‘Doria e Bolsonaro são dependentes em relação à vacina’

O sanitarista Claudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa, avalia o impacto da politização sobre a corrida para aprovar um imunizante

O médico sanitarista Cláudio Maierovitch (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O médico sanitarista Cláudio Maierovitch (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Política,Saúde

Na última quinta-feira 18, o ministro do STF Ricardo Lewandowski decidiu em favor da vacinação obrigatória – mas não forçada. Também autorizou a aquisição de imunizantes estrangeiros caso a Anvisa não se manifeste em 72 horas.

 

 

 

A decisão acirrou uma já acalorada disputa cujos protagonistas são o presidente Jair Bolsonaro, o governador paulista João Doria e a vacina de origem chinesa do Instituto Butantan.

A rivalidade política colocou em polos opostos, de um lado, o Ministério da Saúde e as agências sanitárias. E de outro, parlamentares, governadores e cidadãos ansiosos por uma dose do imunizante.

Para o médico sanitarista da Fiocruz Brasília Cláudio Maierovitch, que dirigiu a Anvisa entre 2003 e 2005, o diálogo ruim prejudica o andamento de um processo complexo. “Todos os níveis envolvidos deveriam conversar diariamente. Começando pelas equipes do Butantan e da Anvisa” diz,

Mais recentemente, contudo, a troca de acusações tem dados lugar a uma corrida. O governo tenta adiantar as negociações com a Pfizer e, pressionado pelo STF, apresentou um controverso plano de imunização. Se tudo correr bem, calcula, a maioria dos brasileiros estará imunizado antes do fim do ano que vem.

“Mas isso é uma incerteza. Depende dos testes, da disponibilidade, da produção, das compras, da logística sanitária.”

Confira a entrevista a seguir.

 

CartaCapital: Haverá vacina para todos?

Claudio Maierovitch: O tempo hábil é a chave dessa questão. O nosso tempo hábil já passou há muito tempo. Era o tempo de um plano nacional de enfrentamento à pandemia. A vacina é um componente. Passará a ser fundamental mas, sozinha, não acaba com a doença. Perdemos várias oportunidade de ter um plano. Agora, o tempo hábil será o tempo possível.

 

CC: Quando, segundo seus cálculos?

CM: Talvez, até o fim de 2021, consigamos ter a maioria da população brasileira vacinada duas vezes. Mas isso é uma incerteza. Depende dos testes, da disponibilidade, da produção, das compras, da logística sanitária para transportar vacina para o país inteiro, conservá-las adequadamente, fazer a quantificação de quanto precisa cada lugar, controlar quem recebe ou não a vacina, treinar muitos milhares de profissionais… Tudo isso tem que funcionar como vários relógios encadeados uns nos outros. Vamos chegar lá, não tenho dúvidas. Pode demorar mais do que gostaríamos. Espero que tenhamos paciência pra chegar lá sem continuar fazendo absurdos.

 

CC: Quais as consequências da disputa política em torno da vacina?

CM: Essa disputa dificultou o diálogo entre dois atores que precisam agir juntos, Doria e Bolsonaro são absolutamente dependentes nessa história. O fracasso de um deve significar o fracasso de outro. Espero que eles tomem consciência disso. Se eles conseguissem raciocinar acima das suas diferenças, prestariam um serviço melhor ao País.

 

CC: Como promover na prática essa conversa?

CM: Todos os níveis envolvidos deveriam conversar diariamente. Começando pelas equipes do Butantan e da Anvisa. Vivi situações parecidas tanto quando estava na Anvisa, e portanto tinha a responsabilidade de autorizar ou não autorizar, tanto quando eu estava no Ministério da Saúde, quando a ansiedade era inversa. Estava absolutamente claro pra todos a necessidade de conversas contínuas sobre tudo o que vinha acontecendo. Não deve haver surpresas. As regras são conhecidas, os problemas são conhecidos.

 

O que precisa é cada um fazer sua parte, informar o outro, falar a mesma língua… Isso só acontece se houver proximidade. Não adianta mandar um ofício uma vez por mês.

 

CC: Quando, na sua opinião, essa relação se rompeu?

CM: A temperatura da polêmica cresceu quando houve questionamento da Anvisa em relação à vacina. Já naquele instante, ficou muito claro que havia uma postura de tratar um ao outro protocolarmente, mostrando o próprio serviço de um lado, e mostrando o desserviço do outro. Não fazia sentido. Quando se pensa em uma situação tão dramática como a gente vive, isso tem que ser tratado com a maior delicadeza, com a maior reverência possível, não faz sentido falar disso com trocas de ofício, publicações no Diário Oficial e pela imprensa.

 

CC: O Supremo agiu bem ao determinar vacinação obrigatória? 

CM: A vacinação individual é uma necessidade coletiva. Só teremos imunidade se a maior parte das pessoas receber a vacina. É absolutamente lícito que haja obrigatoriedade nisso, é claro, sem violência física. Achei apropriada a comparação com o voto.

 

CC: Essa prerrogativa não deveria ser do Ministério da Saúde?

CM: O que é temerário é o que vem antes, o que levou a esse ponto. Já há algum tempo coisas que não deveriam ser decididas pelo Supremo são decididas lá. As coisas de natureza política estão tão sem solução que são decididas lá. Agora, quando à decisão em si, é claríssima, está perfeita.

 

Esse discurso hipócrita da liberdade individual cai assim que as pessoas tomam qualquer tipo de vacina para fazer uma visita à Disney. Ninguém questiona se a vacina é obrigatória ou não.

 

CC: A confusão contribui para a desconfiança em relação à vacina?

CM: A cada sopro de um deles, pondo em xeque a qualidade da vacina, a necessidade da vacina, as dezenas de fake news, muitas pessoas passam para a condição de hesitantes. Essa é uma categoria quando se fala em desejo de vacinação. Os antivacina, felizmente, são muito poucos no Brasil. Mas alguns estudos mostram que os hesitantes crescem. Isso aumenta o risco de não conseguirmos atingir a cobertura necessária não pra eliminar, mas pra trazer a transmissão da doença a níveis suportáveis.

 

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