CPI quer o explosivo e sigiloso inquérito do STF sobre fake news

E também planeja convocar empresas citadas em ações de cassação de Bolsonaro no TSE

Foto: Reprodução

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Política

A CPI das Fake News deverá convidar nos próximos dias a ministra Damares Alves, da Mulher e dos Direitos Humanos, para que ela fale sobre o combate à automutilação de crianças e jovens cometida em função de jogos de internet como o “baleia azul”. Será uma forma de tentar acalmar os ânimos bolsonaristas, à flor da pele com a investigação parlamentar.

Mas os planos traçados nos bastidores para uma espécie de segunda fase da CPI prometem acirrar o humor dos aliados do presidente Jair Bolsonaro, que agora tem dois filhos na comissão, o senador Flavio e o deputado Eduardo. Planos combinados com o comandante da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para garantir que o “centrão” vá às reuniões e ajude a aprovar o script.

Está no forno a convocação de empresas citadas em duas ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como responsáveis por disseminar na campanha de 2018, via WhatsApp, mentiras contra Fernando Haddad, numa operação em favor de Jair Bolsonaro. Empresas que até agora o TSE não quis ouvir. A convocação é proposta pela deputada Luizianne Lins, do PT do Ceará.

Também está pronto um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que compartilhe o conteúdo de um inquérito sigiloso aberto por lá, em março, sobre notícias fraudulentas e milícias digitais atuantes contra a corte. É uma proposta de outra deputada petista do Nordeste, a potiguar Natália Bonavides.

Esse inquérito atingiu um general bolsonarista em maio. Por ordem do juiz do caso no Supremo, Alexandre de Moraes, foram revistados endereços de Paulo Chagas, que concorreu a governador do Distrito Federal no ano passado. Um laptop dele foi apreendido na época.

Às vésperas das férias de julho do Supremo, corria por lá que esse inquérito, de número 4781, tem um conteúdo explosivo. E que não deixará dúvidas quanto à existência de uma ação difamatória contra o STF operada através de milícias digitais na internet.

Aliás, o presidente da CPI, Ângelo Coronel, do PSD da Bahia, foi vítima desses milicianos. Recebeu ameaça de morte. Na quarta-feira 18, ele contou no plenário que a polícia do Senado havia encontrado em Belo Horizonte o autor da ameaça. Este tinha criado oito perfis falsos na web e oito e-mails falsos para o ataque anônimo.

No início do inquérito, Moraes dizia acreditar na existência de uma rede de robôs “que alguém paga, alguém financia por algum motivo”. Será que ele já é capaz de apontar quem paga e por quê? Haveria ligação com as empresas mencionadas nas ações de cassação de Bolsonaro, no TSE, por abuso de poder econômico e uso deturpado dos meios de comunicação na eleição?

O juiz das duas ações na corte eleitoral, Jorge Mussi, até agora não atendeu o pedido dos advogados de Haddad, autores das ações, para tomar depoimento de dirigentes das empresas. Estas são sete, todas na mira de convocação pela CPI: Crock Services do Brasil, Quickmobile, SMS Market no Brasil, Yacowns Marketing Digital, AM4, Deep Marketing e Kiplix no Brasil.

As quatro primeiras apareceram em uma reportagem de 18 de outubro de 2018 da Folha, segundo a qual empresários bolsonaristas pagavam disparos maciços de mensagens contra Haddad e pró-Jair no WhatsApp. Um dos pagadores seria Luciano Hang, o dono das lojas Havan.

Hang acaba de ser condenado em definitivo pelo TSE por ter coagido funcionários a votar em Bolsonaro. Valor da multa: 2 mil reais. Uma ninharia para quem este ano entrou para a lista de bilionários da Forbes, o 18o mais rico do Brasil, com 2,2 bilhões de dólares. Na eleição, Hang havia sido multado em outra ninharia, 10 mil reais, por propaganda ilegal pró-Bolsonaro no Facebook.

As outras três empresas (AM4, Deep Marketing e Kiplix no Brasil) surgiram em uma reportagem da Folha de 2 de dezembro de 2018. Elas teriam obtido de forma ilegal o nome e o CPF de idosos e depois vendido esses dados. O comprador usou esses dados para comprar chips de celular pré-pago para, com estes chips, enviar de forma maciça mensagens anti-PT e pró-Bolsonaro.

A AM4 foi a principal fornecedora da campanha de Bolsonaro. O ex-capitão declarou ao TSE ter gastado 2,5 milhões na campanha, dos quais 650 mil (26%) foram à AM4.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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