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Rosângela Moro transfere o domicílio eleitoral para Curitiba de olho na vaga do marido no Senado

“Conjes”. Moro está com a cabeça a prêmio. Rosângela vislumbra uma oportunidade – Imagem: Cléia Viana/Ag. Câmara
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No Paraná, a cassação do mandato do senador Sergio Moro, do União Brasil, é dada como certa. Em 1º de abril, o Tribunal Regional Eleitoral deverá retomar o julgamento do ex-juiz, que responde a duas ações, por abuso de poder econômico e caixa 2, movidas pelo Partido Liberal e pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Moro foi eleito em 2022 com 1,9 milhão de votos. Derrotou o candidato de Jair Bolsonaro, Paulo Martins, do PL, o ex-governador e senador Álvaro Dias, do Podemos, por ironia, seu padrinho político, e o também ex-governador e senador Roberto Requião, que trocara o MDB pelo PT. Se a condenação for confirmada pelo TRE e, mais tarde, pelo TSE, será necessário convocar nova eleição para a vaga.

Como um bom coronel da política, figura que dizia abominar, Moro busca, digamos, uma solução interna para não se ver desprovido completamente de poder. Sua mulher, Rosângela, eleita deputada federal por São Paulo, anunciou a intenção de transferir o domicílio eleitoral de volta a Curitiba. A mudança seria o primeiro passo para uma eventual candidatura à vaga do “conje”. Caso a manobra seja aprovada pela Justiça Eleitoral, os paranaenses terão a opção de manter um Moro no Senado.

Os diretórios do PT paranaense, curitibano e paulista entraram com recurso. “Nesta situação, não estamos pedindo qualquer punição à parlamentar, apenas que seu domicílio não possa ser transferido para o Paraná, enquanto ela é deputada por São Paulo. O domicílio eleitoral não é somente uma condição para se candidatar, uma formalidade a ser respeitada por 45 dias, mas um vínculo que deve manter-se por todo o mandato”, afirma o advogado Eduardo Peccinin. “Mais uma vez, a família Moro mostra-se pouco simpática à lei e frauda a vontade do eleitor que confiou a ela o seu voto”. Segundo ele, mudar de domicílio não é só uma fraude ao eleitor paulista, mas um prejuízo ao estado, por ter deixado de eleger uma parlamentar com vínculos reais com a unidade da federação. “Se não colocarmos um limite agora a esta manobra, São Paulo tende a se tornar um estado de ‘domicílio de aluguel’ para as celebridades com sede por um mandato. Essa iniciativa já foi rechaçada pelo TER paulista quando Moro tentou a mesma tática e confiamos que aqui teremos a mesma solução.” Rosângela Moro não atendeu aos nossos pedidos de entrevista.

Embora não se saiba quando o processo contra o ex-juiz estará concluído e quando seria convocada a eleição, a movimentação dos demais partidos é intensa. Na federação PT-PCdoB-PV, três nomes se apresentam: a deputada federal e presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, o também deputado petista Zeca Dirceu e Requião. “Por enquanto, são apenas especulações” afirma o presidente da legenda no Paraná, Arilson Chiorato.

O ex-juiz será julgado no TRE por abuso de poder econômico e caixa 2

Atocaiado desde a derrota em 2022, Dias não se manifesta. “O Álvaro sente-se traído e nunca engoliu a atitude do Moro”, confidencia um amigo e antigo assessor.

Ricardo Barros, deputado federal pelo PP, ex-ministro da Saúde no governo de Michel Temer e atual secretário da Indústria, Comércio e Serviços de Ratinho Júnior, do PSD, também ensaia entrar no páreo. Influente no estado, o parlamentar formou uma dinastia na política. Seu irmão, Sílvio, foi duas vezes prefeito de Maringá. A filha, Maria Victória, é deputada estadual, e a mulher, Cida ­Borghetti, ocupou o posto de vice-governadora de ­Beto Richa. O deputado confirmou a ­CartaCapital que busca o apoio de Ratinho Júnior e do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas qualquer que seja o resultado dessas iniciativas, não abre mão da disputa.

A grande incógnita é saber quem será o candidato apoiado pelo governador. Em 2022, o ungido foi Paulo Martins, candidato do PL, que terminou em segundo lugar. Ratinho Júnior sonha, porém, com o Palácio do Planalto e eleger um aliado do ex-capitão pode não ser uma boa opção. Melhor criar um grupo para chamar de seu. Há quem aposte em seu secretário da Saúde, Beto Preto. No vácuo, o deputado federal Beto Richa, PSDB, tentou ocupar o espaço, mas se deu mal. Esteve reunido com Bolsonaro em Brasília para se filiar ao PL e disputar a prefeitura de Curitiba. Foi obrigado a recuar, pois, além de críticas recebidas de bolsonaristas, seus pares tucanos avisaram que não dariam a carta de anuência para a mudança de sigla. Richa, duas vezes prefeito da capital e duas vezes governador, é o único representante do tucanato paranaense na Câmara dos Deputados. Na última eleição, fez pouco mais de 65 mil votos e ficou na primeira suplência. Só assumiu porque a candidatura de Jocelito Canto foi indeferida pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Até Michelle Bolsonaro teve o nome ventilado como opção do partido. Para tanto, a exemplo de Rosângela, teria de transferir o domicílio eleitoral até 6 de abril. Um levantamento do instituto Paraná ­Pesquisas, divulgado em outubro de 2023, apontava a ex-primeira-dama em primeiro lugar para a vaga de Moro, com 35,7% da preferência dos eleitores, seguida por Dias (24,4%) e Hoffmann (16,2%). Em entrevistas, Fernando Giacobo, presidente do PL no estado, afirmou que a escolha será feira por Bolsonaro e Valdemar Costa Neto.

A disputa promete ser acirrada. Nem os especialistas arriscam um palpite. Para Rogério Bonilha, sociólogo, ex-professor da Universidade Federal do Paraná e presidente do Instituto Bonilha, ainda é prematuro lançar qualquer prognóstico sobre as candidaturas e seus desdobramentos, uma vez que o cenário político eleitoral está em constante evolução e, nestes casos, uma série de variáveis está em jogo. Bonilha comparou os candidatos a surfistas em um grande campeo­nato em alto-mar, no qual “cada um espera a onda perfeita para conquistar a vitória”. Há, no entanto, correntes submarinas ocultas que podem mudar de direção a qualquer momento. “Por enquanto, o que temos são especulações, mas pouco se sabe sobre as ‘correntes’ que podem alterar o cenário político. Assim, é crucial manter uma postura cautelosa e aguardar o desenrolar dos acontecimentos.” •

Publicado na edição n° 1303 de CartaCapital, em 27 de março de 2024.

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