Política

Coimbra: Pandemia e queda do prestígio facilitaram a saída de Moro

Com atenção voltada à covid-19, diz o diretor do Vox Populi, saída de Moro tende a ser minimizada no curto prazo. Mas a conta chegará

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi e colunista de CartaCapital, destaca um fenômeno colateral inesperado da pandemia do coronavírus. Em todos os cantos do mundo, a popularidade dos governantes tem melhorado, tenha eles se portado corretamente ou tratado de forma irresponsável e criminosa a crise. “Está todo mundo assustado e preocupado e parecem precisar acreditar em quem ‘está no leme’”.

Serve para Jacinda Ardem, primeira-ministra da Nova Zelândia, um bom exemplo, serve para Bolsonaro, o pior governante do mundo, segundo as avaliações internacionais. A preocupação com a doença e suas consequências tendem ainda a minimizar outros problemas. Por isso, no curto prazo, este foi um bom momento para o ex-capitão se livrar do ministro Sérgio Moro, o que ele pretendia havia muito tempo e se concretizou nesta sexta-feira 24 pela manhã.

Bolsonaro não deve, porém, se iludir. A conta, diz Coimbra, desta e de outras, será cobrada mais tarde. “Passado ou minorado o susto, tanto quem tiver feito o trabalho bem feito quanto os incompetentes serão reconhecidos”. O cientista político afirma ainda que Moro mantém certo crédito entre parte dos apoiadores do ex-capitão, mas que o bolsonarismo “mais tosco” considerará a sua demissão irrelevante. Por fim, vê cada vez menores as chances de Bolsonaro se reeleger.

Confira a entrevista a seguir:

CartaCapital: As pesquisas mais recentes captaram uma melhora, ainda que marginal, do apoio a Bolsonaro, apesar da inação e do despreparo. Há uma explicação?

Marcos Coimbra: No mundo inteiro, em meio à pandemia, acontece um fenômeno ainda mal explicado. A avaliação de todos os chefes de estado e de governo tem melhorado. Talvez isso decorra do fato de que as populações estejam assustadas e preocupadas, parece que precisam acreditar que “alguém está no leme”. Isso beneficia bons e maus governantes, os que estão respondendo objetivamente bem aos problemas e os que erram, mentem e se mostram incapazes.

Ocorre com Donald Trump e com a Jacinda Ardem, da Nova Zelândia, exemplos opostos. Até Jair Bolsonaro, o pior chefe de governo do mundo, parece se beneficiar desse fenômeno. Mas a conta vai chegar: passado ou minorado o susto, tanto quem tiver feito o trabalho bem feito quanto os incompetentes serão reconhecidos.

CC: A partir dessa análise, diria que este momento não poderia ser mais apropriado para Bolsonaro se livrar do ministro Sergio Moro?

MC: Creio que sim, pensando no curtíssimo prazo. Mas na hora em que a conta chegar, estar sem seu ministro de exibição vai ser um problema para ele.

CC: O quanto Moro ainda agregava de apoio a Bolsonaro e ao governo?

MC: Difícil dizer, mas diria que ainda tinha peso, pensando na parcela menos irracional que ainda o apoia e para a qual Moro é uma marca de prestígio. Para os bolsonaristas mais toscos, a saída é irrelevante.

CC: Bolsonaro ainda pode sonhar com a reeleição?

MC: Sonhar não é proibido a ninguém, por enquanto. Mas a chance era pequena antes, dado o péssimo governo que faz, e ficará menor na hora em que acertos e erros na pandemia forem contabilizados. A chance dele é tentar reencenar 2018, o que é muito improvável, especialmente se o sistema político e o Judiciário limitarem as trapaças que o elegeram.

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