Glenn: A ida de Freixo para o PSB mostra uma nova face do PSOL

Por que um partido que frequentemente evitou e condenou alianças pragmáticas aceitou perder uma de suas estrelas para a centro-esquerda?

Glenn: A ida de Freixo para o PSB mostra uma nova face do PSOL

Glenn Greenwald,Política

O deputado Marcelo Freixo, uma das estrelas do PSOL, anunciou hoje no Twitter que deixou o partido do qual fazia parte desde 2005. Depois de ocupar por dez anos o cargo de deputado estadual pelo partido e ter sido eleito, em 2018, deputado federal, Freixo ingressa no PSB, de centro-esquerda, em preparação para se candidatar a governador do Rio de Janeiro em 2022.

O movimento de Freixo não é surpreendente — ouvem-se rumores há semanas. É possível desdobrar em três os fundamentos lógicos dessa escolha. Em primeiro lugar, é difícil vencer no Rio de Janeiro quando se é percebido como um candidato de esquerda – mesmo no auge, o PT nunca conseguiu eleger um prefeito ou governador do Rio – e concorrer com um partido de centro-esquerda é politicamente vantajoso.

Em segundo lugar, Freixo, para maximizar suas chances, precisa criar alianças com partidos de centro-esquerda e até mesmo de centro — que não seriam permitidas dentro do PSOL. Em uma entrevista para Veja, Freixo citou essa meta como parte de seus motivos:

No PSB terei a chance de fazer uma aliança mais ampla, com partidos progressistas e de centro, para enfrentar o grupo político que faliu o Rio e entranhou a corrupção no estado

E, terceiro, tudo isso é parte da construção mais ampla de uma nova aliança de esquerda e centro-esquerda, envolvendo a suposta fusão do PSB e do PCdoB, que formará uma “frente ampla”, a fim de apoiar a candidatura de Lula e substituir o bolsonarismo por uma união da esquerda pró-democracia.

O que é notável, entretanto, é que nada disso poderia acontecer sem o consentimento do PSOL. De acordo com a lei eleitoral brasileira, um deputado federal eleito pode perder seu mandato se, durante os primeiros três anos, deixar o partido que o elegeu. Com a saída de Freixo antes desse prazo, o partido ou suas duas suplentes (as professoras universitárias Tatiana Roque e Luciana Boiteux) teriam o direito legal de exigir a expulsão de Freixo do Congresso.

 

A maneira como Freixo deixa o PSOL sinaliza que ele tem o aval das lideranças partidárias e de suas duas suplentes. Freixo não deixaria o partido se isso significasse perder seu mandato. Ele precisa do salário de deputado (que usa para sustentar a família e os pais doentes) e da escolta parlamentar — ainda necessárias por seu corajoso trabalho de enfrentamento e investigação das milícias cariocas. Ele reconheceu que tudo foi feito em acordo com os líderes do PSOL: “Essa decisão foi longamente amadurecida e tomada após muito diálogo com dirigentes nacionais e estaduais do partido, a quem agradeço pelas reflexões fraternas que compartilhamos nesse processo.”

Por que o PSOL, um partido famoso pelos princípios, que frequentemente evitou e condenou alianças pragmáticas e estratégicas no passado – foi, aliás, criado em oposição a tais alianças – aceitaria a ida de Freixo a um partido de centro-esquerda?

Porque o desastre total do governo Bolsonaro e os crescentes perigos apresentados por seu movimento alimentaram um pragmatismo que não era visto na esquerda brasileira desde pelo menos 2004, quando dissidentes de esquerda do PT deixaram o partido – em protesto contra compromissos neoliberais e escândalos de corrupção – para formar o PSOL. Mesmo há quatro anos, seria impensável que o PSOL se contentasse em perder uma cadeira no Congresso e concordar com a migração de um de seus deputados para um partido de centro-esquerda.

Mas a era Bolsonaro mudou tudo no Brasil, incluindo alas da esquerda antes resistentes a concessões pragmáticas. Nem todo o PSOL estará dispostos a apoiar o candidato do PSB a governador, mesmo que seja Freixo. Setores do partido continuam exigindo adesão a uma postura de princípio em vez de pragmatismo: como evidenciado pela prolongada luta interna que culminou com a candidatura de Luiza Erundina no início deste ano à presidência da Câmara, em vez da candidata consensual anti-Bolsonaro Baleia Rossi (MDB-SP), bem como nas atuais conversar sobre a candidatura do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) à presidência em 2022.

Mas, no geral, o PSOL se transformou —  ao menos temporariamente, mas claramente — em nome de derrotar Bolsonaro. O fato de estarem dispostos a ver seu político mais influente e bem-sucedido da última década trocar o partido por um de centro-esquerda, e ainda apoiá-lo (ao menos implicitamente) ilustra uma mudança radical e importante na identidade do partido.

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Colunista de CartaCapital

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