Política

Quem é o militar do Exército que teria levado Delgatti ao Ministério da Defesa

O nome de Marcelo Câmara, assessor de confiança de Bolsonaro, passou a ganhar mais força no noticiário neste ano

O hacker Walter Delgatti. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado/AFP
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O hacker Walter Delgatti relatou nesta quinta-feira 17, em depoimento à CPMI do 8 de Janeiro, ter se reunido no Palácio da Alvorada com o então presidente Jair Bolsonaro em 10 de agosto de 2022. Estavam presentes, também, a deputada Carla Zambelli (PL-SP), o tenente-coronel Mauro Cid e o coronel do Exército Marcelo Câmara, ambos auxiliares do ex-capitão.

Esse café da manhã teria ocorrido após dois encontros com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e com o publicitário Duda Lima, responsável pela campanha de Bolsonaro à reeleição. Nessas agendas, segundo Delgatti, Lima teria sugerido a implantação de um “código malicioso” em uma urna eletrônica para gerar dúvida sobre a integridade do sistema entre eleitores.

Em nota, Duda Lima afirmou estar “indignado” com as acusações de Delgatti. “Se eu tiver um sósia, preciso conhecer. Nunca participei de reunião com Carla Zambelli e esse rapaz, nem com Valdemar”, declarou.

Naquele 10 de agosto, Bolsonaro teria reforçado o pedido e sugerido que Delgatti auxiliasse técnicos do Ministério da Defesa a apontar ao Tribunal Superior Eleitoral uma fragilidade nas urnas.

“Ele (Bolsonaro) me disse que eu estaria salvando o Brasil. Era a liberdade do povo em risco. Eu precisava ajudar ele a garantir a lisura das eleições. A conversa foi evoluindo, chegou à parte técnica, e o presidente disse: ‘Essa parte técnica não entendo nada. Então, eu irei enviá-lo ao Ministério da Defesa e lá com os técnicos você explica tudo isso’. Ele chama o general Marcelo Câmara e fala: ‘Eu preciso que você leve ele até o Ministério da Defesa’. Ele contrariou: ‘Não, mas lá é complicado’. E o Bolsonaro disse:’“Não, isso é uma ordem minha. Cumpra’. Eu fui levado até o Ministério da Defesa pela porta dos fundos”, disse o hacker nesta quinta.

Marcelo Câmara ocupou postos de assessoria da Presidência da República durante quase todo o período em que Bolsonaro esteve no Palácio do Planalto. Em 22 de fevereiro de 2019, começou seu vículo com o governo, no cargo de assessor especial do gabinete pessoal do presidente. Dali em diante, acumulou poder entre os auxiliares.

O nome do militar, no entanto, passou a ganhar mais força no noticiário neste ano. Há mais de cinquenta menções a Marcelo Câmara no relatório enviado pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal sobre um suposto esquema de desvio de presentes oficiais durante o governo Bolsonaro.

Câmara aparece, por exemplo, no diálogo que menciona a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Em um dos arquivos obtidos pela PF, o coronel conversa com Mauro Cid sobre o chamado Kit Ouro Rose, contendo itens da marca de luxo Chopard.

O relatório da PF aponta a tentativa de vender o conjunto. No documento, há um link para “página de um leilão, ao vivo, realizado exatamente no dia 8 de fevereiro de 2023″.

Em 13 de fevereiro de 2022, Marcelo Câmara enviou a Cid uma mensagem na qual afirma ter conversado com Marcelo da Silva Vieira, ex-chefe do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da Presidência da República.

No diálogo, Câmara se refere à possibilidade de vender objetos que teriam sido destinados ao acervo privado de Bolsonaro.

“Eu falei com ele sobre isso CID. Aí ele me falou que tem esse entendimento sim. Mas que o pessoal questiona porque ele pode dar, pode fazer o que ele quiser. Mas tem que lançar na comissão, memória, entendeu?”, disse Câmara.

Na sequência, após relatar a restrição para venda do kit, Marcelo Câmara emenda, com uma referência a Michelle Bolsonaro: “O que já foi, já foi. Mas se esse aqui tiver ainda a gente certinho pra não dar problema. Porque já sumiu um que foi com a DONA MICHELLE; então pra não ter problema”.

Em resposta a Câmara, Mauro Cid afirmou: “Eu já mandei voltar o, eu já mandei voltar!”, referindo-se ao Kit Ouro Rose colocado à venda em leilão.

Cid ainda questionou Câmara sobre a possibilidade de informar a “comissão memória” do governo e depois levar o kit novamente à venda. Marcelo Câmara discordou e respondeu: “Não vou informar nada. Eu prefiro não informar pra não gerar estresse entendeu? Já que não conseguiu vender, a gente guarda. E aí depois tenta vender em uma próxima oportunidade”.

Marcelo Câmara também está ligado a um áudio obtido pela PF que pode comprometer ainda mais a situação de Jair Bolsonaro. A mensagem em questão foi enviada ao coronel por Mauro Cid em 18 de janeiro deste ano.

Segundo a PF, as mensagens revelam “o objetivo de tentar vender as esculturas douradas e a existência de recursos em dólar, supostamente de propriedade de JAIR BOLSONARO, em posse do General MAURO LOURENA CID”.

Em um mesmo áudio, Cid menciona 25 mil dólares supostamente direcionados a Bolsonaro, tentativas de vender objetos folheados a ouro recebidos em viagem oficial ao Bahrein e tratativas para levar a leilão um kit de luxo enviado pela Arábia Saudita ao governo brasileiro.

“Tem vinte e cinco mil dólares com meu pai. Eu estava vendo o que, que era melhor fazer com esse dinheiro levar em ‘cash’ aí. Meu pai estava querendo inclusive ir ai falar com o presidente (…) E aí ele poderia levar. Entregaria em mãos. Mas também pode depositar na conta (…). Eu acho que quanto menos movimentação em conta, melhor ne? (…)”, diz a transcrição da PF.

Pouco depois, Câmara respondeu à dúvida de Cid sobre os 25 mil dólares. “Melhor trazer em cachê”, afirmou. Lacônico, Cid disse apenas: “Ok ciente”.

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