Às vésperas do aniversário do golpe de 1964, Bolsonaro estimula o caos

Defesa cancela solenidades devido ao coronavírus e não haverá festejos militares pelo 31 de março como em 2019

 Foto: Marcos Corrêa / PR

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Política

Treze milhões de brasileiros moram em favelas e para eles o coronavírus é um terror. De cada dez, oito já perderam renda com a pandemia e acham que perderão mais, sete terão um padrão de vida pior sem a renda atual. Dois de cada três temem adoecer. “Esse quadro pode indicar uma convulsão social num futuro próximo”, diz Renato Meirelles, do instituto que fez a pesquisa, o Data Favela.

É um prognóstico coincidente com o de Jair Bolsonaro, que fala em “caos”. A possibilidade não é, porém, apenas descrita pelo presidente. Político da linha dos “Engenheiros do caos”, conforme um livro italiano de 2019, o presidente parece desejar esse quadro agora, como se nota em suas atitudes e na dos filhos. Aproveitará outro aniversário do golpe militar de 1964 para botar lenha na figueira?

No ano passado, seu primeiro no cargo, mandou as Forças Armadas festejarem o dia 31 de março, data do golpe que iniciou a ditadura vigente até 1985. Agora não haverá comemorações formais. Uma portaria de 17 de março do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva, cancelou todas as solenidades militares, para evitar aglomerações em tempos de coronavírus.

A data do golpe deverá ser lembrada apenas com um discurso do comandante do Exército, general Edson Pujol, segundo CartaCapital apurou. Mas e Bolsonaro, o que fará?

O cancelamento de cerimônias em função da pandemia foi conveniente para Pujol, que coleciona sinais de má vontade com Bolsonaro, e a alta oficialidade das Forças Armadas, neste momento de radicalização presidencial. O que não significa que não haja identidade entre eles. A visão sobre o golpe une Bolsonaro e os quartéis. Todos veem um mesmo “inimigo interno”: a esquerda.

“Estamos falando de impedir a implantação de um regime totalitário de esquerda e comunista no Brasil. É disso que estamos falando”, afirmou Pujol sobre o golpe, em março de 2019. “O caos faz com que a esquerda aproveite o momento para chegar ao poder”, disse Bolsonaro no último dia 25.

Na entrevista na porta do Palácio da Alvorada em que fez tal comentário, teorizou sobre o que virá em decorrência da quarentena contra o coronavírus. “Poderemos ter os mais variados problemas no Brasil, como saques nos supermercados.” Para ele, “o que aconteceu no Chile vai ser fichinha”, e talvez o País até saia “da normalidade democrática”.

Créditos: Flickr

A convulsão social chilena em outubro de 2019 já tinha sido usada pelo ex-capitão como pretexto para invocar o espírito da ditadura. Na época, mandou ao Congresso uma lei com uma licença para militares e PMs matarem manifestantes, o excludente de ilicitude. Também naqueles dias, seu filho Eduardo evocou um ato da ditadura, o AI-5, como algo necessário “se a esquerda radicalizar”.

Um dia após o pai dizer que “o caos está aí”, Eduardo e o irmão Carlos divulgaram no Twitter um vídeo com quatro situações ilustrativas de inquietação popular com as quarentenas estaduais.

O vídeo mostra inicialmente uma senhora negra da cidade baiana da cidade de Floresta Azul, que diz ser mãe de seis filhos, aos gritos contra uma lotérica fechada. As lotéricas são locais em que se pode sacar Bolsa Família. Em seguida, surge um motoboy cearense diante de uma fila enorme de pessoas que, segundo ele, estão atrás de comida.

Os dois outros personagens do vídeo são caminhoneiros. O primeiro motorista na boleia de seu veículo e diz que dirige naquele momento na rodovia Dom Pedro, no estado de São Paulo, com dois pneus furados, depois de trafegar em vão por 160 km atrás de um borracheiro aberto. “O Brasil vai parar”, afirma. O segundo: “Nós que tamo transportando” alimento.

No dia em que seus filhos replicaram esse vídeo, Bolsonaro colocou no Facebook um outro. Este mostrava uma carreta na cidade de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, que celebrava o recuo do governador bolsonarista do estado, Carlos Moisés (PSL), na quarentena. Um incentivo presidencial à desobediência civil.

Bolsonaro revolta-se com as quarentenas decretadas por governadores. Teme que provoquem demissões e ele pague o pato. “Se a economia afundar, acaba o governo”, disse em 16 de março. Fim também do sonho de reeleição em 2022. Por isso, tenta jogar a culpa nos governadores e insiste em dizer que é “gripezinha” e que os brasileiros deveriam voltar à vida normal.

A maioria da população (64%) não confia na capacidade do presidente de lidar com a pandemia, segundo uma pesquisa encomendada pelo jornal Valor. O Exército também não vê “gripezinha”. “Talvez seja a missão mais importante da nossa geração”, disse o general Pujol em um vídeo às tropas. “Estamos implementando medidas para salvaguardar a saúde e a higidez de todos nós.”

Uma dessas medidas, informou a Folha em 27 de março, foi mandar todos os militares com idade acima de 60 anos, faixa etária a partir da qual o covid-19 é mais letal, trabalharem de casa. Um total de 1.275 pessoas.

Para Bolsonaro, não é papel do poder público cuidar dos idosos durante a pandemia. Cada família que se vire, disse. O País têm 20 milhões de pessoas acima de 65 anos, segundo o IBGE.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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