Política

Editorial

Continuidade e novidade

por Mino Carta publicado 04/02/2011 08h27, última modificação 08/02/2011 13h20
Dilma vai na esteira de Lula, mas também mostra seu próprio estilo. Por Mino Carta
Continuidade e novidade

Dilma vai na esteira de Lula, mas também mostra seu próprio estilo. Por Mino Carta. Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Dilma vai na esteira de Lula, mas também mostra seu próprio estilo

Converso com lula há mais de 33 anos, quando Lula era apenas apelido. Todas as qualidades dele saíram de São Bernardo e o Brasil aprendeu a conhecê-las e a admirá-las. E o mundo, até. Hoje ele gosta de falar de sua sucessora, de evocar o passado e de expor os sentimentos de quem tem de “desencarnar”. O verbo recorre em sua boca porque o esforço para adaptar-se à nova vida causa alguma ventania entre o fígado e a alma.

A respeito de Dilma ele é o primeiro a reconhecer o quanto ela foi indispensável ao êxito do seu governo e a revelar ter visto nela a sua candidata ainda no final do primeiro mandato. O que, confesso, muito me agrada: foi quando me atirei a apostar nesta escolha e a escrever a respeito. A partir, para ser exato, do momento em que ela substituiu José Dirceu na Casa Civil. Ali, Dilma mostrou por completo a que viera.

Lula conta deste período episódios muito indicativos da personalidade da sucessora. Cabia a ela organizar as reuniões do ministério, pronta a interrompê-las ao meio da fala de um ministro, para dizer em tom peremptório, embora pacato: “Presidente, não é nada disso, o senhor ministro está dourando a pílula, de verdade a situação é outra”. E desfiava então os fatos na sequência exata e fornecia a interpretação correta.

Tratou-se claramente de uma parceria afinadíssima, que de alguma forma se mantém, garantida, em primeiro lugar, pela continuidade. Hoje Lula se ri de quem imaginou seu retorno em 2014: ele não tem dúvidas sobre o excelente desempenho de Dilma, pelo qual ela se habilitará com todos os méritos à reeleição. A continuidade é certa, mas as situações mudam naturalmente, de sorte a justificar adaptações, retoques, acertos, esperados de um governo efetivamente novo e em harmonia com a personalidade de Dilma.

A presidenta exibe amiúde características que não se encaixam no estereótipo brasileiro, digamos assim. Senso de responsabilidade profundo, discrição extrema, entronização de uma pontualidade insólita nas nossas latitudes. Há jornalistas dispostos a prever mudanças na política externa em relação àquela de Lula. Apressam-se, creio eu. Aposto, isto sim, em definições mais nítidas na política dos Direitos Humanos, o que já permitiu a Dilma condenar ao mesmo tempo transgressões cometidas em Cuba e nos Estados Unidos.

Cabe nesta moldura a resposta que a presidenta enviou ao presidente da República da Itália, Giorgio Napolitano, sobre o caso Battisti. Ponderada e elegante, marcada pelo respeito pela figura de um grande e honrado militante da esquerda e pela justa crítica às manifestações encenadas contra Lula e o Brasil pela direita peninsular. Observo que a decisão inicial de Tarso Genro e suas consequências tiveram o lamentável efeito de atiçar o reacionarismo em muitas praças italianas, efeito inevitável nas circunstâncias, mas certamente não cabia à presidenta aludir a este aspecto da questão.

Resta o fato de que Dilma acena na sua carta ao retorno do assunto às mãos do Supremo Tribunal Federal, chamado a verificar se Lula, com a sua negativa à extradição, agiu, ou não, conforme os parâmetros definidos pelo próprio STF. Ao analisar o tom da resposta, não faltam observadores inclinados a crer que desta vez o Planalto acatará a decisão da corte, baseada nos termos do Tratado de Extradição firmado com a Itália em 1998. Ou seja, na lei.

Se for assim, a extradição é inescapável, a não ser que os ministros mudem agora o seu voto, pelo qual não se reconhecia validade à aplicação do artigo terceiro do acordo, e, portanto, à singularíssima tese capaz de enxergar riscos até de vida para Battisti caso devolvido à Itália. Tampouco se admitia a natureza política dos seus crimes.

CartaCapital espera que a razão prevaleça. Também neste turvo episódio, os Direitos Humanos estão envolvidos. Os direitos dos familiares dos inocentes abatidos covardemente em nome de uma revolução deflagrada para derrubar um Estado Democrático de Direito, e à memória das próprias vítimas. Válida e até aconselhável é a comparação entre as cartas de Napolitano e de Battisti, esta também dirigida à presidenta e ambas divulgadas pela imprensa.

Aquele é o digno representante do Estado italiano empenhado em explicar as razões do seu país, este é um ladrãozinho do arrabalde romano, sanguinário e hipócrita, a produzir um raro exemplo de pieguismo adulador, confiante na parvoíce e na ignorância de quem até hoje o protegeu. Ou em alguma outra razão, insondável ­para ­CartaCapital, talvez perversa.

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