“Joice Hasselmann será de grande valia para a CPMI das Fake News”

Presidente da CPI das Fake News, o senador Ângelo Coronel (PSD-BA) afirma que a deputada pode ajudar investigações sobre milícias digitais

O presidente da CPMI das Fake News, senador Ângelo Coronel. (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

O presidente da CPMI das Fake News, senador Ângelo Coronel. (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

Política

“Não tenho medo da milícia, nem de robôs”, escreveu a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), nesta sexta-feira 18, como resposta a uma publicação do filho 03 do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro. “Não se esqueçam que eu sei quem vocês são e o que fizeram no verão passado”, ela escreveu.

Após ser expulsa da liderança do governo, Joice caiu atirando e denunciou publicamente a existência de milícias digitais ligadas à família da presidência. Ao site UOL, na quinta-feira 17, a deputada revelou saber de um esquema com pessoas espalhadas por todo o país e que parte delas recebe dinheiro para espalhar informações falsas na internet. As declarações de Joice mobilizaram os deputados David Miranda (PSOL-RJ) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP) a exigirem que a parlamentar preste depoimento oficial para expor o que sabe sobre a operação ilegal.

Entrevistado por CartaCapital, o presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, senador Angelo Coronel, também afirma que Joice tem muito a contribuir com as investigações sobre o esquema de perfis falsos. Para ele, como a deputada “andou no seio do bolsonarismo”, a CPMI está de portas abertas para as informações que ela pode revelar, principalmente, sobre quem banca esta operação.

“Ela não precisa ser convocada, nem convidada. A CPMI está à disposição dela”, diz o senador. Ele também diz que se solidariza com Joice pela expulsão da liderança do governo no Congresso. “Uma mulher que ajudou o governo e nesse momento é descartada como se descarta uma coisa inútil, renegada, abandonada, pisoteada.” Para ele, parte do PSL percebeu que as promessas da presidência da República não se cumpriram e resolveu despertar contra o governo.

Confira a entrevista.

CartaCapital: Como o senhor vê essas declarações?

Angelo Coronel: O que a Joice falou está revestido de verdade. Inclusive, a própria CPMI vai entrar nesse foco de investigar essas milícias distribuídas pelo Brasil e também no exterior. Agora, claro que a Joice, como uma ex-bolsonarista, pode ajudar muito a CPMI, já que ela conviveu esse tempo todo ao lado do presidente, e também ajudar a esclarecer onde é que se encontram essas milícias. Ela andou no seio do bolsonarismo, então, eu acho que ela vai ser de grande valia para a CPMI, para que a gente esclareça esse episódio de pessoas utilizarem robôs e milícias digitais para depreciar pessoas e instituições e influenciar resultado de eleições. Não podemos nos ater somente a eleições, temos que nos ater que elas são usadas para depreciar instituições brasileiras. Isso, nós temos que coibir. O Supremo Tribunal Federal também já tem investigação sobre isso e nós esperamos que, com essa CPMI, a gente esclareça e elimine de vez essas milícias, para que as pessoas possam expressar e ter o direito de votar e criticar por livre e espontânea vontade, e não induzidas por redes sociais, por perfis falsos de robôs.

CC: Então a CPMI vai convocar a deputada Joice Hasselmann?

AC: Pelo que eu conheço da Joice, uma mulher brava, guerreira e valente, acho que ela não precisa nem ser convocada nem convidada. A CPMI está à disposição dela, e a de qualquer outro parlamentar, seja da Câmara ou do Senado para ir lá falar, acusar ou defender aqueles que merecem ser acusados e defendidos. A Joice não precisa ser convidada. Ela será recebida na CPMI com total tranquilidade para que ela possa somar e que a gente consiga, com isso, deixar o Brasil livres de pessoas que acham que podem manietar, influenciar a mente das pessoas para influenciar em resultados ou queimar instituições.

“Como presidente, faço o cronograma das oitivas. Posso, sem nenhum problema, incluí-la para contribuir com a CPMI”, diz senador.

CC: O senhor vai ao menos sugerir a convocação da deputada?

AC: Se a deputada Joice tiver vontade e quiser contribuir na CPMI, nós vamos ver juridicamente qual o melhor caminho. Ao meu ver, de antemão, a CPMI está aberta para que ela possa ir a qualquer momento ajudar que a gente esclareça, por exemplo, quem bancou ou quem banca esses escritórios espalhados pelo Brasil afora e pelo exterior. Nós já temos indícios de como localizar, mas eu não tenho dúvida de que a contribuição da Joice será de grande valia para substanciar mais ainda o combate a esses escritórios clandestinos, pagos por alguns empresários para depreciarem seus alvos. Como presidente, eu sou magistrado. Se algum parlamentar fizer um requerimento de convite à deputada Joice, caberá ao plenário da CPMI deferir ou indeferir, ou seja, aprovar ou não. Ao meu ver, não há necessidade de um convite formal. Ela poderá marcar e, como presidente, eu que faço o cronograma das oitivas. Eu posso, sem nenhum problema, incluí-la para que ela possa externar suas convicções, seus sentimentos, e também o que ela pode contribuir para a CPMI.

CC: Se a deputada Joice Hasselmann sabia dessas informações e não contou antes, ela poderia ser considerada cúmplice das milícias digitais?

AC: Essa questão de cumplicidade das milícias digitais é uma questão jurídica. Como aconteceu antes de ela ser eleita, então, não existe nem a figura da prevaricação, já que ela não exercia nenhum cargo público à época das campanhas. Mas essa questão de cumplicidade é muito relativo. Tanto é que, nas delações premiadas, você fala o nome “premiada” por causa disso, pois há uma condescendência a mais àquelas pessoas que chegam lá e delatam aquilo que acham e que têm convicção de que é verdade.

CC: O senhor suspeita de que o presidente Jair Bolsonaro e sua família estejam ligados a milícias digitais?

AC: Olha, eu não sou de prejulgar. Seria leviano fazer um julgamento prévio. Mas o próprio presidente diz que o seu filho Carlos é o responsável pelas suas redes sociais. Então, se o Carlos é responsável pelas redes sociais do presidente e há suspeitas, nada como ele vir à CPMI para esclarecer se é verdade ou não a suspeita que paira sobre eles.

CC: O PSL já acusou a CPMI das Fake News de “CPI da Censura”. O senhor acha que o PSL se sente ameaçado de forma especial?

AC: Aí você precisa me perguntar qual dos dois “PSLs”. O PSL 1 ou o PSL 2? Porque o PSL do lado do governo diz que é CPI da Censura. Mas o PSL , hoje, contra o governo, já acha que não é CPI da Censura. Agora, eu acho o seguinte. Você combater perfis falsos e robôs que depreciam famílias e instituições, isso não é censura. É uma proteção à sociedade brasileira. Então, o intuito da CPMI é proteger a sociedade brasileira de pessoas que não têm coragem. São pessoas frouxas, que simplesmente colocam um nome falso para depreciar instituições. Eu por exemplo tenho recebido diariamente milhares de depreciação do meu nome por parte dessas milícias.

CC: Como o senhor está vendo a crise que envolve a deputada Joice Hasselmann?

AC: A Joice é uma pessoa que eu conheci esse ano, há aproximadamente nove meses. É uma mulher combativa e eu quero me solidarizar com ela por esse descaso e esse escanteio. Como se diz na Bahia, com esse canto de carroceria que o governo deu nela. Porque ela foi muito combativa no Congresso, uma mulher que ajudou o governo e nesse momento é descartada como se descarta uma coisa inútil. Ela que tão bem representa o Estado de São Paulo e, nesse momento, é renegada, abandonada, pisoteada, realmente é um ato que a gente não pode concordar.

CC: Por que o PSL está fazendo isso com ela?

AC: Quem está fazendo isso com ela é a presidência da República. Tem parte do PSL que concorda com as ações dela, mas na verdade o problema que ela está tendo com a presidência da República. É a divisão do PSL do Bivar e do Bolsonaro. Acho que é tudo questão de poder. Quem votou no presidente esperava ser prestigiado, ser mais atendido. Acredito que a partir do momento que esse atendimento não está chegando, as pessoas começam a encarar e ver que foram enganadas, que o que foi pregado em campanha não está retratando a realidade. Muitas vezes, algumas promessas não passaram de engodo. E as pessoas se despertam, porque ninguém pode ficar o tempo todo alienado e acorrentado. Na primeira oportunidade, os manietados e amordaçados se rebelam, quebram os grilhões, abrem sua voz e o seu peito e começam a mostrar que o Brasil precisa mudar. Mas não mudar na maneira que está hoje, pela perseguição e pela imposição. O Brasil precisa mudar com liberdade, e não com imposição.

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Repórter do site de CartaCapital

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