“As pessoas não raciocinam?”, diz Mandetta sobre isolamento social

Em entrevista que rendeu até analogia com Casa Grande & Senzala, ex-ministro diz que escreve livro sobre enfrentamento à covid-19 no Brasil

(Foto: Erasmo Salomão/MS)

(Foto: Erasmo Salomão/MS)

Política,Saúde

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou em uma entrevista à coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, que está escrevendo um livro sobre sua passagem pela pasta no planejamento do controle do coronavírus no Brasil. Ele se negou a comentar categoricamente sobre o presidente Jair Bolsonaro, que o demitiu, e ainda fez uma analogia com “Casa Grande & Senzala“, clássico de Gilberto Freyre, para demonstrar que pede a volta à vida normal: “Só quem está gritando é a Casa Grande, que está vendo o dinheiro do engenho cair.”

Na entrevista, o político, que é deputado eleito pelo Democratas, afirmou que já está escrevendo o futuro livro baseado em suas anotações e materiais coletados. “A quantidade de relatórios que a gente gerou já dá um tom”, disse. Mesmo no centro da crise política gerada pelo aumento do número de casos de coronavírus, Mandetta afirmou que não deve escrever sobre os embates com Bolsonaro – pelo menos não tão cedo.

“Não vou falar de política. Eu acho que não ajuda no momento. Tem que ter um distanciamento maior para falar disso [da relação dele com o presidente da República]. Vou falar do que vivi. De como os EUA desfizeram as compras internacionais, por exemplo.”, disse o ex-ministro em fala destacada o jornal.

Conforme a pandemia chegava ao Brasil e o então ministro ajustava o controle da resposta brasileira à covid-19, a popularidade de Mandetta foi crescendo ao passo que a de Jair Bolsonaro ia caindo. Questionado sobre planos de tentar concorrer às eleições de 2022, o deputado desconversou: “E eu sei lá! Eu não sei é de nada. Agora o que eu sei é que preciso cortar o cabelo.”, disse.

Sobre sua despedida, que foi impulsionada pelo clamor de Bolsonaro ao fim do isolamento social, Mandetta destacou que o abraço dado em uma servidora em meio à pandemia é passível de um “pito”. “Na despedida, a gente escolheu um para dar abraço em nome de todos. Todo mundo queria me abraçar. Os funcionários choravam, foi uma comoção. Escolhemos uma delas para me dar o abraço em nome de todos. Mas tá errado. Totalmente errado.”, diz.

Para conter a epidemia, somente o distanciamento social – e os resultados, segundo o ex-ministro, são palpáveis e pouparam o País de atingir cifras ainda mais trágicas do que as 2.575 mortes já alcançadas e os mais de 40 mil casos em tratamento.

“Chegamos a picos em que 79% das pessoas ficaram em casa. O Rio de Janeiro e São Paulo, os governadores estão comprometidos. Eles conseguiram, em duas semanas, quebrar a inclinação em espiral. Nova York não conseguiu isso, Chicago não conseguiu, Los Angeles não conseguiu. A gente conseguiu. Nós domamos a curva.”, disse. “E precisava eu falar alguma coisa [a favor do isolamento social]? Nós vimos o que aconteceu na Itália, na Espanha, em Nova York. As pessoas não raciocinam?”, declarou.

Para ele, que está em uma fazenda que possui no Mato Grosso do Sul, sua terra natal, apenas a Casa Grande – uma analogia à elite – tem reclamado das condições de isolamento social e de fechamento do comércio. Estariam esperando a senzala “voltar a funcionar”.

“A Casa Grande arrumou o quarto dela, a despensa está cheia. Tem o seu próprio hospital. Ela lamenta muito o que está acontecendo –mas quer saber quando o engenho vai voltar a funcionar.”.

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