Degolas ideológicas de Bolsonaro atiçam apoiadores extremistas

Após manifestações de maio, presidente cortou cabeças de BNDES, Correios, Funai e Secretaria de Governo e passou por cima de militares

Foto: (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Foto: (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Política

Depois das manifestações de seus partidários extremistas em 26 de maio, atos que mostraram que sua base social e popular não pode ser desprezada, Jair Bolsonaro radicalizou. Por razões ideológicas, cortou cabeças no governo e passou por cima dos militares, vistos como moderados.

Em 4 de junho, o presidente recebeu a embaixadora indicada para Brasília pelo autodeclarado chefe de Estado venezuelano, o deputado direitista Juan Guaidó. A ala militar do governo brasileiro era contra, por ver incentivo a distúrbios políticos por lá e uma provocação a Nicolás Maduro. Bolsonaro não está nem aí. A Venezuela chavista é inimiga e pronto.

Uma semana depois, Franklimberg Ribeiro de Freitas foi demitido da Fundação Nacional do Índio. O general era contra desmontar a Funai e privilegiar fazendeiros em questões indígenas. “O presidente está muito mal assessorado”, disse ao Estadão. Bolsonaro gosta de fazendeiros e não gosta de indígenas. Não quis receber o histórico cacique Raoni, que em maio estivera no Vaticano.

Em 13 de junho, Bolsonaro degolou seu amigo Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo. O general perdeu a batalha com o chefe da Comunicação Social, Fabio Wajngarten. Este planeja usar a verba de publicidade federal para financiar mais órgãos de imprensa, como disse no Senado em 28 de maio, presumivelmente direitistas e pró-governo. Santos Cruz era contra.

No dia seguinte, em um café da manhã com jornalistas em que disse que quer ter “o direito de contar piada de cearense cabeçudo”, Bolsonaro anunciou a demissão de Juarez Aparecido de Paula Cunha do comando dos Correios. O general perdeu o emprego por defender que a empresa continue estatal e por portar-se feito “sindicalista”. O presidente é contra sindicato e quer vender os Correios.

Passaram-se 24 horas, e o ex-capitão bateu em Joaquim Levy, então presidente do BNDES. “Está com a cabeça a prêmio”, disse. Motivo: ter nomeado como diretor do banco um ex-colaborador do PT, Marcos Barbosa Pinto. “Falei para ele (Levy): ‘Demite esse cara na segunda ou eu demito você sem passar pelo Paulo Guedes (ministro da Economia)’”. Levy e Barbosa pegaram o boné no mesmo dia.

Um salve aos ‘guerreiros’ extremistas

Ao radicalizar, Bolsonaro mantém animados seus simpatizantes extremistas. Foi por eles que acredita ter sido eleito. Sua vitória foi conquistada graças a “10, 15% de guerreiros” que foram para o pau na internet contra os adversários, conforme afirmou em dezembro, na Cúpula Conservadora das Américas, Abraham Weintraub, hoje ministro da Educação.

E é com eles que Bolsonaro quer governar contra o que chama de “velha política”, vide os atos de 26 de maio. Uma equipe coordenada por professores universitários foi à Avenida Paulista naquele dia tentar identificar a motivação e o perfil da turma. Mais da metade (55%) declarou não ter partido, mas a posição da maioria era clara: 76% definiram-se de direita, 72%, muito conservadores.

De cada três presentes, dois eram homens, brancos, tinham de 35 a 64 anos e faculdade. Uns endinheirados: 54% com salário superior a 5 mil reais, mais do que o dobro da média dos trabalhadores. Em suma: “a elite branca furiosa” de que falava o ex-governador paulista Claudio Lembo no impeachment de Dilma Rousseff.

“Os reacionários não são conservadores”, afirma o cientista político e historiador americano Mark Lilla, da Universidade de Columbia, no livro “A mente naufragada: sobre o espírito reacionário”, de 2016. “São tão radicais quanto os revolucionários”. Só que não agem de olho em um futuro a ser construído. Miram um passado a ser recuperado.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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