CPI da Covid avançará sobre o ‘ministério paralelo’ e o Gabinete do Ódio, garante Omar Aziz

A CartaCapital, o presidente da CPI afirma que a falta de interesse do governo nas vacinas está provada: 'Apostou na imunização de rebanho'

Omar Aziz e Jair Bolsonaro. Fotos: Edilson Rodrigues/Agência Senado e AFP

Omar Aziz e Jair Bolsonaro. Fotos: Edilson Rodrigues/Agência Senado e AFP

Política

O presidente da CPI da CovidOmar Aziz (PSD-AM), avalia que a principal constatação dos primeiros trinta dias de trabalhos da comissão é a absoluta falta de interesse por parte do governo Jair Bolsonaro na aquisição de vacinas.

Mas as investigações também devem aprofundar a compreensão do alcance de duas estruturas fundamentais para a agenda do governo: o chamado ‘ministério paralelo’ de enfrentamento à pandemia, baseado na adoção de medidas negacionistas, e o Gabinete do Ódio. Tudo isso, garante Aziz, está na mira da CPI.

 

 

Em entrevista exclusiva a CartaCapital, o senador também respondeu diretamente a Bolsonaro, que, em transmissão ao vivo nas redes sociais na última quinta-feira 27, lançou mais uma provocação.

“Olha, eu não tô criticando o Senado, não, nem criticando todas as CPIs. Tem brilhantes parlamentares na CPI da Covid. Agora, Omar Aziz, pelo amor de Deus, né… Eu não quero entrar em detalhes aqui para discutir como era a saúde no teu estado no tempo em que o senhor foi governador aqui. E o que aconteceu depois, quem administrou a saúde no seu estado, não vou entrar em detalhe”, declarou o presidente. Aziz, porém, disse ser “muito pequeno” e pediu que Bolsonaro não se preocupe com ele. “Vá comprar vacina”, sugeriu.

A CPI da Covid completou um mês no dia 27 de maio e entrará em sua quinta semana de depoimentos, a ser inaugurada pela médica Nise Yamaguchi, apontada como membro do ‘ministério paralelo’ e defensora de medicamentos sem eficácia contra a doença. “Não é para dizer se a cloroquina presta. Ela não vai convencer ninguém lá”, antecipa Aziz.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com o presidente da CPI da Covid:

 

CartaCapital: Quais foram as principais constatações da CPI da Covid nestes primeiros trinta dias?

Omar Aziz: As primeiras constatações, baseadas nos depoimentos feitos principalmente pela Pfizer e pelo Instituto Butantan, são de que o governo nunca teve interesse de comprar vacina. Ele apostou no tratamento precoce e na imunização de rebanho, dito pela doutora Mayra [Siqueira, a ‘Capitã Cloroquina] quando esteve na CPI. Esse está constatado.

O ex-ministro [Eduardo] Pazuello foi lá, mentiu à vontade, dava declarações. Teve uma declaração dele de ‘por que a pressa com a vacina?’, ‘Dia D, Hora H’. Ele vinha com frases de efeito nada concretas, porque existia uma orientação superior para não comprar vacina, como disse o doutor Dimas Covas. Nós teríamos 60 milhões de doses em dezembro de 2020.

A mesma coisa a Pfizer: manda a primeira proposta para o governo. No dia 12 de setembro, sem ter qualquer resposta, encaminha um documento a seis pessoas do alto escalão do governo: ao presidente, ao vice, ao ministro Braga Netto, ao ministro da Saúde, ao Paulo Guedes e ao embaixador do Brasil nos Estados Unidos. E ninguém respondeu.

Aí, dois meses depois, um proprietário de televisão liga para o Fabio Wajngarten: ‘Olha, o pessoal da Pfizer está tentando conversar com vocês, liga para ele aí’. Aí o Fabio Wajngarten manda o documento para o CEO da Pfizer nos Estados Unidos e começa a ter reuniões. Depois dá entrevista para revista dizendo que nunca viu tanta incompetência.

 

CC: E a constatação de que havia – ou há – um gabinete paralelo?

O.A.:  Não tenha dúvida de que o presidente não sonhou com tratamento precoce e imunização de rebanho. Alguém o induziu a esse erro fatal, erro com mortes. Com certeza não fui eu. Esse gabinete paralelo é que o induziu. Tanto que tem aquela gravação do Arthur Weintraub com o Eduardo Bolsonaro. É desse jeito que a pandemia foi tratada.

 

CC: Na última quinta, Bolsonaro atacou diretamente o senhor e sugeriu que a CPI fosse encerrada. Como o senhor reage a isso?

O.A.: Eu sou muito pequeno. Não se preocupe comigo. Vá comprar vacina. A CPI não foi instalada para crucificar, tirar a cabeça, fazer julgamento público, mas para saber quais foram as omissões, e isso está comprovado.

Omissões claras de um ex-ministro militar, general de três estrelas, que recebeu uma ordem superior, mas não do Comando do Exército. Do Executivo. Para dizer o seguinte: ‘Para que a pressa?’, ‘A vacina vem no Dia D e na Hora H’.

A consequência dessas palavras ao vento foram vítimas da Covid. O gabinete paralelo nós vamos pegar, já temos nomes. A presença de Nise Yamaguchi não é para dizer se a cloroquina presta. Ela não vai convencer ninguém lá.

 

CC: O senhor teme que a CPI também possa servir de plataforma para servidores governistas divulgarem fake news, por exemplo, sobre o inexistente ‘tratamento precoce’?

O.A.: Nós vamos chegar nisso. Agora, não. Três missões da CPI têm que ser cumpridas: quem foi omisso na compra de vacinas e na propagação de medicação falsa; o gabinete paralelo, que induziu o presidente ao erro, que mantém e não faz autocrítica; e se aprofundar para saber do Gabinete do Ódio, sobre a questão das fake news que propagaram na internet. O próprio Ministério da Saúde teve um certo momento em que propagava lá que ‘só toma vacina quem quiser’.

 

CC: 18 governadores acionaram o STF apontando que a convocação deles à CPI foi inconstitucional. Como o senhor avalia essa decisão?

O.A.: Primeiro, quando a CPI foi criada, foi ali que os governadores foram convocados. Não foi na sessão em que eu coloquei para votar. Foi no dia em que aquele requerimento do senador Eduardo Girão foi apensado, porque a CPI inicial era sobre a omissão do governo federal e a falta de oxigênio no Amazonas. Aí, depois daquela conversa que vazou do presidente Bolsonaro com o [senador Jorge] Kajuru já fica claro que a palavra de ordem do presidente é melar a CPI.

99% da população e 100% da imprensa acharam que a CPI ia dar em pizza, e eu dizia que não vai. Eu sou árabe, na minha casa nunca faltou pizza. Pode juntar os dois [requerimentos] e não vai dar em pizza. Ela mostrou a todo mundo coisas de que não tinham conhecimento. A CPI fez com que o Brasil corresse para comprar vacina.

 

CC: Nesta semana, o senhor teve um duro embate com Girão, defensor da cloroquina. A postura dos senadores governistas tem irritado o senhor?

O.A.: Não, não tem irritado. É que você passa ali horas e alguns membros irritam querendo desmerecer a CPI. Nós fizemos um acordo de convocar todos os governadores que tiveram operação da Polícia Federal. Acordo com todos os membros da CPI em uma sala ao lado, reunião secreta. Chega lá o cara vai querer fazer discurso? Não dá para um senador se mirar no que a internet manda fazer. Está provado que tem centenas de pessoas utilizando fake news. Qualquer um vai para o top 10 do Twitter com um comando. É só dar um comando.

 

CC: O que o senhor espera do segundo depoimento de Pazuello?

O.A.: Constrangimento. Nunca as Forças Armadas passaram tanto constrangimento como estão passando neste momento. O presidente insiste em dizer ‘meu Exército, minhas Forças Armadas’. O único que poderia chamar de ‘meu Exército’ seria Duque de Caxias, que não está mais vivo. O Exército está a serviço da Pátria, e a Pátria somos todos nós. Isso causa um constrangimento muito grande. E a defesa que eu li é menosprezar a inteligência dos generais brasileiros, dizer que os caras vivem em uma caserna isolados e alienados.

 

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Editor do site de CartaCapital

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