Crise do coronavírus deve provocar demissões. Bolsonaro sobrevive?

Emprego já patinava e agora vai piorar, segundo previsões preliminares; sindicatos cobram estabilidade

Foto: Carolina Antunes/PR

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Política,Saúde

A pandemia de coronavírus vai provocar um estrago numa área que não tem estado nada bem desde o impeachment de Dilma Rousseff, o mercado de trabalho. A quarentena voluntária ou forçada das pessoas derrubará a atividade econômica e com isso o impacto no emprego será inevitável.

“Teremos demissões em massa, o desemprego voltará a subir”, diz Paulo Gala, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Para ele, ensaia-se uma retração do PIB de até 2% este ano. O pessimismo corre solto no “mercado”. O banco Credit Suisse, por exemplo, aposta em 0% de variação do PIB.

Um estudo de três professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Aline Magalhães, Débora Freire e Edson Paulo Domingues, projeta uma queda do emprego de 0,1% com o coronavírus. Isso faria o PIB cair 0,14% e a renda das famílias, 0,1%. Proporções que podem ser replicadas: se o emprego encolher 1%, o PIB andará 1,4% para trás e a renda das famílias, 1,1%.

Detalhe: “Os efeitos econômicos negativos da crise do coronavírus tendem a afetar mais a renda dos mais pobres”, anota o estudo. Esses “mais pobres” são os que ganham até dois salários mínimos, 2.090 reais. Um valor próximo à média recebida pelos 94 milhões de brasileiros que tinham algum trabalho em janeiro, de 2.361 mil, conforme o IBGE.

 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) acaba de prever que 25 milhões de pessoas serão demitidas por causa da pandemia, se os governos não agirem rapidamente. Antes da pandemia, a OIT já estava pessimistas sobre 2020. Em janeiro, estimou que o desemprego mundial teria 2,5 milhões mais pessoas, um total de 190 milhões. No caso do Brasil, projetava dois anos ruins.

Preocupadas, as centrais sindicais querem que, depois do coronavírus, o inimigo público número sejam as demissões. Em documento ao Congresso e ao governo, cobram garantia de estabilidade no emprego durante a crise e ampliação do seguro-desemprego. De onde tirar a verba? Suspendendo a lei do teto de gastos, que impede alta dos investimentos estatais, e o pagamento da dívida.

“Tem que ter estabilidade. É crucial. Já temos 13 milhões de desempregados e quando acabar tudo isso teremos quantos? 50 milhões?”, afirmou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre, depois de uma reunião das centrais na segunda-feira 16.

O País tinha em janeiro, último dado oficial do IBGE, 11,9 milhões de desempregados e uma taxa de desocupação de 11,2%. Esses números são um pouco maiores que os de dezembro de 2019, de 11,6 milhões e 11%, respectivamente. De um mês a outro, subiu de 4,6 milhões para 4,7 milhões a quantidade de pessoas que tinham desistido de procurar vaga, o chamado desalento.

Quando assumiram seus cargos, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, tinham encontrado 12,2 milhões de desempregados e uma taxa de desocupação de 11,6%. O desalento estava no mesmo patamar de 4,7 milhões.

São vagas precárias as que têm sido geradas no atual governo. A informalidade bate recorde, 40% em janeiro, segundo o IBGE. E são esses trabalhadores informais os que vão sofrer mais os efeitos econômicos do coronavírus, conforme o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em linha com o que dizem os professores da UFMG.

De acordo com o Dieese, o primeiro pacote de medidas anunciado por Guedes, em 16 de março, não tinha nada para os informais, só para quem tem carteira assinada, como o adiamento por três meses do pagamento do FGTS pelos patrões. Em entrevista coletiva em 18 de março, Bolsonaro e Guedes anunciaram o pagamento de 200 reais mensais para trabalhadores autônomos durante três meses. O gasto previsto será de 15 bilhões de reais.

Com Bolsonaro, o desemprego tinha recuado um pouco, embora se mantido alto, o que vinha ajudando-o até ter certa paciência por parte da população. Se as demissões dispararem, ele pode ter de enfrentar uma batalha pelo mandato como aconteceu com Dilma Rousseff em 2016.

A disparada do desemprego foi um dos combustíveis da degola da petista, ao derrubar sua popularidade e desanimar seus apoiadores de ir às ruas para defendê-la.

Em dezembro de 2014, fim do primeiro mandato dela, havia 6,5 milhões de desempregados e uma taxa de desocupação de 6,5%. Em maio de 2016, quando ela foi afastada do cargo provisoriamente (em agosto ano seria em definitivo), os números eram piores: 11,4 milhões e 11,2%.

Em meio à pandemia, o Congresso recebeu um pedido de impeachment de Bolsonaro. Foi apresentado por um deputado do Distrito Federal, Leandro Grass, do partido Rede Sustentabilidade.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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