Má companhia: não há um claro vencedor, mas os derrotados parecem certos

Foi-se o tempo em que uma foto com o presidente valia ouro na disputa eleitoral

Ao contrário do que aconteceu no resto do País, a avaliação de Bolsonaro não melhorou na capital paulista durante a pandemia. ( Foto: Redes Sociais)

Ao contrário do que aconteceu no resto do País, a avaliação de Bolsonaro não melhorou na capital paulista durante a pandemia. ( Foto: Redes Sociais)

Política

Foi-se o tempo em que uma foto com Jair Bolsonaro valia ouro na disputa eleitoral. Depois de alavancar em 2018 as candidaturas dos neófitos Romeu Zema, em Minas Gerais, Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, e Carlos Moisés, em Santa Catarina, o ex-capitão, dois anos depois, perdeu o toque de Midas. Agora, os candidatos que posam ao lado do “Mito” naufragam nas pesquisas. Alguns deles, como Bruno Engler, em Belo Horizonte, e Coronel Menezes, em Manaus, não passam de 5% das intenções de voto, segundo os levantamentos mais recentes. Outros viram a própria vantagem evaporar no exato momento em que se associaram ao presidente.

 

 

Com fama de “cavalo paraguaio”, aquele que larga na dianteira, mas perde fôlego ao longo do páreo, Celso Russomanno esperava reverter a sina com o respaldo de Bolsonaro. “Não pretendia entrar nas decisões de eleições municipais, mas o Celso é um amigo de velha data e estou pronto pra ajudar no que for preciso”, afirmou o ocupante do Palácio do Planalto no início de outubro. À época, o candidato do Republicanos, o partido nascido das costelas da Igreja Universal do Reino de Deus, figurava na liderança da disputa pela prefeitura de São Paulo, com 26% das intenções de voto, segundo o Ibope. 

Russomanno não teve pudor em explorar o apoio. Nos debates e no horário eleitoral gratuito, não se cansava de elogiar o desempenho do presidente na crise do coronavírus, e prometeu criar um programa de transferência de renda à imagem e semelhança do auxílio emergencial pago pelo governo federal. Na reta final da campanha, integrantes de sua campanha aventam, no entanto, a possibilidade de retirar Bolsonaro da propaganda. O motivo? O candidato derreteu nas pesquisas, e corre o risco de ficar fora do segundo turno. Russomano aparecia com 12% das intenções de voto na segunda-feira 9, segundo o Ibope, muito distante do líder Bruno Covas, do PSDB (32%), e tecnicamente empatado com Guilherme Boulos, do PSOL (13%), e Márcio França, do PSB (10%). Além disso, ostenta a maior rejeição: 41%. Ainda que passe para a etapa decisiva, dificilmente será capaz de bater o tucano.

Muitos analistas anteviram o equívoco da estratégia. Ao contrário do que aconteceu no resto do País, a avaliação de Bolsonaro não melhorou na capital paulista durante a pandemia. No início de outubro, a sua gestão era considerada boa ou ótima por 27% dos eleitores paulistanos e ruim ou péssima por 48%, segundo o Ibope. São os mesmos percentuais de março, quando foi registrada a primeira morte de um brasileiro por Covid-19. O governador João Doria, padrinho de Bruno Covas, não estava em situação mais confortável, mas o candidato do PSDB optou por não o apresentar na propaganda. Livrou-se da rejeição.

 

Há uma tendência do eleitor a votar nos candidatos de partidos tradicionais

 

No Rio de Janeiro, a popularidade de Bolsonaro era um pouco melhor: 34% dos eleitores cariocas aprovavam sua gestão no início de outubro, enquanto 38% a rejeitavam. Nem assim foi possível melhorar a situação de Marcelo Crivella. Em busca da reeleição, o candidato do Republicanos figurava com 15% das intenções na segunda-feira 9, também segundo o Ibope, muito atrás do líder Eduardo Paes, do DEM (33%), e tecnicamente empatado com a delegada Martha Rocha, do PDT (14%). Ou seja, também corre sérios riscos de sair da disputa no primeiro turno. Sua rejeição é impressionante: 58%.

Nas capitais, o candidato mais competitivo apoiado por Bolsonaro é o Capitão Wagner, do Pros, em Fortaleza, mas a missão dele não parece menos espinhosa. Embora tenha liderado a corrida eleitoral desde o início, uma pesquisa Ibope indica que ele foi ultrapassado por José Sarto, do PDT, apoiado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes e pelo governador Camilo Santana. Divulgada em 3 de novembro, a sondagem registra um crescimento de 13 pontos percentuais de Sarto em três semanas. O pedetista figurava com 29% das intenções de voto. Wagner, por sua vez, tinha 27%. Ainda que saia vitorioso no domingo 15, as projeções de segundo turno acenam para uma tranquila vitória do aliado dos irmãos Gomes, que tende a herdar a maior parte dos votos confiados à petista Luizianne Lins, 24% das intenções de voto e ainda com chances de surpreender e chegar ao segundo turno.

Se as eleições confirmarem os cenários captados pelas pesquisas, não restará dúvida: Bolsonaro tornou-se um Midas às avessas. “Normalmente, o partido do presidente da República costuma se sair melhor nas eleições municipais. Foi o que aconteceu com FHC, com as gestões petistas, mas Bolsonaro optou por dinamitar o seu próprio partido. Ele destruiu as relações que tinha no PSL, que possui a maior fatia do fundo eleitoral, e não conseguiu criar a sua própria legenda, a Aliança pelo Brasil”, observa Cláudio Couto, cientista político da FGV de São Paulo. “Resultado: o PSL está rateando nas maiores cidades, não consegue ter desempenho significativo em capital alguma, e Bolsonaro tornou-se um apoiador tóxico de candidatos de outras siglas.”

Da mesma forma, a onda da “nova política” parece ter virado uma marolinha. Nas maiores cidades, os novatos com discurso antissistema amargam as últimas posições. “Há uma tendência de retorno dos eleitores aos chamados políticos tradicionais”, diz Couto. “A única figura que se destaca desse movimento é o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, que é muito bem avaliado e tem grandes chances de se reeleger no primeiro turno. Mas não o considero mais um representante da ‘nova política’. Ele pode ter se elegido com esse discurso em 2016, mas fez uma ampla aliança para governar e para o atual pleito.” Além do PSD, a coligação de Kalil reúne outros sete partidos bem tradicionais, como MDB, PP e PDT.

 

Um novo balão de ensaio foi lançado no céu da política, a chapa Huck-Moro

 

A cientista política Vera Chaia, da PUC de São Paulo, concorda com a avaliação do colega. “Nas principais capitais, os líderes não têm vergonha de se apresentar como políticos experientes. Em São Paulo, Bruno Covas não apenas valoriza a sua experiência administrativa, como faz questão de lembrar que é neto do ex-governador Mário Covas. Já Arthur do Val, do MBL, e Joice Hasselmann, do PSL, figuram na rabeira das intenções de voto”, observa. “No Rio de Janeiro, temos um cenário parecido. Mesmo enrolado com as denúncias da Lava Jato, o ex-prefeito Eduardo Paes lidera com o dobro das intenções de voto do segundo colocado. A população carioca parece estar cansada de neófitos, procura alguém com experiência para enfrentar os graves problemas da cidade.”

O PT igualmente enfrenta dificuldades. Nas capitais, possui candidatos competitivos apenas em Vitória, onde o ex-prefeito João Coser lidera, e no Recife, onde Marília Arraes enfrentará uma dura disputa com o primo João Campos, do PSB. É provável que os petistas recuperem, porém, ao menos parte do espaço perdido quatro anos atrás, quando elegeu um número de prefeitos 60% menor. “Em 2016, o PT sofreu um cataclismo. É impossível reaver as mais de 600 prefeituras que tinha antes, mas deve recuperar algum terreno”, aposta Couto. “Nas capitais, o cenário é mais difícil. Há uma tendência de outros partidos progressistas repartirem o bolo.” Como exemplos, o professor cita a liderança de Manuela D’Ávila, do PCdoB, em Porto Alegre, e de Edmilson Rodrigues, do PSOL, em Belém. Ambos são apoiados pelo PT, mas não é o partido que encabeça a chapa.

Na verdade, a cúpula petista busca surpreender nas cidades médias. Em Caxias do Sul, munícipio gaúcho com 415,8 mil moradores, o partido lançou o ex-prefeito Pepe Vargas, que foi ministro do Desenvolvimento Agrário e dos Direitos Humanos. Em São Gonçalo, cidade fluminense com pouco mais de 1 milhão de habitantes, Dimas Gadelha estava na dianteira, com 18% das intenções de voto, segundo sondagem eleitoral divulgada pela Intelligence Comunicação em 8 de novembro. Em Diadema, município paulista com 386 mil habitantes, o ex-prefeito José de Fillipi Junior lidera com 47% dos votos válidos, segundo o Ibope, embora o partido derrape nas pesquisas das demais cidades do ABC paulista. Em Guarulhos, segunda cidade mais populosa do estado de São Paulo, com 1,3 milhão de residentes, o ex-prefeito Elói Pietá liderava com 32%, segundo a pesquisa Real Time Big Data, divulgada pela CNN Brasil no domingo 8.

O cientista político Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi, é, no entanto, cético em relação à possibilidade de o PT superar 2016. “Naquele ano, o PT sofreu um ataque sem precedentes, foi vítima de uma articulação política, empresarial, judicial e midiática que pretendia sufocá-lo”, afirma. “Neste ano, pode até reaver cidades importantes, mas as pesquisas acenam para uma tendência de continuidade. Nas capitais, 13 prefeitos disputam reeleição e 11 deles têm grandes chances de conseguir. Obviamente, essa continuidade é muito ruim para o PT.”

Na avaliação de Coimbra, a maior parte dos eleitores não está preocupada com as disputas municipais. “Os brasileiros têm preocupações muito maiores no momento, como o desemprego, a pandemia, a incerteza do futuro”, enumera. Nem por isso ele acredita que o resultado das eleições não terá impacto em 2022. “Os candidatos ligados a Bolsonaro tiveram uma performance lastimável. É evidente que o papelão de Russomanno, Crivella e outros enfraquece a imagem do ex-capitão, assim como a derrota do seu ídolo, Donald Trump, nos Estados Unidos.”

Se, por um lado, é possível identificar os derrotados, por outro é difícil apontar um claro vencedor. “Essa eleição ficou marcada pela altíssima fragmentação de candidaturas, e o resultado final também deve ser marcado pela fragmentação”, afirma Couto. “Normalmente, as eleições municipais têm pouco impacto na disputa presidencial propriamente dita, mas é um bom preditor para a eleição da Câmara dos Deputados, pois os prefeitos atuam como cabos eleitorais desses candidatos.”

Enquanto isso, a eleição presidencial voltou aos holofotes com mais um balão de ensaio divulgado pela mídia: a articulação de Luciano Huck com Sergio Moro, tendo em vista a criação de uma “frente ampla de centro” para derrotar o bolsonarismo em 2022. A delirante ideia não tardou a ser torpeada, e não apenas pelos petistas. “No dia em que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu serei de ultra-esquerda”, debochou Ciro Gomes, do PDT. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM, disse ser “zero” a chance de apoiar uma eventual candidatura de Moro, classificado como um “representante da extrema-direita”. 

“Faltou seguir o conselho de Mané Garrincha e combinar com os russos”, observa Coimbra, sem conter o riso. “A elite brasileira parece viver em um mundo de fantasia. Quer a continuidade do projeto bolsonarista, neoliberal, antipopular e antiesquerda, mas sem Bolsonaro”, acrescenta. “Huck é popular, mas na tevê. O eleitor não o enxerga como presidente. Moro, por sua vez, disputa o mesmo eleitorado de Bolsonaro, sem o mesmo apelo popular do ex-capitão. Enfim, haverá muito falatório. Quero ver quem realmente estará na disputa daqui um ano, quando o jogo começa para valer.”

 

 

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Editor de CartaCapital

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