Hoje a favor da democracia, o MBL é a mãe do bolsonarismo

O movimento que se diz livre infectou a política brasileira de autoritarismo, mentiras e violência

Cunha, oposicionistas e integrantes de movimentos como Revoltados Online e Movimento Brasil livre em suposto ato contra a corrupção, em 2015.

Cunha, oposicionistas e integrantes de movimentos como Revoltados Online e Movimento Brasil livre em suposto ato contra a corrupção, em 2015.

Opinião,Política

Filho feio não tem pai. Às vezes, nem mãe. E eis que o bolsonarismo foi abandonado por seus progenitores, como um bebê largado em um cesto na porta do convento, bilhete sobre a manta puída: “perdão, não tenho condições de criá-lo”. Não se deixem enganar. Essa criança não nasceu da geração espontânea, não acordou na chocadeira elétrica. Aos bolsonaristas que se sentirem rejeitados, sugiro recorrer a um teste de DNA no programa do Ratinho. Seria uma oportunidade de lavar a roupa suja em rede nacional e perguntar a quem os pariu: “Por quê?”

Eu começaria a sessão de terapia familiar com o MBL, a mãe do bolsonarismo. No domingo 12, o movimento irá às ruas em “defesa da democracia” e a favor do impeachment de Jair Bolsonaro. Sempre pretensiosos, Kim Kataguiri e sua turma declaram-se prontos a liderar uma coalizão suprapartidária nos moldes das Diretas Já. Comovente. Muitos de boa-fé, outros nem tanto, aceitaram o convite, sob o argumento defensável de que o mais urgente é deter a ameaça golpista. O PT e o PSOL preferiram não participar.

Os golpistas de ontem viram os democratas de amanhã. Mas eu não esqueço: Kataguiri e seus associados abriram a caixa de Pandora

Atribuo a adesão de forças progressistas à influência do pensamento católico na esquerda latina. Supostos convertidos, cristãos novos, têm o estranho poder de gerar uma epifania nesses segmentos, a constatação do milagre que prova a fé. Um mea culpa, ainda que falso, ainda que oportunista, ainda que insuficiente, ainda que tardio, basta para se perdoar os pecados.

A esquerda católica está sempre parada na curva da estrada de Damasco na torcida para o cavalo derrubar o atrabiliário coletor de impostos e o converter em um pregador da mensagem. Sonha com o apoio da Rede Globo a Lula, aplaudiria uma estátua de Gilmar Mendes em praça pública, regozija-se com os comentários de Marco Antônio Villa. Até chama de companheiro um escroque, fundador de um site cujo nome remete a um determinado país e a três números, que no verão passado disseminava fake news e apoiava a perseguição a jornalistas que sempre remaram contra a maré. São vícios insanáveis e, diria Mino Carta, indicativos da índole brasileira.

Nessa toada, não me espantaria se o MBL se transformasse em um guardião das liberdades. A desfaçatez costuma ser premiada no Brasil. Os golpistas de ontem viram os democratas de amanhã. Mas eu não esqueço: Kataguiri e seus associados abriram a caixa de Pandora. Não diria que gestaram o ovo da serpente. Eram pequenas serpentes que regurgitaram cobras maiores e mais venenosas.

As manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff organizadas pelo movimento, o primeiro a raptar a bandeira do Brasil e a camisa da CBF, tornaram-se o canteiro do qual brotaram os defensores da “intervenção militar”. A perseguição moralista e pudica a artistas acusados de “sexualizar” a infância é obra do movimento, assim como a disseminação do “Escola Sem Partido”.  O Kit Gay e a mamadeira de piroca não passam de memes. A filósofa Márcia Tiburi mudou-se do Brasil para escapar da perseguição fascitóide do MBL. Agressões a ex-ministros do PT e a “comunistas” como Chico Buarque eram comemoradas e divulgadas nas redes sociais do grupelho. Os policiais militares que juram lealdade a Bolsonaro eram tratados como celebridades nos protestos.

Adivinha com quem os bolsonaristas aprenderam a tática de intimidar jornalistas nos protestos? Em uma das manifestações de 2015 na Avenida Paulista, o então editor do site de CartaCapital, José Antônio Lima, correu sérios riscos físicos depois de um dos líderes do MBL apontá-lo à multidão. Lima, que desempenhava seu trabalho com dignidade e profissionalismo, teve de sair escoltado.

Evitou-se algo pior naquele dia, mas, desde então, os ataques a repórteres se tornaram habituais, parte do espetáculo, ápice da catarse desmiolada. Alguém poderia perguntar: como a tentativa de calar a imprensa se encaixa nos princípios de quem diz defender um Brasil Livre?

O MBL, diga-se, sempre nutriu uma obsessão por CartaCapital. Quando se resumiam a um grupo de arruaceiros, ainda sem a exposição favorável na mídia e o financiamento do mercado financeiro, os líderes do movimento tinham por hábito gravar vídeos nas imediações do prédio onde ficava a redação. A acusação era a costumeira: a revista recebia dinheiro indevido do governo federal para apoiar o PT e fechar os olhos à corrupção.

Ironia. Consumado o impeachment de Dilma Rousseff, o MBL perdeu a serventia para os donos do poder e a imagem de “meninos de bem” caiu por terra. A mídia e a Justiça, de repente, não mais do que de repente, passaram a se interessar pela contabilidade da agremiação. Bingo. Vários dos “virtuosos” fundadores do MBL enfrentam atualmente processos judiciais por peculato, fraude e outros crimes. Renan Santos, parça de Kataguiri, responde sozinho a mais de 60 ações.

Quem tem mãe, tem avó. A árvore genealógica ficaria incompleta sem o PSDB paulista. Segundo investigações do Ministério Público, dinheiro público foi repassado ao movimento pelos governos tucanos para financiar as manifestações pró-impeachment.

O objetivo era tão simples quanto equivocado: exterminado o PT, o tapete vermelho na rampa do Palácio do Planalto seria naturalmente estendido ao PSDB, adversário em seis eleições presidenciais, encarnação do antipetismo.

No fim, os algozes pagaram um preço mais alto do que as vítimas. Apesar de açoitado diariamente no pelourinho desde o chamado Mensalão, os petistas vislumbram uma chance real de voltar ao poder com Lula em 2022. O tucanato, ao contrário, mal consegue escapar da própria ruína. Acreditou que iria cavalgar o bolsonarismo até perceber a sela nas costas.

O MBL, por sua vez, foi suplantado em violência, nonsense e ignorância pela “nova política” de Carla Zambelli e Daniel Silveira. Páreo duro. Atirados ao mesmo balaio “comunista” do PT, Lula, PSOL, Globo, OMS, papa Francisco, Felipe Neto e Anitta, resta buscar um lugar ao sol na oposição. Em meio ao caos, irão travar uma batalha particular entre criador e criatura. Como ressalta José Sócrates, colunista de CartaCapital e ex-primeiro-ministro de Portugal, trata-se de uma guerra civil na direita. Neste caso, além de torcer pela briga, só tenho uma coisa a dizer ao MBL: toma que o filho é teu.

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Redator-chefe da revista CartaCapital

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