Por que o reverendo Amilton Gomes é peça-chave no escândalo das vacinas

Ele prestará depoimento à comissão nesta terça-feira 3, na retomada dos trabalhos após o recesso do Poder Legislativo

Por que o reverendo Amilton Gomes é peça-chave no escândalo das vacinas

Política

A CPI da Covid retoma os trabalhos nesta terça-feira 3, após o recesso do Poder Legislativo. Na pauta desta semana – e das próximas – está o aprofundamento das investigações sobre a compra de vacinas pelo governo de Jair Bolsonaro, com foco em depoimentos de intermediários que negociaram doses com a gestão federal sem a autorização dos fabricantes.

 

 

O primeiro a ser inquirido pelos senadores é o reverendo Amilton Gomes de Paula, cuja oitiva está marcada para a manhã desta terça. Trata-se do fundador da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, a Senah, que entrou na mira da comissão por negociar vacinas da AstraZeneca com o governo.

E-mails indicam que o então diretor de Imunização do Ministério da Saúde, Laurício Monteiro Cruz, autorizou o reverendo a negociar 400 milhões de doses do imunizante com a Davati Medical Supply, outra peça fundamental no xadrez das vacinas.

Foi após a revelação desses e-mails que o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, pediu a convocação do reverendo. Originalmente, a oitiva foi marcada para 14 de julho, mas teve de ser adiada por falta de condições médicas pelo depoente.

Com o aval do presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, Amilton não terá de responder a questionamentos que possam incriminá-lo. O ministro, porém, negou o pedido apresentado pela defesa para que o depoente não comparecesse ou tivesse o direito de abandonar a sessão.

A primeira menção a Amilton Gomes de Paula se deu durante o depoimento do policial militar Luiz Paulo Dominguetti, apresentado como representante da Davati, em 1º de julho. Mensagens trocadas pelo PM ainda sugerem a participação da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

“Michele (sic) está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”, escreveu o PM a um interlocutor identificado como Rafael, conforme um diálogo de 3 de março deste ano. O ‘reverendo’ citado seria justamente Amilton de Paula.

Após a menção à primeira-dama, Rafael insistiu: “Quem é? Michele Bolsonaro?”. Dominguetti, então, confirmou: “Esposa sim”.

Rafael sugeriu, por fim, que Dominguetti acionasse o CEO da Davati no Brasil, Cristiano Carvalho. “Pouts. (sic) Avisa o Cris”.

Em 16 de março, o reverendo escreveu no Whats­App: “Ontem falei com quem manda! Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas!” A mensagem do fundador da Igreja Batista Ministério Vida Nova dirigia-se a Dominguetti.

Uma interlocutora do pastor, a misteriosa Maria Helena, deu a informação igual ao policial: “Ontem o rev esteve com o presidente”. Assim como um empresário de Santa Catarina, Renato ­Gabbi, parceiro do religioso na tentativa de vender imunizantes a estados e prefeituras: “Ontem o Amilton falou com Bolsonaro, ele falou que vai comprar tudo”.

Três dias antes, em 13 de março, em meio a tratativas do reverendo para falar com o “01”, Cristiano Carvalho escreveu a Dominguetti: “Verifica pra mim se o presidente vai atender hoje ou amanhã ou até na terça, porque aí eu preciso mudar o voo e preciso reservar o hotel, tá bom?”.

O PM, via áudio, respondeu: “Para falar com ele em agenda, eles conseguem marcar segunda, terça, quarta, que aí entra na agenda oficial. O que eles estão tentando é que o presidente te receba de forma extraoficial, entendeu?”.

Carvalho, também por áudio, devolveu: “O reverendo está falando que está marcando um café da manhã com o presidente amanhã, às 10h, 9h, sei lá, que vai ter um café com os líderes religiosos e a gente vai entrar no vácuo, tá? Agora tem que fazê-lo confirmar isso aí para a gente colocar uma pulguinha atrás da orelha do presidente, tá?”

Foi nessa negociação de 400 milhões de doses da AstraZeneca, segundo Dominguetti, que houve cobrança de propina de um dólar por dose por Roberto Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde. Ele nega as acusações.

 

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