O céu de Damares: como a ministra dos Direitos Humanos aparelha sua pasta

Um mapa obtido por CartaCapital aponta: dos 46 cargos mais importantes do ministério, 30 estão ocupados por reacionários cristãos

Messias e seus discípulos. Damares Alves e Michelle Bolsonaro se uniram para distribuir verbas doadas à Covid-19.
Ao lado, Ângela Gandra e Eduardo de Melo, dois cruzados. (FOTO: Marcos Corrêa/PR, Redes sociais e Clarice Castro/MMFH)

Messias e seus discípulos. Damares Alves e Michelle Bolsonaro se uniram para distribuir verbas doadas à Covid-19. Ao lado, Ângela Gandra e Eduardo de Melo, dois cruzados. (FOTO: Marcos Corrêa/PR, Redes sociais e Clarice Castro/MMFH)

Política

O núcleo ideológico do governo Bolsonaro não é mais o mesmo. Dois importantes “oficiais” da tropa, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o ex-chanceler Ernesto Araújo, foram forçados a abandonar o campo de batalha. O guru Olavo de Carvalho acabou silenciado pelas redes e por força de decisões judiciais (uma delas o condenou a pagar 2,9 milhões de reais ao cantor e compositor Caetano Veloso, por calúnia e difamação). Carluxo Bolsonaro perdeu o controle do “gabinete do ódio” e está na mira da CPI da Pandemia. Só uma generala continua firme no posto – e prestigiada – desde o início do mandato, em 2019. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, afastou-se dos holofotes, mas não abandonou a missão. Praticamente esquecida pelo noticiário, ela aproveita o descuido da mídia para conduzir o “rebanho” à sua maneira e levar a cabo o aparelhamento de cargos estratégicos na administração pública com figuras ligadas ao reacionarismo religioso.

Um mapa obtido com exclusividade por CartaCapital aponta: dos 46 cargos mais importantes do ministério, 30 estão ocupados por representantes de igrejas evangélicas, católicos ortodoxos, movimentos internacionais e nacionais da direita cristã e até do integralismo, de inspiração fascista. De acordo com o levantamento, 17 cargos são ocupados por lideranças ou afiliados das igrejas Batista, Assembleia de Deus, Quadrangular, Presbiteriana e Universal. Outros oito por representantes de movimentos católicos como a União dos Juristas Católicos de São Paulo, Regnun Christi, Mission Network e Brasil sem Aborto. Há seis cargos “sob sigilo”, expediente usado em casos excepcionais de servidores cedidos pela Agência Brasileira de Inteligência. A agenda é clara: liberdade religiosa, “defesa da família” (movimentos antiaborto e contra direitos LGBT), homeschooling­ e “escola sem partido”.

Há uma conexão clara com movimentos reacionários cristãos dos EUA

O cargo de secretária nacional da Família é ocupado pela advogada Ângela Vidal Gandra, ligada à União dos Juristas Católicos de São Paulo e filha do advogado Ives Gandra Martins, destacado integrante do Opus Dei. Martins foi padrinho de casamento de Carla Zambelli, a mais fanática aliada de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, a quem Ângela chama de “irmã”. Olavete, Eduardo Miranda Freire de Melo foi nomeado em fevereiro para compor o Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Intendente da Marinha, Melo minimizou a tortura em entrevistas e não tem experiência na área de direitos humanos. Antes de conquistar um cargo na “congregação” de Damares, ele trabalhou no Ministério da Educação na curta gestão de Ricardo Vélez. Sua grande iniciativa foi interromper reuniões de trabalho para orar. Um manifesto de cerca de 600 entidades contra a indicação de Melo não surtiu efeito. O intendente foi escolhido para coordenar a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos, ao lado de ativistas antiaborto (mesmo em caso de estupro).

Liderança da Frente Integralista Brasileira e presidente da regional de Brasília, Paulo Fernando Melo da Costa foi nomeado em 2019 assessor especial do ministério. A frente se classifica como “conservadora e anticomunista” e tem como lema a tríade “Deus, Pátria, Família”. Costa foi candidato a deputado federal pelo Patriotas em 2018 e, em sua página de campanha, gaba-se de ter o dom de evitar que jovens abortem. Na página da Frente Integralista do Rio de Janeiro, é conhecido como “um homem de fé, que convence mulheres a desistirem de fazer aborto apenas conversando”. O integralista envereda-se ainda pelas questões indígenas. Em sua página pessoal, destaca, entre outras, a atuação na organização não governamental Atini, criada por Damares, de onde saiu para assessorar o ex-senador Magno Malta.  “Os novos Herodes da Funai”, escreveu, “acham que o direito à cultura do índio é superior ao direito à vida. Isso é uma aberração não só do ponto de vista do direito natural, como da vida humana.”

Pouca fé. As orações não foram suficientes para manter Trump na Casa Branca, mas estes religiosos ampliaram sua influência nas Américas. (FOTO: Nicholas Kamm/AFP)

A Atini anuncia o objetivo de “combater o infanticídio indígena”, tese repetida pela ministra e auxiliares. A ONG e a própria Damares são alvo de duas investigações. Uma delas na fluminense Volta Redonda, por causa de uma espécie de rapto. A Atini teria “sequestrado” uma adolescente grávida do povo Saterá-Mawé. O bebê teria sido entregue a uma família da cidade. A outra, em Rondônia, pelo fato de a ONG ter exibido um documentário sobre infanticídio indígena, no qual aparecem crianças da tribo Karitiana, onde a prática não ocorre. O vídeo foi retirado do ar. Depoimentos de indígenas apontam que integrantes da Jocum, outro movimento do qual Damares faz parte, mentiram sobre o objetivo do documentário para captar a imagem das crianças. “A pauta indígena é muito cara a Damares, pois é uma de suas principais bandeiras. Quando ela assumiu o ministério, queria ficar com a Funai sob seu arcabouço. Não conseguiu, mas de qualquer forma ela tem muita influência no meio”, afirma Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e pesquisadora do Instituto de Estudos de Religião (ISER).

Neste ano, o Tribunal de Contas da União abriu investigação para apurar uma “dobradinha” entre Damares e Michelle Bolsonaro. O tribunal calcula em 7,5 milhões de reais os danos ao Erário por conta das doações para compra de testes da Covid-19. A verba repassada pela Marfrig acabou transferida para o projeto Arrecadação Solidária comandado por Michelle no Pátria Voluntária. Com isso, a Associação de Missões Transculturais Brasileiras, que, segundo o site da Receita Federal, funciona no mesmo endereço da Atini, e dois institutos filiados à AMTB receberam parte do dinheiro.

Os grupos antiaborto e do movimento “escola sem partido” ocuparam os espaços

Sob Damares, as igrejas foram eleitas parcerias prioritárias da pasta de Direitos Humanos. Em 2020, asilos e casas de repouso tornaram-se um dos principais focos da pasta. Por causa da pandemia, foram direcionados 160 milhões a entidades majoritariamente administradas por instituições religiosas. De acordo com a própria Damares, só em São Paulo a Assembleia de Deus auxiliou em 33 municípios paulistas com 1,3 mil idosos assistidos. Em janeiro, o ministério publicou uma portaria na qual solicita às igrejas que se cadastrem voluntariamente para selar a parceria entre o governo e os cristãos. Com a base de dados, as instituições ficarão aptas a receber recursos federais. Segundo dados do IBGE, anualmente, 14 mil igrejas evangélicas são abertas no País. Como estratégia, o ministério foca em pequenas congregações e obreiros. A ministra costuma, inclusive, enviar vídeos caseiros para estimular pastores e movimentos a aderir aos programas federais.

A chegada de Damares ao ministério reforçou a presença de religiosos estrangeiros no País. “A partir de 2019, houve uma facilitação da entrada de grupos internacionais relacionados a projetos fundamentalistas. Existe, inclusive, financiamento internacional, cujas ações são padronizadas”, descreve Magali Cunha. A Associação Nacional de Juristas Evangélicos tem, por exemplo, pressionado Bolsonaro a indicar um ministro ao Supremo Tribunal Federal “terrivelmente evangélico” para a vaga de Marco Aurélio Melo. O presidente da Anajure, Uziel Santana, reuniu-se com o presidente em outubro do ano passado, quando teria apresentado o pleito.

Pregadores. O senador Flávio Bolsonaro foi um dos cicerones no Brasil do Capitol Ministries, financiado por Donald Trump (FOTO: Redes sociais)

Dos grupos internacionais atraídos para o Brasil destaca-se o Capitol Ministries, criado pelo pastor Ralph Drollinger e financiado pelo ex-presidente estadunidense Donald Trump, Mike Pence e Mike Pompeo. A partir de 2019, o Capitol abriu escritório e expandiu seus braços pela América Latina, criando coordenações em outros sete países. O objetivo é “criar discípulos de Jesus” na política mundial. Eles atuam em gabinetes no Senado coordenados pelo pastor Raul José Ferreira Júnior. Drollinger fez questão de comparecer ao lançamento da filial brasileira, em evento no Senado, que contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro.

A aliança com os cristãos dos EUA teve como um dos principais articuladores o ex-chanceler Ernesto Araújo, que, antes de perder o cargo, anunciou na ONU que o Brasil iria sediar a IV Reunião Ministerial para o Avanço da Liberdade ou Crença Religiosa, marcado para 19 de novembro. O evento é resultado de aliança entre Trump e o governo brasileiro, com o objetivo de difundir as “pautas cristãs” no País.

Outro movimento da direita cristã dos Estados Unidos que conta com apoio irrestrito de Damares e Bolsonaro é o The Send, fundado em 2016 em Los Angeles, que tem como objetivo “reevangelizar a América”. Durante um evento em fevereiro, que durou 12 horas e ocorreu simultaneamente em Brasília e São Paulo, a ministra e o ex-capitão discursaram. “No governo, toda estratégia religiosa não é isolada, faz parte de uma articulação que abrange a América Latina. É uma rede que passa pelos EUA e que interfere diretamente em políticas públicas”, ressalta Magali Cunha. Enquanto isso, dados do site Gênero e Número apontam que, em 2020, o ministério pouco investiu em políticas para mulheres e LGBTI. No caso das mulheres, foram empenhados 106 milhões de reais, mas gastos apenas 2 milhões. Para a população LGBTI, foram empenhados 800 mil, mas nenhum centavo foi aplicado. Procurado, o ministério não respondeu às perguntas desta revista.

Publicado na edição nº1157 de CartaCapital, em 13 de Maio de 2021.
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Repórter da revista CartaCapital

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