Política

Lula, o debate na Globo e as voltas que o mundo dá

O embate entre os presidenciáveis refletiu de maneira ora agressiva, ora engraçada – e quase todo o tempo constrangedora – o quadro destas eleições de 2022

Foto: Nelson Almeida/AFP
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Nunca houve na história desse País um debate entre presidenciáveis como o realizado na noite de quinta (e madrugada de sexta) pela Rede Globo. Não pela organização tatibitate ou pela falta de qualidade do evento que um dia já levou aos estúdios da emissora oradores do quilate de Leonel Brizola, Mário Covas e Ulysses Guimarães. Deixemos o passado de lado. Mas, por refletir de maneira ora agressiva, ora engraçada – e quase todo o tempo constrangedora – um quadro eleitoral que, às vésperas da eleição, juntou no mesmo tablado um presidente politicamente moribundo, um candidato que já se comporta como vitorioso e cinco outsiders com estofo político variado, indo de um ressentido Ciro Gomes a um inacreditável Padre Kelmon, novo rei dos memes e referência da vergonha alheia nacional.

O dia começou atípico, com a chuva que caiu pesadamente no Rio de Janeiro até duas horas antes do início do debate. O clima inóspito reduziu o número de militantes na entrada dos Estúdios Globo e inviabilizou o tradicional oba-oba que dá aos debates um clima festivo. Aos repórteres que não foram com veículos próprios e previamente cadastrados, meu caso, foi concedida a graça de caminhar desde o bloqueio levantado pela Polícia Militar até a porta do estúdio. Coisa de mais ou menos um quilômetro, mas São Pedro, talvez interessado em assistir ao debate, desligou a torneira em momento oportuno. Na caminhada, pensando nas perguntas que eu faria aos políticos na entrada do debate, fui ultrapassado pelos carros da comitiva de Jair Bolsonaro: “Mau agouro!”, vaticinou minha filha no aplicativo de mensagens quando lhe contei o ocorrido.

A boca de Bolsonaro ainda profere ameaças golpistas, um cacoete imbrochável, mas seus olhos já refletem o vazio da derrota

Percebi que ela estava certa quando cheguei ao meu destino e me deparei com a imensa fila para a entrada da imprensa. Um único e abnegado funcionário fazia a identificação de repórteres e cinegrafistas, até que recebeu merecida ajuda e a coisa começou literalmente a andar. Mas, a tensão estava instalada, pois restava uma hora para o debate e – pior dos mundos – a entrada da imprensa ocorreu em lado diametralmente oposto a dos candidatos e seus convidados. Ou seja, meu objetivo (compartilhado por dezenas de outros repórteres) de fazer uma matéria de bastidores subira no telhado.

Não se sabe se a decisão de estabelecer uma grande distância entre as entradas atendeu a um acordo com os candidatos ou foi tomada unilateralmente pela organização, mas o fato é que impediu a livre e sempre rica troca de ideias com os personagens da política ocorrida em debates anteriores promovidos pela Globo.

Se os repórteres perderam o “filé” da apuração, a frustração generalizada foi diminuída pelos mimos gastronômicos na sala reservada à imprensa – outra tradição dos debates na Globo, felizmente mantida. Forrar o estômago revelou-se crucial assim que começaram as discussões entre os candidatos que, em diversos momentos, levaram os profissionais da imprensa às gargalhadas. Após um primeiro e animador embate entre Ciro e Lula, criou-se um clima de constrangimento quando o petista e Bolsonaro iniciaram uma sucessão de pedidos de “direito de resposta”.

O presidente conseguiu, desta vez, vestir na maior parte do debate o figurino de “estadista” sugerido pelos marqueteiros. A tarefa, contudo, foi facilitada por sua visível falta de vigor físico e espiritual. A boca de Bolsonaro ainda profere ameaças golpistas, um cacoete imbrochável, mas seus olhos já refletem o vazio de quem está a poucos dias de ver sua “obra” julgada pelos brasileiros.

Lula teve um melhor desempenho do que no debate da Band – mas mostrou-se, por mais de uma vez, impaciente com a tarefa de debater. Genial como orador, o petista não costuma ir tão bem nos debates. Soube responder à altura os ataques mais virulentos de Bolsonaro – mas, entre os repórteres presentes, ficou a sensação de que poderia ter evitado cair na provocação de Padre Kelmon, com quem chegou a bater boca fora dos microfones.

O falso padre (não é reconhecido pela Igreja Ortodoxa no Brasil) foi o protagonista dos momentos mais engraçados e constrangedores do evento. Primeiro, quando foi seguidamente chamado de “Padre Kelson”, “Padre Kelvin” e “candidato padre” por Soraya Thronicke. Depois, quando sugeriu “catequisar os jornalistas”, tão distantes de Jesus. Na minientrevista coletiva realizada após o debate, Kelmon saiu praticamente corrido pelos repórteres, fartos da pregação religiosa rasteira e do despreparo político da última invenção de Roberto Jefferson. Em um País que se levasse mais a sério, sua candidatura à presidência seria inadmissível.

Thronicke, assim como Simone Tebet, manteve a serenidade no debate e na coletiva. As duas causaram frisson na plateia ao protagonizarem um momento “melhores amigas”, com uma querendo ceder o tempo à outra. Visivelmente embaraçada com a revelação feita por Bolsonaro de que havia pedido cargos no governo, Thronicke voltou ao tema na coletiva de imprensa. Já Tebet, indagada sobre ter “pegado leve” com Lula no debate, evitou confirmar o apoio ao petista se houver segundo turno.

Ciro, em sua versão simpática, soube apresentar propostas no debate e também na conversa com os repórteres. Mas, da mesma forma que Bolsonaro tinha aura de abatimento, o olhar do pedetista revelava a todo instante sua mágoa política com Lula e o PT, fator de cegueira que o levou a adotar a errática e fracassada estratégia de campanha. Bolsonaro e Lula não saíram para falar com a imprensa, o que gerou reclamações dos repórteres, só avisados na última hora: “Se a gente contasse antes, ia todo mundo embora”, justificou uma funcionária.

Primeiro a falar com os jornalistas, Felipe D’Ávila só teve duas perguntas a responder, retrato de sua relevância no debate ou como candidato.

Voltando para casa na perigosa e linda (mesmo chuvosa) madrugada carioca, pensei que o modelo de debates televisivos está caduco e precisa ser repensado. Também me lembrei que, há exatos 20 anos, estive no mesmo Projac (era assim que se chamava) para o debate do segundo turno entre Lula e o tucano José Serra. Naquela ocasião, havia a expectativa concreta da chegada do PT pela primeira vez à Presidência, após os governos neoliberais de FHC. Agora, há a necessidade de salvar o País do rumo autoritário e tacanhez de Bolsonaro.

Não sem ironia, refleti sobre as voltas que o mundo dá.

Pensei em Lula, preso por 580 dias, dado como politicamente acabado. E, agora, prestes a voltar ao Palácio do Planalto. Pensei na poderosa emissora que, na ânsia de tirar o PT do poder, ajudou a colocar o Brasil onde está – e agora parece assistir atônita aos rumos que a política tomou. Em duas décadas, eu mudei, Lula mudou e o País também. Por outro lado, o picadinho de carne com molho ferrugem do bufê da Globo permanece imbatível.

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