebra: “Caraca, o filho do presidente teoricamente está solto com a gente. É uma parada histórica no canal.”

O tom é ainda mais delicado em Ele nunca tinha empinado pipa (25 de junho), com 210 mil visualizações. Renan aparece entre crianças e adolescentes no terraço de um prédio em uma quebrada e admite que não sabe soltar pipa. “Nunca ninguém me ensinou a empinar.” Em seguida, Toguro pede que um jovem ensine Renan a soltar pipa, enquanto crianças brincam no entorno com uma bola de futebol.

Nos comentários, uma série de internautas comentam sobre a personalidade gentil de Renan. “O moleque é maior gente boa, e a turma querendo cancelar ele por conta do pai”, escreve um usuário. Outro espectador afirma: “Renan é muito gente fina, moleque do bem. Ouso dizer que foi um dos cara mais gente boa que já circulou pelo canal.”

 

Renan Bolsonaro aprende a soltar pipa em vídeo com milhares de visualizações. Foto: Reprodução

 

Renan segue o caminho da celebrização do pai?

Publicamente, Renan nunca confirmou intenções de preparar terreno para disputar um cargo político. No fim do ano passado, em resposta a um seguidor, ele declarou que “talvez” será político. Também esteve entre os quadros do fracassado Aliança pelo Brasil, partido de Bolsonaro que não decolou a tempo da eleição de 2022. Segundo o banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral, Renan segue filiado no Partido Social Cristão, o PSC, antiga legenda do pai.

Mesmo que venha a ser candidato, Renan não será o primeiro a misturar o capital político com a aura de uma celebridade. O que dizer, por exemplo, de figuras como Ronald Reagan, ator de Hollywood que virou presidente dos Estados Unidos? Arnold Schwarzenegger, o exterminador do futuro que se tornou governador da Califórnia? E Donald Trump, que apresentava um programa de televisão e chefiou a Casa Branca? Há muito tempo, os dois campos estão imbricados, sobretudo no Ocidente.

Mas aqui estamos falando de um determinado tipo de celebridade na política: a que abre a sua intimidade, quer parecer gente como a gente. Esse modo de se comunicar marcou a campanha de Bolsonaro e pode estar servindo de inspiração ao filho “04”.

 

 

O sociólogo João Kamradt investigou elementos de celebrização nas campanhas digitais dos 14 candidatos à Presidência da República na eleição de 2018. Em sua tese, concluiu que Bolsonaro usou suas redes de uma forma muito hábil e acabou vitorioso — é claro, em uma conjuntura que envolve diversos fatores, mas com menos de 10 segundos na televisão.

Após 160 postagens analisadas no Facebook e no Instagram, Kamradt descreveu Bolsonaro como um “político celebridade do cotidiano”, um termo da literatura britânica estabelecido em 2016 pelos autores Matthew Wood, Jack Corbett e Matthew Flinders. São aqueles políticos que cultivam uma personalidade popular, parecem “humanos”. Entre os políticos que já adotaram essa postura, cita a pesquisa, estaria o ex-primeiro-ministro inglês David Cameron.

As postagens de Bolsonaro focaram na “espontaneidade planejada”, por meio de sucessivos vídeos e lives improvisadas, em tom caseiro, cheias de críticas aos adversários e propostas de solução de fácil entendimento. Por vezes, ele apareceu com roupas informais, em ambientes bagunçados, acompanhado da família. As postagens vêm acompanhadas, em geral, de legendas de tom pessoal, sem uso de hashtags. Construiu, assim, a imagem de um indivíduo falho, mas com autenticidade e transmissão de sinceridade, sabendo conciliar um espírito heroico a uma figura próxima do eleitor.

 

 

Não foi o caso de adversários da esquerda, como Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), e da direita, como João Amoêdo (Novo) e Geraldo Alckmin (PSDB), diz o estudo de Kamradt.

Haddad ficou categorizado como o “político celebridade superstar“, o candidato que exibe fortes traços de liderança. Diferente da tentativa de Bolsonaro de se apresentar como alguém comum e alheio ao sistema político, a construção da imagem de Haddad celebrizava um candidato decidido, com capacidade de comando. Por vezes, emulou aquela imagem de Lula, surgindo como um pai de eleitores menos favorecidos, com vídeos que o mostram sendo tocado pela população e cartazes em poses gloriosas. O petista teve o maior número de postagens no Facebook (401), bem acima do que Bolsonaro utilizou. Além disso, 71,8% vieram com textos impessoais, com uso do nome do candidato em 3ª pessoa, hashtags e assinaturas da assessoria.

Outro entendimento foi aplicado a Ciro Gomes, o de “político celebridade endossado”, porque teria se esforçado mais em associar sua imagem à de pessoas já famosas, encurtando a distância com eleitor. Foi o candidato que mais de valeu do uso de famosos na sua campanha (9,8%). Em 56% do conteúdo, ele é o único personagem a ocupar o vídeo ou a imagem postada, com legendas majoritariamente impessoais.

 

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Foto: Reprodução

 

No caso específico de Renan, seu potencial midiático foi percebido pela família Bolsonaro a partir da sua expulsão do Twitch, opina Kamradt. O filho “04” parece estar sendo associado ao status de “pegador”, a princípio, por ter sido a narrativa que o lançou em público, e em um segundo momento, de sensível, como um jovem que está iniciando na vida e que vem para suceder a vocação do pai. Ao se expor com certa vulnerabilidade e simplicidade, Renan se consolida como um elo entre o bolsonarismo e um público que não necessariamente encontrou sua posição ideológica, mas se identifica com ele como pessoa.

“Quando ele faz isso, não precisa demonstrar com clareza as suas habilidades naquilo que deveria ser o seu papel na política. Não precisa falar que tem um projeto de País, mas sim, se mostrar um rapaz com quem um guri de 20 anos ficaria feliz em jogar uma partida de Counter Strike“, diz o doutor em Sociologia e Ciência Política pela UFSC.

Para o pesquisador, faltam para a esquerda atores que pareçam íntimos aos públicos atingidos por Renan, especialmente o dos gamers e, num plano mais geral, os jovens que ainda não participam do processo eleitoral. Na ditadura das redes sociais, avalia ele, um político não deve se apresentar apenas como bom gestor, mas transmitir mais sinais emocionais e aspectos de fragilidade.

As iniciativas vistas até agora são bem tímidas. O caso da CPI da Pandemia teve alguns exemplos, como o vídeo do TikTok em que o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), aparece animado com a sua preparação antes do depoimento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Ao som eletrônico da dinamarquesa Ida Corr, Randolfe toma um café, veste uma máscara, anda de carro, chega ao Congresso e mede sua temperatura. Sua conta, com 36 mil seguidores, tem montagens com desenhos da Disney, piadas com a CPI e trilhas sonoras divertidas.

Se os resultados eleitorais dos próximos anos dependerem ainda mais do sucesso nas redes sociais, o campo progressista deve apurar esforços na comunicação. E a perspectiva parece ser essa. Segundo estudo do Instituto DataSenado, divulgado em 2019, 45% dos eleitores de 2018 afirmaram ter decidido o voto levando em consideração informações vistas em alguma rede social. Na faixa dos 16 a 29 anos, o percentual sobe para 51%, com especial posição para o Instagram e o YouTube.

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Repórter do site de CartaCapital

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