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Infiltrado no pasto

Como me fantasiei de gado e fui à Paulista acompanhar o discurso do capitão

Confissão. Do alto do carro de som, Bolsonaro pediu anistia e “pacificação”. Admitiu, porém, ter conhecimento da minuta golpista apreendida na casa de Anderson Torres – Imagem: Miguel Schincariol/AFP
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Recebi a convocação pelo ­Facebook: “Quem defende a democracia não foge à luta”. Naquele grupo, alguns nutriam grandes expectativas em relação aos rumos do movimento: “O agro e os caminhoneiros vão parar o Brasil”. Outros não disfarçavam o cansaço com as infrutíferas mobilizações anteriores, a exemplo dos patriotas goianos que pediam doações via Pix para financiar a viagem até São Paulo. “Caravana pela última vez”, anunciaram, em tom de súplica. Diante do esforço dos meus colegas na rede social, senti vergonha por ter cogitado usar o domingo para descansar, ainda mais vivendo tão perto do palco da batalha. Resgatei do fundo da gaveta uma desbotada camiseta amarela, envolvi o pescoço com uma flâmula verde-amarela e parti feito um foguete em direção à Avenida Paulista.

Bem… Era isso o que pretendia, mas o transporte coletivo não colaborou. Em São Paulo, aos domingos, não se paga mais a tarifa do ônibus, até porque se tornou quase impossível encontrar um circulando após o anúncio da gratuidade. Como de hábito, sobravam passageiros desamparados no terminal da Lapa. Meio sem jeito, um fiscal da ­SPTrans culpou o congestionamento causado pelo levante democrático. Contrariado, comprei o bilhete de trem. Não poderia decepcionar meus colegas goianos, que também poderiam estar presos no trânsito após uma desgastante viagem de quase mil quilômetros. Durante a baldeação na estação Barra Funda, percebi que a mobilização foi bem-sucedida. Os vagões do Metrô estavam repletos de patriotas, devidamente uniformizados com a camisa da CBF.

Ainda no metrô, um casal me alertou sobre uma sórdida conspiração a unir George Soros e um vilão apelidado de “Cabeça de Roll-On”

Exasperada, uma moça manifestava preocupação com a “presença de infiltrados” no ato, a exemplo do que acreditava ter ocorrido em Brasília em 8 de janeiro de 2023, quando “baderneiros do MST” teriam invadido as sedes dos Três Poderes, enquanto famílias cristãs ocupavam pacificamente os improdutivos gramados da Esplanada dos Ministérios. Ao meu lado, um simpático casal, Débora e Marcos, dizia se insurgir contra um tenebroso vilão apelidado de “Cabeça de Roll-On”. Esse “déspota”, segundo me contaram, estaria “mancomunado com George Soros” para prender Jair Bolsonaro. Não tive tempo de perguntar a motivação dessa sórdida conspiração internacional. Por qual razão o megainvestidor húngaro estaria interessado na captura do ex-presidente, que teve de entregar o passaporte à Polícia Federal no início do mês? Estava com a pergunta na ponta da língua, mas as portas se abriram e fomos arrastados pela multidão para fora do vagão.

Do lado de fora da estação, um ruidoso grupo não parava de repetir, aos berros: “Eu vim de graça, eu vim de graça”. Era uma provocação aos militantes de esquerda, que, segundo eles, só compareciam a manifestações mediante pagamento de “pão com mortadela”. Imaginei que o comentário poderia soar indelicado para os patriotas goianos. A vaquinha cobriria apenas as despesas do transporte ou também o lanchinho no trajeto? Inútil especular, até porque o pessoal já havia mudado o foco da cantoria: “Nossa bandeira jamais será vermelha, nossa bandeira jamais será vermelha!”

Cenas. Além da flâmula verde-amarela, só a bandeira de Israel era bem-vinda.Aline e Leidiana aproveitaram a ocasião para vender seus “geladinhos gourmets” – Imagem: Ronaldo Lages

O incômodo com a cor parecia uma verdadeira obsessão. Pobre do vendedor ambulante de camiseta escarlate, que não se atentou ao dress code da manifestação e acabou virando alvo de recorrentes piadas e provocações. Naquela massa verde-amarela, somente outras duas cores eram bem-vindas: o azul e branco da bandeira de Israel, efusivamente aplaudida e reverenciada. Cartazes com a estrela de Davi quase sempre apareciam com mensagens em inglês: “Freedom”, “Sorry”… O pedido de desculpas era pelas declarações do presidente Lula, que nos últimos tempos intensificou as críticas ao morticínio de palestinos na Faixa de Gaza. “Legítima defesa a ataques terroristas”, diziam alguns. Outros apelavam para uma confusa associação religiosa, a exemplo da senhora que viralizou nas redes sociais por defender com entusiasmo o Estado judeu: “Somos cristãs como Israel”. Do alto do carro de som, a ex-primeira-dama ­Michelle ­Bolsonaro contribuiu para reforçar o sincretismo religioso: “Abençoamos Israel em nome de Jesus”.

Muitos patriotas fizeram questão de posar para fotografias na frente de um mural com as fotografias de Bolsonaro e do premier israelense, Benjamin ­Netanyahu. Levou algum tempo para a turma perceber que se tratava de uma pegadinha de infiltrados. Entre os dois retratos, havia uma inscrição em hebraico: “רצח עם” (“genocida”, segundo esclareceu o Google Tradutor). Além das cores, os manifestantes pareciam obcecados em tirar selfies. Na pós-modernidade, explica o sociólogo Gabriel Rossi, especialista em Marketing Político pela ESPM, as manifestações têm forte caráter estético. “Isso tem a ver com o ‘mundo instagramável’. As pessoas vivem uma experiência e correm para postar nas redes e mostrar aos amigos. Dessa forma, elas se posicionam e, ao mesmo tempo, buscam a aceitação do grupo.”

Havia ainda um sincretismo de costumes. Enquanto a ex-primeira-dama recitava versos bíblicos e o pastor Silas Malafaia apontava Jair Bolsonaro como vítima de uma “engenharia do mal, ao arrepio da lei e da Constituição”, boa parte do público acompanhava o discurso bebericando cerveja, até porque todos são filhos de Deus e o calor estava mesmo infernal. Governadores e parlamentares foram bem mais comedidos que Malafaia nos discursos, evitando qualquer declaração que pudesse ser interpretada como ataque ao Judiciário ou às instituições democráticas. De olho no eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, preocupado com a elevada rejeição ao ex-presidente na capital paulista, o prefeito Ricardo Nunes marcou presença no ato, mas manteve a discrição. Entrou mudo e saiu calado.

Muitos caíram na pegadinha e posaram para fotos à frente de um mural que, em hebraico, apresentava Bolsonaro e Netanyahu como “genocidas”

O tom ameno dos discursos causou estranhamento na militância bolsonarista, que em outros tempos se plantou na porta de quartéis para pedir intervenção militar no País. “Estou achando a manifestação muito passiva”, comentou Érica Rane, que veio de Vila Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, para renovar seu apoio ao capitão. A maior parte do público entendeu, porém, que não era o momento de esticar a corda. Onipresentes em outros momentos, os cartazes com ataques a Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e à “ditadura do Judiciário”, desapareceram.

Por volta das 3 da tarde, quando Bolsonaro finalmente tomou o microfone para fazer seu discurso, a multidão foi à loucura. “Mito, mito, mito”, urrava, em competição com os estrondos de fogos de artifício. Ao meu lado, duas senhoras com a camiseta do “PL Mulher”, a divisão feminina do partido do ex-presidente, tentaram emplacar outro slogan a plenos pulmões: “Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!” Naquele momento, havia 750 mil manifestantes na Avenida Paulista e ruas adjacentes, segundo as confiabilíssimas estimativas da Polícia Militar de São Paulo, estado governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Já pesquisadores da USP analisaram imagens aéreas e apontaram a presença de 185 mil patriotas. Pouco importa quem chegou mais próximo da realidade. O ex-capitão provou ainda ter capacidade de levar multidões às ruas.

Bolsonaro estava, porém, irreconhecível no carro de som. Orientado por advogados e conselheiros a evitar ataques ao Judiciário ou qualquer declaração que pudesse inflamar a turba, o ex-capitão fez um balbuciante discurso de rendição. “O que eu busco é a pacificação, é passar uma borracha no passado. É buscar uma maneira de nós vivermos em paz. É não continuarmos sobressaltados”, disse. “Nós já anistiamos no passado quem fez barbaridades no Brasil. Agora nós pedimos a todos os 513 deputados, 81 senadores, um projeto de anistia para que seja feita justiça em nosso Brasil.”

Holofotes. Muitos disputavam a atenção dos manifestantes, mas somente o carismático cão Clóvis conseguiu a façanha sem esforço – Imagem: Ronaldo Lages

A anistia seria para “aqueles pobres-coitados que estão presos em Brasília”, mas indiretamente o beneficiaria, uma vez que a PF investiga o envolvimento de Bolsonaro na coordenação da fracassada tentativa de golpe no 8 de Janeiro – e também um pouco antes, quando o ex-capitão discutiu com auxiliares os termos de uma minuta de decreto, para anular o resultado das eleições de 2022 e prender Alexandre de Moraes. E foi ao comentar esse episódio específico que o ex-presidente enfiou os pés pelas mãos.

“Agora, o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de Estado de Defesa. Golpe usando a Constituição? Tenham a santa paciência. Golpe usando a Constituição”, disse Bolsonaro no carro de som, antes de prosseguir: “Deixo claro que estado de sítio começa com o presidente da República convocando os conselhos da República e da Defesa. Isso foi feito? Não. Apesar de não ser golpe o estado de sítio, não foi convocado ninguém dos conselhos da República e da Defesa para se tramar ou para se botar no papel a proposta do decreto do estado de sítio”. Para investigadores da PF, esta seria a prova de que ele teria acesso e conhecimento sobre o conteúdo do ­documento apreendido na casa do ex-ministro ­Anderson Torres.

Um senhor demonstrava preocupação com o futuro do ex-presidente, mas confidenciou que ele próprio estava enrascado por marcar presença no ato. Por Bolsonaro, cortou relações com os netos e um filho que mora na Austrália, todos esquerdistas, por quatro anos. Ao reatar laços, percebeu que o distanciamento provocou mágoas indeléveis. “Meus filhos e netos têm de me respeitar.” Outro, mais agitado, aguardava com ansiedade a subida ao trio elétrico do recém-eleito presidente argentino Javier ­Milei, que, segundo informações que recebeu pelo ­WhatsApp, viera ao Brasil para apoiar Bolsonaro. “Milei tá levantando a ­Argentina”, asseverou, minimizando indicadores econômicos ainda desfavoráveis ao novo mandatário. A inflação, que já era altíssima antes de assumir o posto, aumentou de 190% ao ano, em novembro do ano passado, para mais de 250% ao ano em janeiro de 2024.

Um senhor aguardou com ansiedade o discurso de Javier Milei, cuja presença teria sido confirmada em seu grupo no Zap

No ato bolsonarista, também havia quem estivesse ali para faturar uns trocados. Em uma barraquinha improvisada, um livreiro oferecia aos transeuntes os exemplares da saga O Mito I, II, III e IV. Amigas de infância, as jovens Leidiana da Silva e Aline Rosa atraíram grande clientela com seus “geladinhos ­gourmets”, versão mais encorpada e sofisticada dos tradicionais geladinhos feitos com suco em pó. As unidades tinham preços que variavam de 8 a 15 reais. “É a primeira vez que vendemos em manifestação. Viemos para lutar pela democracia do nosso País e aproveitamos para oferecer nossos produtos. Quem empreende vê oportunidade em tudo”, ensina ­Aline. Já a colega Leidiana, formada em Ciências Contábeis, tem planos de montar uma confeitaria, pois também vende doces. “Se vendermos tudo, consigo mais ou menos 700 reais. É um bom dinheiro para quem vem lá da Zona Leste”.

Em meio a tantos astros em busca de cinco minutos de fama, de um habilidoso dançarino com óculos escuros a um cover de Tio Sam com trajes em verde e amarelo, quem parecia fazer mais sucesso era o carismático cão Clóvis, um exemplar da raça Whippet. Vestindo uma versão canina da camisa da CBF, Clóvis não precisou fazer mais nada para atrair a atenção das câmeras de celular e tornar-se uma celebridade instantânea. •

Publicado na edição n° 1300 de CartaCapital, em 06 de março de 2024.

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