Política

Centrão é destaque e Bolsonaro é o grande perdedor das eleições, afirma cientista política

Em entrevista a CartaCapital, Vera Lúcia Chaia, professora da PUC-SP, avalia que eleitores rejeitaram o negacionismo

Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil - Sergio Lima/AFP
Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil - Sergio Lima/AFP

Os grandes vencedores das eleições de 2020 foram os partidos que compõem o chamado “centrão”, enquanto o bolsonarismo foi o principal derrotado nas urnas. A avaliação é da cientista política Vera Lúcia Chaia, professora da PUC-SP, em entrevista ao canal de CartaCapital no YouTube nesta segunda-feira 30.

No pleito, os eleitores indicaram uma “reabilitação” dos partidos que tentam se colocar como o “centro político” e rejeitaram a extrema direita e o negacionismo. “Com [Bruno] Covas e [Eduardo] Paes, ouvimos as palavras ‘chega de radicalismos’. Covas defendeu o cientificismo. Não houve um confronto direto contra o [Jair] Bolsonaro, mas as falas foram importantes. E o eleitor soube escolher. Escolheu quem era de centro. Bolsonaro foi o grande perdedor do processo eleitoral. A radicalização, a extrema direita, uma posição de intolerância, de anti-cientificismo – ‘é uma gripezinha, um resfriadinho’ -, isso levou o eleitor a se manifestar criticamente ao Bolsonaro”, disse a professora.

Segundo ela, a grande vitória nas eleições municipais engloba DEM, PSDB, PP e MDB. “É uma tendência do eleitorado de privilegiar o centro. Não a extrema direita, nem o lado da esquerda ou dos progressistas. O DEM se recuperou muito desde o governo Michel Temer, a partir do momento em que ocupou ministérios e cargos importantes no Legislativo”, disse Chaia, citando o surgimento de duas importantes lideranças nacionais no DEM: o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e o prefeito de Salvador, ACM Neto.

Na entrevista, a professora também analisou os fatores que podem ajudar a explicar a diferença entre pesquisas de intenção de voto às vésperas do segundo turno e o resultado concreto nas urnas. “Ibope e Datafolha erraram todas. Tem um lado que é imponderável: você tem que analisar a abstenção. Quando o instituto faz perguntas, não se pensa na abstenção”, disse. “Nunca tivemos tanta abstenção. É difícil as pesquisas preverem esse nível de abstenção”, completou.

Leia outros pontos da entrevista e, ao fim do texto, assista à íntegra do vídeo:

A situação do PT

Em 2016, o PT conquistou 256 prefeituras. A partir de 2021, porém, a sigla comandará 183. O decréscimo indica, na avaliação de Vera Lúcia Chaia, uma necessidade de repensar a política de alianças do partido.

“O PT deveria ter juntado forças com os partidos de esquerda, progressistas. O erro do PT é bater cabeça e dizer que ‘vamos ter uma candidatura’. Em São Paulo, estava se formando uma opinião muito forte de que [Guilherme] Boulos podia se sair muito bem nas eleições, mas o PT bateu firme e resolveu colocar o Jilmar Tatto como candidato. A eleição mostrou a necessidade de união, de coligação”, avalia.

A professora, no entanto, acredita na possibilidade de o PT reverter o degaste que se acentuou nas eleições de 2018 e ecoou no pleito municipal deste ano. “Tem que fazer alianças, construir um processo de reativação das coligações progressistas e, com isso, pode recuperar a credibilidade e os eleitores”, afirma.

Chaia afirma ainda que o PSOL sai destas eleições como uma alternativa de esquerda “que ganhou e muito”. “No caso do Boulos, é uma liderança que se destacou e que pode se fortalecer mais, a partir do momento em que ele consiga reativar essas alianças”.

Manuela D’Ávila, em Porto Alegre, e Marília Arraes, no Recife:

Segundo a professora Chaia, o machismo foi preponderante para o revés das candidaturas progressistas nas capitais do Rio Grande do Sul e de Pernambuco.

“A gente sabe que o Brasil é um país machista, preconceituoso. As campanhas sofreram um ataque enorme de fake news. A mulher é sempre criticada e tem sempre um estereótipo. Vimos um ataque frontal contra essas candidaturas progressistas, de esquerda. Em Recife, tem uma mágoa enorme do PSB, por causa do passado com o Eduardo Campos e a imposição que o Lula fez de colocar uma candidatura que era forte no primeiro momento, mas que se mostrou frágil após os ataques começarem”, avalia.

Ciro Gomes

O ex-ministro Ciro Gomes, cada vez mais atrelado à liderança do PDT a nível nacional, sai fortalecido das eleições municipais, na opinião da cientista política.

“A partir do momento em que [Ciro Gomes] começou a conversar com políticos ligados ao setor progressista, ele se fortaleceu. No caso de Fortaleza, foi uma vitória não tão expressiva, mas grande, que reuniu em torno do candidato [Sarto] uma frente de esquerda. Ele se destaca enquanto uma liderança expressiva, mas com capacidade de crescimento”, afirma a professora.

A sonhada frente de esquerda em 2022

Conforme a avaliação de Vera Lúcia Chaia, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e Guilherme Boulos (PSOL) se apresentam como nomes fortes para uma eventual aliança projetando 2022.

“Dino é um político bastante habilidoso. Ele é capaz de fazer a articulação. Perdeu a Prefeitura de São Luís, mas foi eleito duas vezes governador. Uma nova liderança que a gente está vendo é o Boulos, que superou as expectativas. Ontem, a live que ele fez em casa mostrou um avanço em termos de uma liderança. Ele fala muito fácil, se expressa muito bem, tem propostas nesse sentido. É uma liderança que pode ganhar um espaço muito grande”, comenta.

Fake news

Segundo a professora, houve uma diminuição no volume de fake news disseminadas nas eleições municipais em comparação às últimas eleições, mas as informações falsas contra as mulheres persistiram. “Marilia e Manuela sofreram muito com as fake news”, afirma.

No Rio de Janeiro, cidade em que o candidato à reeleição, Marcelo Crivella (Republicanos), fez uso sistemático de notícias falsas contra Eduardo Paes (DEM), o impacto foi menor.

“Eduardo Paes já é um político tradicional, ocupou duas vezes a Prefeitura, então foi tranquilo. Ele tinha um opositor fraco, sem qualquer possibilidade de eleição e, muitas vezes, simplesmente ignorou. Não bateu boca. No caso da Manuela e da Marília, é mais complicado, porque o partido tem que assumir, debater. Faltou um acompanhamento mais preciso dos partidos em relação a essas respostas”, analisa.

Assista à íntegra da entrevista:

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