Política

‘Quem decide para onde vão as Forças são vocês’: PF lança luz sobre discurso de Bolsonaro após perder a eleição

Pronunciamento do então presidente ocorreu em meio ao desenvolvimento de uma trama golpista, segundo investigação

Jair Bolsonaro discursa para apoiadores em 9 de dezembro de 2022. Foto: Reprodução
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O então presidente Jair Bolsonaro (PL) quebrou o silêncio após a derrota para Lula (PT) e se dirigiu a apoiadores em 9 de dezembro de 2022, na entrada do Palácio da Alvorada, em meio a manifestações golpistas na frente de quartéis do Exército. Na ocasião, ele proferiu um discurso repleto de menções aos militares.

“Nada está perdido. O final, somente com a morte”, disse o ex-capitão. “Quem decide meu futuro, para onde eu vou, são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês.

Bolsonaro ainda declarou a seus seguidores que “uma de suas funções na Constituição é ser o chefe supremo das Forças Armadas” e que os militares seriam “o último obstáculo ao socialismo”.

A investigação da Polícia Federal que levou à operação da última quinta-feira 8 contra a tentativa de golpe de Estado em 2022 lança nova luz sobre o que ocorria nos bastidores à época daquele pronunciamento.

Dois dias antes, em 7 de dezembro, o então assessor Filipe Martins e Bolsonaro teriam apresentado aos comandantes das Forças Armadas uma minuta para decretar a prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e a realização de novas eleições. Dias antes, segundo a apuração da PF, o então presidente havia solicitado alterações no documento.

Em 9 de dezembro, dia em que se dirigiu a apoiadores, Bolsonaro também se encontrou com o general Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira, um dos alvos da operação da última quinta. De acordo com diálogos encontrados no celular do tenente-coronel Mauro Cid, Gaspar de Oliveira consentiu naquela reunião com a adesão ao golpe, desde que o presidente assinasse a medida.

“Nesse sentido, além de [Gaspar de Oliveira] ser o responsável operacional pelo emprego da tropa caso a medida
de intervenção se concretizasse, os elementos indiciários já reunidos apontam que caberiam às Forças Especiais do Exército (os chamados kids pretos) a missão de efetuar a prisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes assim que o decreto presidencial fosse assinado”, anotou a PF.

Naquele mesmo 9 de dezembro, Cid enviou mensagens de áudio ao então comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, dizendo que Bolsonaro “tem recebido várias pressões para tomar uma medida mais, mais pesada onde ele vai, obviamente, utilizando as Forças”.

Na sequência, Mauro Cid afirmou, conforme a transcrição da PF: “É hoje o que ele fez hoje de manhã? Ele enxugou o decreto né? Aqueles considerandos que o senhor viu e enxugou o decreto, fez um decreto muito mais, é, resumido, né?”.

Dias depois, o entorno de Bolsonaro intensificaria a ofensiva contra comandantes militares que não aceitaram embarcar na conspiração golpista.

O general da reserva Walter Braga Netto (PL), candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro em 2022, disparou contra os chefes do Exército e da Aeronáutica em conversa com o ex-capitão do Exército Ailton Barros, investigado por incitar um golpe de Estado em contato com Cid.

Segundo a PF, as conversas de WhatsApp, extraídas do celular de Barros, “evidenciaram a participação e adesão do investigado Walter Souza Braga Netto na tentativa de golpe de Estado, com forte atuação inclusive nas providências voltadas à incitação contra os membros das Forças Armadas que não estavam coadunadas aos intentos golpistas, por respeitarem a Constituição Federal”.

Em 14 de dezembro, Braga Netto chamou Freire Gomes de “cagão”. Um dia depois, referiu-se ao então chefe da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista, como “um traidor da pátria”.

Por outro lado, o então comandante da Marinha, Almir Garnier, deveria ser elogiado – o almirante seria o único dos comandantes das Força Armadas a apoiar o golpe.

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