Ciro quer conquistar o eleitor que em 2018 foi mais anti-Lula que pró-Bolsonaro, diz presidente do PDT

Em entrevista a CartaCapital, Carlos Lupi avalia os cenários para o ano que vem e projeta um 2º turno com Lula e Ciro: 'A vitória da nação'

Ciro Gomes e Lula. Fotos: Evaristo Sá/AFP e Filippo Monteforte/AFP

Ciro Gomes e Lula. Fotos: Evaristo Sá/AFP e Filippo Monteforte/AFP

Política

A pesquisa Datafolha divulgada em 12 de maio que indica uma ampla vantagem do ex-presidente Lula (PT) nas projeções para o 1º e o 2º turnos das eleições de 2022 não significa, necessariamente, um retrato fiel da corrida ao Planalto, mas se explica por um conjunto de fatores positivos para o petista: decisões a serem celebradas no Supremo Tribunal Federal, uma exposição favorável e a comparação com o governo de Jair Bolsonaro. A impressão é do presidente do PDT, Carlos Lupi, que intensifica as articulações para fortalecer a candidatura presidencial de Ciro Gomes.

Em entrevista a CartaCapital nesta quarta-feira 19, Lupi disse não concordar com a recente escalada na retórica de Ciro contra Lula e ressaltou que o inimigo a ser enfrentado é Bolsonaro. Também demonstrou estar cada vez mais convencido de que Ciro e Lula podem disputar o 2º turno do pleito de 2022, com o atual presidente perdendo apoio popular e político. Nesse sentido, a estratégia pedetista passa, segundo seu comandante, por conquistar eleitores que há três anos votaram mais com um sentimento anti-Lula do que pró-Bolsonaro.

 

 

Conforme o último levantamento Datafolha, Lula tem 41% das intenções de voto no 1º turno, contra 23% de Bolsonaro. Na sequência, aparecem Sergio Moro, com 7%; Ciro Gomes, com 6%; Luciano Huck, com 4%; João Doria (PSDB), com 3%; e Luiz Henrique Mandetta (DEM) e João Amoêdo (Novo), com 2%.

Em um 2º turno contra Bolsonaro, Lula também aparece com ampla folga na liderança: 55% a 32%. O ex-presidente também superaria Moro (53% a 33%) e Doria (57% a 21%). Bolsonaro, por sua vez, empataria tecnicamente com Doria (39% x 40%) e perderia para Ciro (36% x 48%).

Trata-se do primeiro levantamento produzido pelo Datafolha após a decisão do STF de anular as condenações de Lula na Lava Jato e declarar a incompetência da Justiça Federal em Curitiba nos processos contra o petista. Isso, de acordo com Lupi, teve peso decisivo para levar o ex-presidente à liderança.

“Essa fotografia que coloca o ex-presidente Lula na frente é a fotografia de quem acabou de ter uma decisão favorável, com a anulação de seus processos, que teve uma exposição muito positiva e que faz a população comparar o atual governo, que é um desgoverno, com o governo dele, que teve algumas realizações importantes. Então, ele acaba sendo favorecido por esse quadro ideal. Vai ser manter daqui a um ano? Não sei”, declarou o presidente do PDT.

Leia abaixo os principais pontos da entrevista de Carlos Lupi a CartaCapital:

 

CartaCapital: Em recente entrevista, Ciro se referiu a Lula como “o maior corruptor da história brasileira” e disse que irá “para cima dele”. O senhor concorda?

Carlos Lupi: Foi uma entrevista longa, o Ciro tratou de vários temas econômicos, taxação das grandes fortunas, democratização do sistema financeiro, do projeto nacional-desenvolvimentista, e eles pegaram essa frase sobre o Lula e a pinçaram como se fosse o mais importante da entrevista. Mas eu não concordo com esse tipo de afirmação. Acho que nossa diferença com o PT e com o Lula tem que ser discutida no substantivo. Por exemplo: acho que o governo do presidente Lula teve vários aspectos positivos, como ganho real do salário mínimo, geração de empregos recorde (fui ministro durante cinco anos e contribuí com esse processo através do Ministério do Trabalho), o acesso à universidade, as cotas, muitos avanços.

E, em um setor que eu acho o mais delicado para o País, o câncer da sociedade moderna, que é o sistema do capitalismo selvagem que hoje domina o sistema financeiro, nós tivemos muitas falhas. O nosso querido BNDES, do qual fui conselheiro, aportou praticamente 80% dos seus recursos em grandes conglomerados, com a Friboi e a Odebrecht, grandes grupos nacionais, em desfavor do pequeno e do médio empresários, que são responsáveis por 60% dos empregos no Brasil. Isso é uma diferença.

Precisamos ter um sistema do Estado que seja incentivador do crescimento econômico baseado no pequeno e no médio, que precisam desse recurso para ter capital de giro, comprar e ter estoque. Estou dando exemplos de diferenças substantivas que nós temos e é isso o que temos que afirmar no debate político.

E atacar, sim, esse desgoverno, esse homem do ódio, esse profeta da ignorância que a cada dia discrimina e mata o povo brasileiro com esse comportamento de desconhecer a ciência e as recomendações internacionais, de atrasar as vacinas, de incentivar aglomeração. Esse é o nosso foco principal neste momento.

 

CC: Como o senhor avalia a pesquisa Datafolha que indica Lula com folga na liderança das intenções de voto para 2022?

CL: A pesquisa reflete a fotografia daquele momento. Se tivéssemos a eleição neste ano, ela seria uma tendência mais forte. Como a eleição é daqui a um ano e cinco meses, temos muita coisa para acontecer. Então, essa fotografia que coloca o ex-presidente Lula na frente é a fotografia de quem acabou de ter uma decisão favorável, com a anulação de seus processos, que teve uma exposição muito positiva e que faz a população comparar o atual governo, que é um desgoverno, com o governo dele, que teve algumas realizações importantes. Então, ele acaba sendo favorecido por esse quadro ideal. Vai se manter daqui a um ano? Não sei. Como é que será esse processo? Como fica Bolsonaro?

 

Desde o ano passado, tenho uma avaliação de que poderemos ter Bolsonaro fora do 2º turno. E podemos ter, o que para mim é o sonho, a vitória da nação, uma disputa entre Lula e Ciro. E por que não?

 

Acho isso baseado em três fatos: primeiro, Bolsonaro tem hoje menos da metade dos votos que teve na eleição; segundo, a cada dia que fala ele perde alguma coisa, perde um voto, perde um segmento; e terceiro, o segmento mais radicalizado, da política do ódio, da discriminação, de parcela dessas igrejas mais fundamentalistas que odeiam a diversidade da sociedade, não passa de 15%. E acho que é isso que será a base eleitoral do Bolsonaro.

E o desespero dele é tanto que ele não fala dessa questão do voto impresso com o discurso do Leonel Brizola, que falava da necessidade do voto impresso para permitir a recontagem, permitir que as urnas eletrônicas tivessem um papel pequeno, como esses de cartão de crédito, para ser arquivado e, onde tiver dúvida, permitir a recontagem. Não achando que isso fosse um instrumento para você garantir a sua eleição, para denunciar que qualquer resultado que não fosse ele, Bolsonaro, o vencedor, seria uma fraude. Isso é uma estratégia de quem está se sentindo derrotado. Na minha convicção, acho que o 2º turno acontecerá entre Lula e Ciro Gomes.

 

CC: A estratégia do PDT para 2022 passa pela aproximação e pela aliança com partidos de centro-direita e até de direita?

CL: Nesse campo também temos uma disputa com o PT. O PT tem essa visão também. O PT teve [como vice-presidente] um grande brasileiro, José Alencar, um grande empresário, mas um conservador. O PT teve o apoio de José Sarney, de Renan Calheiros, do PP. Isso quer dizer que o PT está indo para a direita? Não, isso faz parte de se tentar ampliar o espectro de uma campanha, de fazê-la crescer. Então, essa disputa nós estamos travando com o PT. O PT também está procurando todos esses partidos mais conservadores para tentar uma aliança que amplie, e nós também estamos tentando.

Isso é do processo político, do processo natural de que, sozinho, não se vai a lugar nenhum. Você precisa de aliança. Nós vamos fazer essa disputa democrática para ver quem consegue ter apoios maiores para viabilizar e ganhar a eleição.

 

CC: Com o programa que apresenta, Ciro pode aglutinar esses setores?

CL: A direita já tem sua representação no Bolsonaro, então a gente não disputa esse campo. Esse campo mais de centro e que, conforme se aproxima o processo eleitoral, se aproxima de um campo mais à esquerda ou mais à direita, é disputado em cima de projetos. É o que nós queremos fazer. O nosso projeto de taxação das grandes fortunas, de democratização do sistema financeiro.

O que eu chamo de democratização? O Brasil não pode estar nas mãos de três bancos controlando praticamente 80% do sistema financeiro. Somos tão a favor da democracia que queremos copiar os americanos. Lá, estados e municípios têm bancos a se perder a conta. Tem estados americanos com 50 bancos. Nós queremos essa democratização, que se pulverize esse sistema financeiro, para se facilitar a ajuda ao pequeno e médio produtor, ao pequeno e médio cidadão que quer construir sua casa, comprar seu carro, ter mais dignidade na vida.

Agora, o que viabiliza uma aliança é a viabilidade eleitoral do candidato. Se – e eu acredito que isso acontecerá – com a derrocada do Bolsonaro o Ciro começar a crescer, com esse público mais ao centro que é anti-Lula mas não é colado ao Bolsonaro, que votou ali mais com um sentimento anti-PT e anti-Lula do que a favor do Bolsonaro, esse eleitorado pode vir para a gente. O Ciro se viabilizando terá as alianças necessárias.

 

CC: O PDT se compromete a, caso não chegue ao 2º turno, apoiar qualquer candidato do campo democrático que enfrente Bolsonaro?

CL: Já temos uma unidade de luta. No Congresso Nacional, há um bloco com PDT, PT, PSB, Rede, PV, Cidadania. Isso funciona harmonicamente nas lutas do dia a dia na Câmara e no Senado. Não há obstáculo à unidade em defesa da soberania nacional, do interesse público e da denúncia do autoritarismo, do ódio e do desmando que representa esse governo.

A questão eleitoral é outra. Vamos lutar e trabalhar para estar no 2º turno. Se não estivermos, garanto uma coisa: não há hipótese de o PDT apoiar qualquer candidato da direita, muito menos o Bolsonaro. Aliás, já fizemos na eleição passada: apoiamos o Haddad. Foi um apoio crítico, não queríamos participação no governo, mas jamais apoiamos o Bolsonaro.

É que o pessoal usa muito aquele negócio de o Ciro ter viajado. Inclusive alguns dizem que o Ciro não votou, o que é mentira. Eu o acompanhei no dia da votação. Ele não fez campanha, o que era um direito dele também. Ele se sentiu muito agredido naquele processo eleitoral, pelo PT, pela maneira como o trataram, pelas alianças que minaram e que poderiam ser nossas. A gente tem que compreender o homem em seu tempo.

Mas não há hipótese de o PDT apoiar qualquer candidato que não seja de força popular se o PDT não estiver no 2º turno. Como acho que a gente estará no 2º turno, essa discussão existirá.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: leomiazzo

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