Política

Governo pós-Palocci

Especialistas divergem sobre perfil de nova ministra

por Matheus Pichonelli e Fernando Vives — publicado 07/06/2011 20h00, última modificação 14/06/2011 17h47
Para Otaciano Nogueira, da UnB, Gleisi Hoffmann tem vantagem por não acumular "passivo político". Vera Chaia, da PUC-SP, avalia que falta à senadora experiência no Executivo
Especialistas divergem sobre nova ministra

Para Otaciano Nogueira, da UnB, Gleisi Hoffmann (de branco) tem vantagem por não acumular "passivo político". Vera Chaia, da PUC-SP, diz que falta à senadora experiência no Executivo. Foto:Agência Brasil

Cientistas políticos consultados por CartaCapital divergem sobre a escolha de Dilma Rousseff para a sucessão de Antonio Palocci na Casa Civil. Para Otaciano Nogueira, professor aposentado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a opção pela senadora Gleisi Hoffmann é acertada por dois motivos: ela tem capacidade de interlocução política e baixo “passivo político”, qualidades que, segundo o especialista, faltavam ao ex-ministro.

“Ela tem condições de fazer uma interlocução política melhor do que fazia o Palocci. O próprio ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, não tem boa relação com a Câmara. A Gleisi não tem um passado político, o passivo dela é pequeno”, explica o professor. “O Palocci entrou com um passivo enorme desde que foi prefeito de Ribeirão Preto, teve casos traumáticos. A Gleisi deve ser mais discreta: é uma senadora de primeiro mandato, ou seja, se relaciona com a Casa. É um perfil que Dilma está precisando no momento”.

Já a coordenadora de pós-graduação em ciências sociais da PUC-SP, Vera Chaia, vê com cautela a escolha de uma novata para a função. “Talvez, pela vivência dela dentro do partido, por ser mulher do Paulo Bernardo, seja um aspecto positivo de conhecimento das estruturas internas de Brasília. Mas o desempenho dela, só vendo”.

A professora avalia que o próprio Paulo Bernardo teria um perfil mais adequado para a função, por ter acumulado experiência nos dois governos do PT e por ter trânsito no Congresso. “Ele tem mais esse perfil. No governo Lula, não havia um ‘senão’ ao trabalho dele”.

Erros

A , se tornou “inevitável”, na avaliação de Vera Chaia. Autora do estudo “Democracia e Escândalos Políticos”, a especialista avalia que faltou cuidado ao petista em sua segunda grande chance na vida pública – após a queda em meio ao escândalo da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. “Ele deveria ter aprendido”, diz a especialista, que comparou a reabilitação de Palocci à de José Roberto Arruda – que em 2001 violou o painel do Senado e, menos de dez anos depois, deixou o governo do DF em meio ao “mensalão do DEM”. Chaia considera equivocado o arquivamento do caso Palocci, pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e diz que “muitas coisas ainda precisavam ser esclarecidas”. “Eu acho totalmente antiético você passar informações privilegiadas para determinados setores quando o partido dele está no governo”.  

A segunda passagem de Palocci pelo governo federal, desta vez, durou seis meses e sete dias. Bastaram três semanas desde que foi revelado seu aumento patrimonial, em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, para que ele caísse logo na primeira crise da gestão Dilma Rousseff – que, na avaliação de Vera Chaia, “titubeou” e demorou para agir.

A atitude de Dilma, segundo a especialista, foi motivada por “lealdade e respeito” ao ministro que havia coordenado a campanha presidência. “Não tivemos nem tempo para avaliar o que foi essa passagem do Palocci pela Casa Civil. Não deu tempo de deixar a marca dele”.

Para Otaciano Nogueira, o maior erro de Palocci foi ter se negado a dar detalhes sobre seu enriquecimento. “Ele deu uma entrevista na qual falou muito, mas não disse nada. O que poderia servir de defesa é dizer quanto a firma faturou e quem eram os clientes. Ele usou uma desculpa que não cabe pra quem é homem público. Se você tem relação com a política pública e presta serviço de consultoria, ele está obrigado a esclarecer hoje. Isso foi a causa (da queda)”.

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