Política

Debate eleitoral

O debate de ontem: “Respostas frouxas para temas gelados”

por Celso Marcondes — publicado 01/10/2010 11h59, última modificação 02/10/2010 11h32
Para quem esperava algo de novo ontem à noite, veio apenas um pouco mais do mesmo
O debate de ontem: “Respostas frouxas para temas gelados”

Para quem esperava algo de novo ontem à noite, veio apenas um pouco mais do mesmo. Por Celso Marcondes. Foto: Thays Cabette

Rede Globo, quinta-feira 30, das 22h40 às 0h25

“Respostas frouxas para temas gelados”. Quem escreveu isso foi o jornal argentino Página 12 para definir o debate de ontem. Tomo emprestado o título, muito preciso, dos hermanos.

Toda a expectativa para a “grande final do campeonato” já diminui quando “Passione” não termina nunca. Se a Globo pretendia de fato colaborar com a democracia, poderia, pelo menos uma vez a cada quatro anos, colocar o debate em horário nobre. Como sempre, não o fez, fala mais alto o Ibope da novela. Perguntei para 8 pessoas nesta manhã se haviam assistido ao confronto. De todas, obtive a mesma resposta: “só o começo, depois fui dormir”.

Por dever de ofício e fanatismo político, resisti até o fim. Para vencer o sono, anotava minhas impressões num bloquinho. Ao final, construí um placar: Dilma e Marina dialogaram 4 vezes nos 4 blocos do programa. Dilma e Plínio outras 4. Plínio e Serra também 4. E Serra e Marina...adivinhem? Outras 4 também.

Deu certo então a fórmula bolada pelo matemático Oswald de Sousa e acordada em reunião da emissora com os representantes dos 4 candidatos? Todo mundo teve tempo igual? Não, caro leitor que sucumbiu ao chamado da cama, pois repare no placar acima: Dilma e Serra só trocaram um “boa noite” e um “até a próxima” nas duas horas que durou o programa televiso. Por que aconteceu isso?

Em primeiro lugar porque regras rígidas se transformam em camisa de força. Tudo muito cronometrado, dividido bonitinho, temas pré definidos e obrigatórios na metade dos blocos, impossibilidade de questionar quem já havia respondido uma pergunta no bloco, mediação do William Bonner.

Em segundo lugar, porque convinha aos dois líderes nas pesquisas – na opinião de seus marqueteiros, lógico – não entrar em bola dividida, evitar o combate direto, evitar contusão no final do campeonato. Vai daí, que Serra não fez perguntas para Dilma e Dilma não fez perguntas para Serra, mesmo quando as regras rígidas permitiam.

Serra fazia seu discurso de oposição e apresentava seu mais recente Programa de Governo – R$ 600 de salário mínimo e 10% de aumento para todos os aposentados, por exemplo – quando “debatia” com Marina e Plínio, que, até onde se sabe, não fazem parte do atual governo. Dilma fingia que não ouvia. Poderia usar de um artifício óbvio: aproveitar parte do tempo dos diálogos com Marina e Plínio para responder às críticas do tucano ou questionar suas inovações programáticas. Nem o chamado “direito de resposta” foi pedido por ninguém.

Marina entrou pelo caminho da “terceira via”, não fugiu da briga, procurou o debate com os dois, mas faltou contundência para quem pretende ir para o segundo turno. Faltou um centroavante goleador e mais precisos chutes a gol.

Conseguiu, por um momento, desestabilizar Serra. Ele ficou melindrado com a insistência de Marina, que não concorda com sua defesa veemente do Bolsa Família. Aí o tucano chiou: “Marina, não use a sua régua para medir os outros. Se eu fosse usar a minha régua, diria que você e a Dilma têm mais coisas parecidas que qualquer outro candidato. Você ficou no PT até a pouco, você estava no governo do mensalão”, ele disse. Pouco inteligente para quem precisaria do apoio dos eleitores verdes num eventual segundo turno.

Dilma, na liderança da tabela, não empolgou, nem comprometeu. Debate, definitivamente, não é a praia dela, mas conseguiu embolar a contento o meio de campo. Teve até a ajuda de Plínio, que não estava em noite inspirada e perdeu várias oportunidades para questionar a candidata do governo por vias mais compreensíveis para o eleitor.

O pior momento da petista foi quando disse que “as doações oficiais de campanha estavam todas registradas” – deixando em aberto a compreensão de que haveria doações “não oficiais”. Diante dos risos de parte da platéia, teve aí seu melhor momento: “Lamento os risos de quem tem outras práticas. A minha não é essa”, disse firme, para aplausos dos seus seguidores.

Nas mensagens de despedida, pontos para Marina e Plínio. Mas aí já passava da meia noite e meia. Empate com sabor de vitória para Dilma

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