Política

Por que Salles não abre mão de pedir o indiciamento de um deputado do PT na CPI do MST

Primeiro homem negro a fazer parte da coordenação nacional do MST, Valmir Assunção é deputado federal em seu quarto mandato

Créditos: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
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Relator da CPI aberta para investigar o MST, Ricardo Salles tem dito a pessoas próximas que não abre mão de pedir o indiciamento do deputado federal e fundador do movimento na Bahia Valmir Assunção (PT) no relatório final da comissão. Outros dois assessores do parlamentar petista, segundo relatos, também deve estar entre os alvos de Salles.

A expectativa é que o documento seja apresentado após o feriado da Independência. De acordo com o relator, a investigação teria obtido provas que sustentariam o pedido pelos supostos crimes de ameaça, lesão corporal, furto, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e até homicídio.

Grande parte das acusações estão ancoradas em depoimentos de ex-integrantes do movimento que afirmam ter sido agredidos e expulsos de acampamentos por alguns líderes, entre eles dois funcionários que trabalham no gabinete de Assunção na Câmara: Lucineia Durães do Rosario e Oronildo Loures Costa.

Esses relatos foram apresentados em depoimento no dia 8 de agosto. As declarações foram classificadas como “acusações infundadas” pelos sem-terra.

Um dos ouvidos pelo colegiado, vale dizer, é bolsonarista e figura como investigado por cooptar famílias que viviam em assentamentos no sul da Bahia, prometendo facilidade no acesso aos títulos de terra.

Primeiro homem negro a fazer parte da coordenação nacional do MST, Valmir Assunção é deputado federal em seu quarto mandato. Na CPI, ele travou embates com parlamentares bolsonaristas e afirmou que a comissão foi criada para servir de palco à criminalização da luta social no campo.

Nas redes sociais, o parlamentar também fez publicações contra a permanência de Salles na relatoria da CPI. A última das postagens faz referência à ação em que o deputado bolsonarista é reú por desvio de madeira ilegal no Pará.

“Ele não tem condições e nem moral para criminalizar e perseguir movimentos populares. Se ele tivesse um pouco de dignidade, ele se afastaria da relatoria para ir cuidar do caso dele”, disparou o petista em vídeo publicado na última quarta-feira.

Michel Jesus/Câmara dos Deputados

Pesam contra Salles, por exemplo, acusações de facilitar a prática de contrabando ou descaminho, dificultar ação fiscalizadora em questões ambientais e promover, constituir, financiar ou integrar organização criminosa.

Procurado, Valmir Assunção disse à reportagem que as acusações do relator não são “baseadas provas, mas em depoimentos de seus próprios apoiadores”. Acrescentou também que a tentativa da CPI é “criminalizar o MST e qualquer movimento social de luta por terra e território como forma de determinar uma posição política” para agradar o bolsonarismo.

“As acusações que tentam imputar sobre o meu mandato é simplesmente porque ele é um mandato popular, de defesa dos Sem Terra, dos quilombolas e indígenas. Não trazem provas, apenas desinformações para render uma CPI que já é morta”, pontuou Assunção.

Como mostrou CartaCapital, a comissão aberta para investigar o MST deve acabar mais cedo sem apresentar grandes resultados e com um histórico de bate-bocas e polêmicas, incluindo declarações machistas.

O avanço das negociações entre o governo Lula e o Centrão, com a vinda do PP e Republicanos para primeiro escalão da gestão petista, impôs mais um revés ao desejo de prorrogar por mais 60 dias as investigações.

Além disso, trocas na composição do colegiado – capitaneadas pelas siglas que tentam abocanhar mais espaço na máquina federal – reforçaram a avaliação de que o relatório dos trabalhos deve ser rejeitado.

Para os próximos dias, integrantes da CPI esperavam quebrar o sigilo telemático de João Pedro Stédile (que não usa telefone celular) e convocar o ministro Renan Filho (Transportes) e o presidente da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento. Diante de divergências entre governo e oposição, a sessão foi encerrada sem analisar os requerimentos.

Na outra ponta, parlamentares aliados ao governo articulam apresentar relatório paralelo à comissão no qual pretendem abordar invasões a domicílios durante as diligências da CPI em assentamentos.

O documento ainda irá tratar dos episódios de violência de gênero na condução dos trabalhos, praticados por Salles e pelo presidente do colegiado, Tenente-Coronel Zucco (Republicanos-RS), contra a deputada Sâmia Bonfim.

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