Eleições 2020: Campo progressista enfrenta disputas acirradas nas capitais

Em São Paulo, Guilherme Boulos esforça-se para manter a onda positiva que o levou à disputa com o prefeito Bruno Covas nesta reta final

Fotos: Kelly Furtado/Band

Fotos: Kelly Furtado/Band

Política

O segundo turno das eleições municipais, de modo geral, tende a confirmar os movimentos do primeiro: a aposta na política tradicional e a vantagem de quem ocupa o poder. Os dez dias de horário gratuito no rádio e na televisão, período mais curto da história, e as restrições às campanhas impostas pela pandemia dificultam as viradas, mas há espaço para surpresas e novidades.

 

 

A disputa mais acirrada e embolada dá-se no Recife. A petista Marília Arraes terminou o primeiro turno e entrou na primeira semana do segundo em uma onda crescente. O último Datafolha divulgado antes do fechamento desta edição, com entrevistas colhidas entre 17 e 18 de novembro, davam a Marília uma vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o primo João Campos, do PSB, representante da situação. A luta familiar descambou para acusações mútuas e uma enxurrada de fake news, das quais a petista tem sido a principal vítima. O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco chegou a determinar que a coligação de Campos tirasse do ar uma propaganda na qual acusa Arraes de ser contra o ProUni municipal e a Bíblia, citando uma crítica dela ao costume de ler passagens do livro cristão na tribuna da Câmara de Vereadores. Há poucos dias foram distribuídos na cidade panfletos apócrifos com a foto dela e os dizeres: “Cristão de verdade não vota em Marília Arraes. Veja tudo que Marília defende: legalização das drogas, aborto, ideologia de gênero, tirou a Bíblia da Câmara do Recife, pertence ao PT que persegue os cristãos em todo o Brasil, votou contra o perdão das igrejas”. O PSB nega a autoria do material.

 

Boulos tem reduzido a diferença em relação a Covas e aposta na onda nos dias finais da campanha

 

A guerra por alianças também rende problemas. O caso mais representativo é o do deputado Túlio Gadelha, do PDT. Escanteado pelo partido na disputa, por conta de um acordo com o PSB, Gadelha desobedeceu à determinação da legenda e declarou apoio a Arraes. Virou embaraço. Nas redes sociais, o deputado afirmou que o partido de Campos teria procurado seu assessor para tentar “negociar” o seu silêncio no segundo turno. O assessor desmentiu, pediu exoneração e abriu um Boletim de Ocorrência. Em paralelo, foi divulgado um áudio atribuído a Gadelha, em que ele teria acusado Marília Arraes de lhe ensinar a fazer a “rachadinha”, o confisco de salários de servidores ligados ao gabinete. Ele negou e disse tratar-se de fake news do PSB. A baixaria vai funcionar? A ver. Na quarta-feira 25, o Ibope divulgou nova pesquisa: Campos aparece numericamente à frente da prima, 51% a 49%. As campanhas esperam os próximos levantamentos.

Em São Paulo, Guilherme Boulos esforça-se para manter a onda positiva que o levou à disputa com o prefeito Bruno Covas nesta reta final. A vantagem do tucano tem caído. Segundo o Datafolha da terça-feira 24, a diferença em votos válidos seria de 55% a 45% em favor de Covas. No Ibope da quarta 25, ela é um pouco maior: 58% a 42%. A chegada ao segundo turno, com um porcentual acima das expectativas, animou a militância do PSOL e dos partidos progressistas. Pesa ainda a adesão expressiva de um amplo arco de líderes políticos, de Lula a Ciro Gomes, personalidades e artistas. Com mais tempo na tela, entre debates, horário eleitoral e noticiário, Boulos cresce entre os indecisos e lidera com folga entre os mais jovens, de até 34 anos. Covas é o preferido dos mais velhos. Entre quem tem de 45 a 59 anos, o tucano lidera por 58% a 42%, mesmo nível das pesquisas anteriores. Entre aqueles com 60 anos ou mais, chega a 65%, contra 24% de Boulos. A abstenção por conta da pandemia, que reduziu no primeiro turno o potencial eleitoral do tucano, tenderia a prejudicá-lo mais uma vez. A morte de João Alberto Silveira de Freitas, o Nego Beto, espancado até a morte por um segurança e um policial militar à paisana em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, não deixa, por sua vez, de provocar efeitos políticos na capital paulista, como nas demais disputas Brasil afora. Boulos cresceu 8 pontos porcentuais entre aqueles que se declaram pretos. Entre os homens de menor renda cresceu 10 pontos. Segundo o cientista político Claudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas, não está descartada a possibilidade de uma virada nas urnas. “Boulos continua a crescer, é preciso olhar as tendências. Uma virada neste caso é mais provável, mas ainda não é fácil. Tende a ser uma disputa muito apertada.”

A candidatura em Porto Alegre de Manuela d’Ávila, do PCdoB, uma das mais celebradas pelo campo progressista, corre contra o tempo para virar o jogo. Se, no primeiro turno, as pesquisas indicavam uma ampla margem de Manuela que não se confirmou nas urnas, as sondagens mais recentes favorecem o rival Sebastião Melo, do MDB. O ex-vice-prefeito, segundo o Ibope, tem cerca de 10 pontos de vantagem nos votos válidos. Para reverter essa tendência, a candidata investe em aparições massivas na imprensa, e até montou um movimento com 40 pontos de mobilização permanentes na capital gaúcha. Bandeiraços e panfletagem repetem-se ao longo do dia. O mote é incentivar a militância a “virar votos” e convencer mais eleitores a optar pela candidata do PCdoB.

 

Baixarias e fake news dominam o segundo turno. Manuela d’Ávila e Marília Arraes são as maiores vítimas

 

No Rio de Janeiro, a troca no Palácio da Cidade é dada como certa. Eduardo Paes, do DEM, mantém cerca de 70% dos votos válidos em todas as pesquisas, enquanto o prefeito Marcelo Crivella, do Republicanos, mal ultrapassa 30%. Diante deste cenário, Crivella dobrou a aposta no pânico moral e em fake news recicladas contra Paes. O prefeito chegou a divulgar um vídeo no qual afirma – sem evidências – que o adversário havia negociado com o PSOL a chefia da Secretaria de Educação. Em consequência, mentiu o pastor, a “pedofilia nas escolas” viraria política pública. Na tevê, a campanha de Crivella mostrou imagens que pintam Paes como um candidato que, além de apoiar o kit gay, defende a “ideologia de gênero” e a legalização das drogas. O demista revidou. Deixou de criticar Crivella apenas no campo da gestão pública e agora aponta o rival, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, como “o pai da mentira”, um dos apelidos do diabo. A expressão foi usada em debates e tem sido martelada pelo ex-prefeito na internet. A campanha também passou a enumerar os “sete pecados” do atual prefeito: incompetência, omissão, falsidade, fraqueza, hipocrisia, “trairagem” e mentira.

A 500 quilômetros dali, em Vitória, uma aliança não muito explícita tenta impedir a chegada ao poder de um típico bolsonarista. O delegado Lorenzo Pazolini, do Republicanos, enfrenta o petista João Coser, ex-prefeito por dois mandatos. Pazolini aparece nas pesquisas com uma leve vantagem, 53% a 47% do rival, segundo a pesquisa Ibope da terça 24. A diferença era maior no início do segundo turno. Deputado estadual, o delegado goza da intimidade do pastor e ex-senador Magno Malta e não esconde sua admiração por Bolsonaro. Em junho, ele e outros parlamentares simpáticos ao presidente fizeram uma “visita-surpresa” a um hospital de campanha do governo do estado em meio à pandemia. A cena deu-se um dia depois de Bolsonaro pedir, em uma live, que seus seguidores invadissem e filmassem hospitais para “averiguar” o número de leitos ocupados. Pazolini integrou ainda a comitiva “pró-vida” que tentou impedir que uma garota de 10 anos grávida, há anos estuprada pelo tio, interrompesse a gestação. Agora, como a maioria dos candidatos associados a Bolsonaro, tenta se descolar do ex-capitão. Do outro lado, uma “força-tarefa” acoplou-se à campanha de Coser. Além do apoio de caciques políticos locais, o petista conta com o apoio de artistas como Chico Buarque, Gregório Duvivier, Caetano Veloso e Zélia Duncan. Coser é, ao lado de Marília Arraes, o único candidato do PT a disputar uma capital no segundo turno. O partido projeta vencer em algumas cidades de meio porte, entre elas a paulista Diadema, a carioca São Gonçalo e as mineiras Juiz de Fora e Contagem.

Outros dois policiais disputam em Fortaleza e em Belém. Na capital cearense, o médico e deputado estadual José Sarto, do PDT, caminha para impor a mais expressiva derrota a um bolsonarista neste segundo turno. Apoiado por dezenas de partidos, do PT ao DEM, Sarto aparece com 60% dos votos válidos, contra 40% do Capitão Wagner, um dos líderes dos motins dos policiais no estado. Deputado federal, o capitão, como os demais, tenta agora descolar-se da imagem de Bolsonaro, sem muito sucesso. Na capital paraense, a disputa é voto a voto. O ex-prefeito Edmilson Rodrigues, do PSOL, enfrenta o Delegado Eguchi, do Patriota, grande surpresa da disputa na cidade (ele superou José Priante, do MDB, primo do governador Hélder Barbalho e que até às vésperas do primeiro turno aparecia como o favorito a enfrentar Rodrigues no embate final). Sondagem do Ibope e da TV Liberal, afiliada da TV Globo, dá a Rodrigues 45% das intenções de voto, enquanto Eguchi aparece com 43%. Esta reta final é pura emoção.

 

Publicado na edição n.º134 de CartaCapital, em 27 de novembro de 2020.

 

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