Luiza Erundina: “Guilherme Boulos tem chances reais de se eleger como prefeito de São Paulo”

Em entrevista a CartaCapital, deputada contou sobre motivação para se candidatar a vice-prefeita: 'A esquerda não tem candidato'

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP). Foto: Reprodução/YouTube

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP). Foto: Reprodução/YouTube

Política

Prefeita da cidade de São Paulo entre os anos de 1989 e 1992, Luiza Erundina volta à corrida eleitoral paulistana em 2020 como vice na pré-candidatura de Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). E ela está entusiasmada. “Ele tem chances reais de se eleger”, diz a deputada federal pelo PSOL-SP, em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta, nesta segunda-feira 13.

Aos 85 anos de idade, sua motivação parte do princípio de que recebeu uma tarefa do partido para disputar o pleito municipal. Segundo ela, veio da legenda e do próprio Boulos a condição de lançar a pré-candidatura com a sua participação. Mas, além disso, ela diz seguir com a vontade de cumprir o que chama de missão pedagógica da política, contribuindo para aumentar a consciência das pessoas mais pobres sobre os seus direitos e sobre a importância de lutar contra a concentração de riquezas.

“O partido resolveu, e ele também, que só sairia a candidato se eu fosse a vice dele. E hoje eu sou vice do Boulos, acreditando que ele tem chances reais de se eleger. Não tem um candidato além de um candidato do PSOL, com possibilidades reais de conquistar a maior cidade do país”, diz a parlamentar, crendo que as chapas lançadas por outras legendas no município não tem maiores possibilidades de vitória do que Boulos. “Eu estou muito entusiasmada, mobilizada, com vontade de dar um recado nesse tempo que me resta.”

Para ela, o possível êxito de Boulos na capital paulista pode instituir um “fronte de resistência contra o bolsonarismo, o retrocesso e o obscurantismo” na maior metrópole do país, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro. Contudo, o PSOL ainda não determinou quem será seu candidato: também está cotada a deputada federal Sâmia Bomfim, que tem como vice a primeira pré-candidata trans no município, Alexya Salvador.

Luiza Erundina está a todo vapor no Congresso Nacional. No domingo 12, assinou uma queixa-crime contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), acusando-o de colocar a população em risco ao desprezar a pandemia. Na última semana, juntou-se ao deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) em um projeto de lei para ampliar benefícios sociais para quilombolas, indígenas e pessoas em situação de rua.

 

A deputada diz que ainda está na política porque a política é necessária. “Sem o poder você não muda”, ela afirma. Ao mesmo tempo, diz não acreditar na via da conciliação entre as classes sociais como uma forma de exercer o poder. Na verdade, a conciliação é “atentatória”, e o ato de governar deve priorizar a participação real da população nas decisões estratégicas.

“A conciliação atenta contra o direito humano. É impossível você conciliar uma minoria altamente privilegiada, e esse privilégio se reproduz pelo sistema todo, com a vítima do sistema”, afirma. “A conciliação está sempre a serviço dos que têm interesse em manter as coisas como elas são. Eu não sou a favor da conciliação. A conciliação de classes é sempre contra o mais fraco, e o mais fraco é o mais numeroso, mas não têm consciência de classe.”

Para Luiza, as gestões do PT no Palácio do Planalto erraram em insistir na tentativa em conciliar representantes da burguesia brasileira com as bandeiras dos trabalhadores. “Lamentavelmente, os partidos ditos de esquerda não têm contribuído muito para aumentar o nível de consciência de classe do povo.”

A insistência em uma estratégia equivocada se repetiu na conduta do partido na capital paulista, em sua avaliação. Luiza lembra, por exemplo, de quando desistiu de ser candidata a vice-prefeita com Fernando Haddad (PT) em 2012, por discordar da aliança que o petista fez com o então deputado federal Paulo Maluf, do PP.

“Ele [Haddad] se aliou com o Maluf, o Lula e ele na casa do Maluf, celebrando a aliança, quando eu já tinha sido declarada como vice dele. Eu disse: não, comigo não. Os jornalistas caíram em cima de mim para saber o que eu achava, e eu disse: não sou mais candidata a vice”, recorda.

Ainda assim, ela fez campanha para Haddad no 2º turno, quando ele disputou contra José Serra (PSDB). Porém, ao chegar na prefeitura, o petista não cumpriu sua promessa de administrar a cidade junto com a população.

“Ele prometeu que os subprefeitos seriam escolhidos consultando o povo de cada região. E ele não fez isso. Não tem uma administração regional do seu governo que tenha passado pelo crivo da população nas regiões. Ele não fez um governo para a periferia. Fez uma opção consciente. Governar para o povo é tirar da minoria, da qualidade de vida dos ricos”, comenta. “O Lula não andou dizendo que quem completa 60 anos e diz que é de esquerda está maluco? [Em 2006, o então presidente disse que ‘pessoa idosa esquerdista está com problema’] Eu já nasci de esquerda, pela minha história de vida pessoal, a miséria, a pobreza.”

 

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem