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Para Freixo, apoio a Rodrigo Maia na Câmara é o suicídio da esquerda

CartaCapital,Política

 

Para o candidato do PSOL à presidência da Câmara, Marcelo Freixo, não importam os cargos no Congresso, mas a sinalização às ruas. Em entrevista exclusiva à CartaCapital, ele fala sobre o dilema vivido pela esquerda, atualmente rachada entre os que apoiam a reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara (PDT e PC do B) e os que pretendem lançar seu nome, uma candidatura alternativa (PT e PSOL).

“Como é chamar para a luta se a ideia é lutar contra aquele com quem você está junto no Congresso?”. Fotografia: Reprodução/Mídias Sociais

Carta Capital: Este é o momento adequado para apresentar um candidato da esquerda à presidência da Câmara?

Marcelo Freixo: É o momento crucial. A gente vem de um processo nos últimos três anos que não dá para ter uma amnésia a respeito do que aconteceu. A esquerda não pode fingir que não houve um golpe e simplesmente desejar ocupar a Mesa ou as comissões A, B ou C, e para isso aliar-se a golpistas. Quando Bolsonaro ganha, diz que vai acabar com o ativismo no país. Veja, o Brasil é o lugar onde 57 ativistas foram mortos em 2017, o maior número de assassinatos do tipo no mundo, atrás apenas de Filipinas e Colômbia. O principal cenário dessa tragédia é o campo. Mas Bolsonaro agora vai armar o latifúndio contra os “vagabundos do MST”. Nós não vamos implementar derrotas ao Bolsonaro nos acordos internos do Congresso. Seus sinais e, agora, suas práticas nos impõem uma responsabilidade gigantesca de enfrentamento nas ruas e nos movimentos sociais. Temos de ter capacidade de diálogo dentro do Congresso, sim, mas principalmente ter capacidade de diálogo nas bases. Essa esquerda precisa repaginar-se, refazer-se, reorganizar-se. Quando vier a reforma da Previdência, PP, MDB e esses partidos responsáveis pelo golpe estarão ao lado de quem? Dos sindicatos? Não dá para a gente achar que a aliança que temos de fazer no debate da Câmara seja com esses setores.

 

CC: O que cabe à esquerda no Congresso?

MF: Resgatar a Constituição de 1988. A gente precisa fazer com que o Congresso seja um instrumento de combate à desigualdade social. Bolsonaro é o único presidente nos últimos anos que, em seu discurso de posse, não falou em desigualdade, em miséria. Pior: isso estava em seu discurso escrito, mas ele retirou na hora da fala. Cabe à esquerda ter o enfrentamento à desigualdade social como eixo de um programa. Dessa forma, cabe estar ao lado dos movimentos sociais. E isso tem de começar agora, para desembocar em candidaturas às grandes cidades em 2020, que pode ser o início de uma inflexão dessa extrema-direita. É isso que está em jogo.

 

CC: É temerária a aposta, neste momento, no pragmatismo?

MF: Claro! Bolsonaro não foi eleito pelo antipetismo, mas porque conseguiu caracterizar-se como antissistêmico (o antipetismo está dentro disso). Sua candidatura soube dialogar com o que aconteceu em 2013, coisa que não conseguimos. Não tenho dúvida de que há um diálogo entre 2013 e 2018, e que isso não passa pelo reacionarismo, mas pelo antissistema. Então, no momento em que Bolsonaro se elege como sendo esse antissistema, faremos nós uma oposição sistêmica aliados a Rodrigo Maia, ao PP? A pior coisa que podemos fazer neste momento é manter Bolsonaro como sendo supostamente antissistêmico, o que é uma farsa, e nós assumirmos o sistema. Isso é um suicídio para a esquerda.

 

CC: Como o senhor analisa o apoio de PDT e PCdoB a Rodrigo Maia? É uma nova etapa na luta de Ciro Gomes para ganhar o centro?

MF: A candidatura de Ciro cumpriu um papel importante, mas errou no segundo turno quando não apoiou abertamente o Haddad. Esse erro se desdobra na ideia de apoiar o Maia neste momento. Imaginar que a prioridade agora é a gente ocupar uma vaga na Mesa Diretora, pensar que uma derrota do Bolsonaro passa por esse disfarce no Congresso, isso é inaceitável. A agenda que Bolsonaro vai impor exige que a gente esteja forte nas ruas e não com cargos no Congresso. Nesse sentido, a posição do PDT, se de fato se configurar, não é bom para nenhum projeto, nem mesmo para o PDT ou para uma futura candidatura do Ciro. A ideia de que o futuro do PDT vai se dar com a destruição do PT é uma avaliação de pequena política. A esquerda toda, se formasse um único bloco, teria 135 votos, não precisaria apoiar Maia. É um número muito expressivo para dentro da Câmara, e que mandaria para as ruas uma forte mensagem de enfrentamento. De qualquer maneira, as conversas avançam muito com o PT e o PSB.

 

CC: A oposição ter cargo na Mesa e em comissões não seria um freio às ambições do governo?

MF: É importante ocupar os espaços dentro da Câmara, mas você imaginar que com isso está dividindo a esquerda… Maia tem a agenda liberal do Paulo Guedes, como vamos fechar os olhos para isso exatamente neste momento de desmonte do estado? Como você explica isso em casa? Como você chama todo mundo para a luta se a ideia da luta é lutar contra aquele com quem você está junto dentro do Congresso?

 

CC: Como tem visto a movimentação do PT, que apoiou a eleição de Maia no governo Temer?

MF: As perspectivas não são homogêneas, mas há um desejo muito grande do PT de caminhar junto com o PSOL. Eles não querem lançar um candidato, o que acho uma sinalização extraordinária neste momento e um passo de maturidade. Ciro erra muito quando descarta o PT do projeto de luta contra Bolsonaro. Queremos estar junto com o PT na formação de um bloco mais amplo do que PSOL e PT, mas o PT é imprescindível.

 

CC: Tem acompanhado as negociações para a eleição do presidente do Senado? O PT parece que vai com Renan Calheiros.

MF: Como o PSOL não elegeu senador, confesso que tenho acompanhado menos. Lamento que o campo progressista não apresente um candidato. Agora, achar que Renan Calheiros é melhor para alguma coisa é muito triste… É realmente muito triste.

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Editor-executivo online de CartaCapital, correspondente das Notícias do Hospício e apresentador da série O Infiltrado (History).

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